5 de fevereiro de 2015 | Artes | Texto: | Ilustração:
A arte mais íntima: diário visual

Todo mundo sabe que a pintura, a literatura, a música etc. são arte. E que, de alguma forma, a arte toca no fundo de nós – seja para a adorarmos, seja para a odiarmos. Todas elas, porém, apesar de pegarem na alma, são criadas de maneira criteriosa, com teoria e raciocínio lógico (mesmo quando a lógica é o caos). É preciso métrica, ritmo, é importante pensar na forma, editar a primeira, segunda, terceira versão do que virá a ser a arte que conhecemos por aí. Mas de uns tempos pra cá, uma outra forma de expressão passou a ser vista por algumas pessoas como arte. Esta forma é o nosso bom e velho diário.

É importante saber que, quando me refiro a diário aqui, não necessariamente estou falando daquele caderno com cadeado em que se escreve religiosamente sobre o que aconteceu no seu dia – aliás, nunca conheci ninguém que de fato conseguiu a proeza de manter um desses por mais de uma semana; eu mesma já tentei muitas vezes na vida, mas não consigo deixar em dia nem diário de viagem, que tem dias contados, imagina então algo com tempo indefinido! Assim, quando falo em diários aqui, refiro-me a qualquer caderno que você use para anotar coisas aleatórias. Aquele caderno que você carrega pra todo o canto, caso tenha um tempo no ônibus para desenhar, ou em que anota um endereço que precisa saber e, por vezes, até desabafa seus sentimentos ou se arrisca em um poema. Sabe esse caderno? É dele que estamos falando.

Futucando a internet uns tempos atrás, topei com a expressão art journal, a qual traduzo livremente para diário (ou caderno) artístico. A ideia é simples: encarar esse caderno que levamos na bolsa como uma forma de arte. Outra expressão que vi muito foi visual diary (diário visual) porque, nesse diário, se opta principalmente pela representação em imagens.

Vale tudo: fotos, desenhos a lápis, caneta, pilot, aquarela, tinta guache, acrílica, recortes, panos, adesivos! O lance é se utilizar das imagens – as quais muitas vezes se misturam com palavras – para expressar seus sentimentos e pensamentos. Cada página é uma nova experiência, e esta pode ser colorida ou em preto e branco, arrumada ou bagunçada. O nascimento do seu diário visual é algo que parte de você e de como você está se sentindo.

 

Que incrível! Quero fazer o meu! 🙂

A primeira coisa que você vai precisar para fazer seu diário visual é, obviamente, um caderno. Qualquer um serve, mas particularmente recomento um que caiba na sua bolsa e que tenha folhas numa grossura com a qual você consiga trabalhar. No caso de pessoas que curtem usar aquarela, por exemplo, é importante uma folha mais grossa que absorva, mas não se desmanche com água.

Se você curtir FVM, pode também fazer seu próprio diário. Mas se essa não for a sua vibe, tudo bem. Procure um do qual goste (desde um caderno com capa toda colorida ou com uma frase que você curta até a clássica capa preta sem nada demais – a minha preferida) e mão na massa!

Depois de ter seu caderno, só tem uma coisa a fazer: criar. Mas criar sem nenhum filtro. Estamos falando de um diário artístico, portanto o conteúdo que você colocará ali dentro vem do que você sente, pensa, gosta e desgosta. Cole fotos com suas amigas, faça colagens com recortes de revistas ou fotografias antigas, escreva citações que te agradam, registre seus pensamentos. Deixe os sentimentos te levarem: inunde as páginas com azuis, rosas, vermelhos, laranjas, púrpura e cor de burro quando foge! Essas páginas são todas suas. E você pode fazer o que quiser delas.

Quer furar uma página com lápis bem apontado? Fure. Quer costurar as folhas? Costure. Quer escrever o nome da pessoa por quem você está apaixonada em todas as páginas em cores diferentes? Escreva! E se depois você não gostar mais dessa pessoa, se você desgostar dela, se você a odiar, você pode arrancar todas as páginas e queimá-las e ninguém pode dizer nada sobre isso, porque o caderno é seu! É a sua arte. E ela não só toca a alma como, neste caso, ela reflete a sua própria. E a sua alma, querida leitora, é como você quiser que ela seja.

 

Uau! Achei demais, mas não sou talentosa pra essas coisas… 🙁

Existe esse verso na música brasileira que, para mim, deveria estar entre os top 5 melhores versos da música mundial: “Nem vem de garfo que hoje é dia de sopa”. O que quero dizer com isso é: não venha com essa de não ser talentosa! Para fazer seu diário artístico, você não precisa de talento nenhum. Você só precisa sentir e pensar, o resto vem naturalmente.

O diário visual é um meio de expressão que você mesma cria. Na verdade, a única coisa que você tem já pré-definida é o formato de caderno. Mas o resto é totalmente com você! O que você faz só é da sua conta, de mais ninguém. Não importa se outras pessoas vão achar feio ou bonito, organizado ou bagunçado. O caderno artístico é a sua forma de exprimir seus sentimentos –acontece que nem sempre sentimentos são bonitos, e tudo bem!

A criação desse formato não está aqui para agradar o outro, mas sim para te ajudar. Você precisa ou quer lembrar de algo? Escreva no caderno. Você está com uma dor lá no fundo do peito? Desabafa no caderno. Você está totalmente entediada e não tem nada para fazer? Vem cá, rabisca no caderno. E rabisca mesmo! Pode ser um bando de risquinho feito a lápis que está tudo certo! Era isso o que você queria fazer na hora? Ou até nem era exatamente isso o que você queria fazer, mas foi o que saiu? Tá tudo perfeito! Porque, no fundo, o diário visual é apenas essa plataforma de registro do que você quiser. E, se um dia você quiser se arriscar um pouquinho mais ou até mesmo um montão mais, vá fundo!

Uma breve história pessoal: eu tenho vários desses cadernos (antes mesmo de saber que eles tinham nome em inglês e tudo mais) e muitas das páginas preenchidas me aparentam feias. Muitas delas são eu me aventurando na aquarela, na tinta guache ou nas colagens, bem tosco mesmo. Mas eis que todos os meus amigos que folheiam esses cadernos curtem a maioria das coisas que têm lá – inclusive, já aconteceu muitas vezes de elogiarem páginas que eu acho horríveis. Isso apenas para dizer: do fundo do meu coração, esquece esse lance de talento – só se joga! Um dia você pode reencontrar o seu diário no fundo de uma caixa e se deparar com você mesma, sem nunca imaginar que aquele borrão do café que entornou no meio do seu poema viria lá do passado te acalentar. Ou que aquele pedaço de folha que você rasgou para colocar o chiclete e jogar fora desenharia exatamente o mar espalhando-se na areia das suas memórias.

Para você não ficar acanhada, deixo aqui para vocês esse link com algumas páginas de diários artísticos que acho legal. E ainda nós, da Capitolina, escolhemos especialmente algumas páginas dos nossos próprios diários visuais para vocês darem uma olhada e se animarem de fazerem os seus próprios. Inclusive, se você já fizer, pode se arriscar em abrir pra gente dar uma olhada no nosso instagram!

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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