25 de dezembro de 2014 | Artes | Texto: | Ilustração: Beatriz Leite
Arte que dá coragem

Existem momentos em que a realidade é simplesmente devastadora demais. Felizmente, essas horas existem saídas, fugas ou simplesmente versos que te dão coragem para continuar. Passei grande parte da minha vida com a cara enfiada em livros, porque precisava me perder em outros mundos, fugir do que parecia impossível mudar. Também me apeguei a músicas para mandar impulsivas mensagens de texto (obrigada, Taylor Swift). Arte é isso que de algum modo nos permite ser outros. Então, hoje falamos um pouco sobre artistas que nos deram força.

Taís Bravo: Fiona Apple

Eu cresci lendo revistas com dicas (para não dizer regras) sobre o que os garotos gostam e esperam de nós, garotas. Hoje fica claro para mim que esses guias não se importavam nem um pouco com os meus sentimentos ou de qualquer outra garota. Pra começar, nem existia a possibilidade d’eu não se interessar por garotos e, sim, por garotas. Só isso já é bastante ofensivo. Apesar de saber isso agora, fui por muito tempo influenciada demais por essas revistas. Definitivamente não aprendi a flertar, mas até hoje é um hábito pensar primeiro no que os caras esperam/pensam do que no que eu mesma sinto. Aprendi com esses guias de paquera que existem uma série de condutas que se esperam de uma mulher e por isso os relacionamentos – e suas tentativas – pedem uma constante autovigilância. É preciso saber se comportar, controlar os sentimentos, não se expor demais, não ser tão honesta, inventar jogos idiotas e, principalmente, ter cuidado para não parecer louca. Então, quando Fiona Apple surgiu na minha vida cantando “Fast as You Can” foi uma verdadeira revelação. Fiona Apple me deu coragem para perceber que meus sentimentos importam e que me expressar é muito mais prazeroso do que viver pisando em ovos. Como ela mesma diz nesse vídeo, Fiona escreve canções sobre reconhecer e superar todos os babacas do mundo. Os versos de “Sleep to Dream” e “Extraordinary Machine” me salvaram quando eu só precisava reconhecer que era maravilhosa demais para c e r t a s pessoas. Mas nada me comove mais do que “Every Single Night”. Nessa música não existe ressentimento ou mágoa, é uma questão de reconhecimento: Eu só quero sentir tudo. Fiona em todas suas versões possíveis, com raiva, apaixonada ou confusa, me dá coragem para ser como sou intensa e cheia de sentimentos.

Clara Browne

Quando as coisas apertam e aquele sentimento quentinho da felicidade parece inalcançável, o que mais me dá força não é uma música, um livro ou mesmo um artista específico, mas sim essa junção de diferentes coisas que trazem esse ar de dia ensolarado pra dentro de mim. Assim, esse ano, quando as coisas estavam difíceis, tomei vergonha na cara e juntei numa playlist as músicas que me esquentam por dentro. Assim, sempre que a tristeza bate, pego meus fones de ouvido e dou play. Começa com Lô Borges e Milton Nascimento, velhos companheiros das viagens de estrada. Eles me lembram que eu sou quem escolho ser e eu posso ser o que quiser. Então, em grande estilo, a década de 1970 inteira entra me inspirando com a era de aquário e o mundo se descortina, pouco a pouco, a hora chega e o sol raia. Eu puxo o freio, aperto o acelerador, abro os braços: é o único jeito de abraçar o mundo e deixar-se invadir pelos raios solares lá alto no céu. Porque independente de qual seja o problema, ele te invade frio na alma – e o único jeito de combater os sintomas da tristeza é com sol girassol verde vento solar, é criar você mesma o caminho. E essa playlist, cheia de músicas de terra batida, trazem essa coragem de caminhar.

Paula Gomes: Frida Kahlo e Garota Fantástica

Eu acredito que a Frida seja inspiração e representação de força para muitas mulheres.
Conhecer a história dela, seu sofrimento e a sua arte me fizeram me encantar ainda mais por essa mulher que antes pra mim era apenas uma mulher florida com quadros excêntricos.
Seus quadros carregam muita dor, mas muita garra também, cores fortes e vibrantes mostram muito desses sentimentos, desenhos que parecem sem sentido, contam histórias impressionantes, sua vida é sem dúvida sinônimo de luta. Por isso quando assisto o filme sobre ela, ou leio algo relacionado, sempre cria-se dentro de mim um vontade de sair da inércia, sacudir a poeira e fazer algo útil pra esse mundão, ser criativa e especial pra mim mesma e quem sabe para os pessoas. Por isso, pra quem não conhece o filme Frida, que retrata um pouquinho da história dessa mulher, é uma ótima dica pra quem quer conhecer um pouco mais, e se encantar mais ainda com o poder dessa artista incrível.

Outro filme que sempre me anima muito, mas esse é de uma maneira mais física, mas não deixa de ser algo realizado a sonhos, força de vontade e determinação, que é o Garota Fantástica (Whip It), com a Ellen Page, onde ela faz uma garota que descobre o Roller Derby (esporte com patins) e se apaixona, porém precisa esconder dos pais, inclusive da mãe que a obriga a participar de concursos de beleza. É muito doido como esse filme mexe comigo, começando pela Ellen que eu me encanto com tudo que faz, e o Roller que é um esporte incrível, que sem dúvida te obriga a sair do comodismo do dia a dia, colocar os patins e sair de arrebentando toda. A história mostra o crescimento dela, tanto no esporte, como na vida, nos relacionamentos, com os pais, amigos e namoros, ela ganha uma garra e uma autoconfiança, ela percebe que pode ser alguém especial também, que pode fazer algo que gosta, que a faz bem, ser feliz. É divertidíssimo ver esse crescimento, sem contar a parte estética do filme que eu sou encantadíssima, e claro, a trilha sonora, mas aí vocês têm que assistir pra descobrir e se apaixonar também.

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos