19 de novembro de 2015 | Artes, Colunas | Texto: | Ilustração:
Artista da semana: Alma Woodsey Thomas

“A arte criativa é para todos os tempos e é, portanto, independentemente do tempo.”

Alma Thomas, 1970

Alma Woodsey Thomas, nasceu em 1891, em Columbus, Georgia. Era filha de uma desenhista de roupas (sabe a mãe da Tiana da Princesa e o sapo? Então. Tipo ela!) e de um professor. Na adolescência, sua família se mudou pelo acirramento de conflitos raciais e isso determinou o tipo de produção que ela teria futuramente. Aliás, as referências a diásporas pessoais são muito recorrentes nas obras de muitos artistas negros como, por exemplo, Carolina Maria de Jesus, escritora mineira que em seu percurso literário explicita os sentimentos daquele que migra por vontade alheia à sua. Aquele que PRECISA ir. Isso se soma a um inconsciente coletivo, uma diáspora ancestral que permeia culturas afro locais e conecta milhares de indivíduos…mas isso é assunto para outro texto!

Bem, a família de Alma se fixou em Washington e foi ali, na mesma casa em que passaria o restante de sua vida, que sua arte floresceu. O contato com a cultura nortista, influências artísticas fresquinhas e estar no centro dos acontecimentos enriqueceu muito seu trabalho! Alma se atraiu e fomentou o movimento Color Field Painting.

Pausinha básica para uma pequeníssima história da arte:

O Color Field Painting era uma das faces do Expressionismo Abstrato norte-americano ou Escola de Nova York. A característica básica desses artistas era usar a tela ou qualquer outro suporte de uma maneira completa, sem um ponto principal a ser observado. Lembra da perspectiva rígida renascentista? Então…não tinha.  Procurava-se expansão, a não condução do olhar do espectador. Era recorrente também o uso de formas geométricas e manifestação de sentimentos, estados emocionais nas peças.

Voltando a Alma, ela teve flertes deliciosos com escultura em cerâmica, desenho de moda e uma paixão: a pintura. Uma pintura única que combinava cores (muitas vezes puras) e formas (simples) de uma maneira explosiva e luminosa. De aquarelas leves e vibrantes a pinturas a óleo ou acrílico feitas em telas enormes, seus trabalhos abstratos, semelhantes a mosaicos, nos convidam à contemplação. É fácil ficar horas olhando para The Eclipse (1970), que virou até capa de livro! Apaixonada pelas obras de Alma, a escritora Maya Angelou escolheu a pintura para capa de Letter to my daugther (ainda sem versão em português =().

The Eclipse, 1970

The Eclipse, 1970

Michelle Obama também tem um quadro dela na parede: Ressurection (1966)

Ressurection, 1966

Ressurection, 1966

Olha ai, lá na Casa Branca!

Olha ai, lá na Casa Branca!

A importância de Alma Woodsey Thomas para a arte afro-americana é imensa. Além de sua produção artística, sua trajetória tem pontos que nos fazem refletir muito sobre o lugar do negro na cultura norte-americana e na nossa também! Pioneira, mas não só, foi a primeira mulher negra a ter uma mostra individual no Whitney Museum of American Art e voltou à universidade, para aprimorar seus estudos de arte, com 59 anos!

É fundamental pensar nessa questão além dos esforços individuais. Quantas artistas não conseguiram romper as barreiras que Alma se propôs a desbravar? Quantos talentos não reconhecidos? A persistência do racismo é uma tragédia – não sei se é a melhor palavra, porque tragédia, às vezes me traz a sensação de incontrolável, inexplicável, acidental e isso é tudo que o racismo não é; é estrutural – em todos os campos. Alma queria expandir a arte para a juventude negra de Washington e outros locais. Mesmo antes de ser uma artista famosa, ela era uma arte-educadora engajada, produtora cultural e ativista. Em 1963, ela estava lá na Marcha de Washington! Marchando como milhares de mulheres fizeram em Brasília. Por uma liberdade, de fato. Pela liberdade de criar e ser entendido como criador. Alma Thomas vive.

Daiane Cardoso
  • Colaboradora de Artes

Nasceu em São José do Rio Preto e escolheu estudar Museologia no Rio de Janeiro. (Quase) formada em Comunicação Social pela UFRJ gosta de dança, pintura, poesia e seres fofinhos. Sonha em ser pesquisadora, mas não consegue parar quieta em um tema; para saber o dessa semana só perguntando mesmo.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Amo a coluna de artes

  • cezarina Duvalee

    O olhar transmite nossa alma.Nossa energia.Um olhar revela o medo, a ira, a paz, o amor, a fraqueza e a força.Diz o que estamos pensando apesar da boca dizer outra coisa.Tem gente que nem olha para ninguém, oh indiferença que machuca até quem não nos conhece.Daiane está certa , pois o olhar com delicadeza transmite paz, acolhimento.Enfim desarma as almas.

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