17 de julho de 2014 | Artes | Texto: | Ilustração:
Artista da semana: Camille Claudel
Ilustração: Mariana Paraizo
Ilustração: Mariana Paraizo

Ilustração: Mariana Paraizo

Texto por Mariana Paraizo.

Se você é estudante de artes, já deve ter percebido a ausência da artista mulher na História da Arte. Com frequência, nomes como Matisse, Cézanne, Da Vinci , Bosch  e – aqui você poderá completar com o que quiser – vão ser trazidos à tona nas aulas, pintados como gênios. Mas as mulheres? Estas são raras. Nós sabemos que a condição de ser mulher não torna ninguém mais ou menos apta a aprender uma habilidade artística, muito menos torna esta pessoa incapaz de expressar sentimentos com maior ou menor profundidade. Apesar disso, tal afirmação da minha parte só é possível em nossa sociedade moderna, ainda muito imatura, cheia de machismos velados. A trajetória artística de Camille chega ao ápice desta transição. Ela não deixou de se tornar uma artista reconhecida mas, desde sua época até os dias de hoje, esteve sempre à sombra de seu mestre e amante, Auguste Rodin, que até hoje é celebrado como um grande escultor.

Camille nasceu em 1864, numa cidade pequena da França. Apesar de ter uma relação bem complicada com a mãe, tinha apoio do pai nas suas investidas artísticas. Ele conseguia enxergar o talento da filha além das diferenças de interesse e comportamento que ela exibia em relação às outras garotas. Começou a modelar argila ainda nova e, aos 17 anos, sua família se mudou para Paris para propiciá-la condições de estudo e crescimento no ramo das artes – sempre contra o gosto da mãe, que considerava os estudos da filha um “capricho”. Apesar da condição financeira constrangida com a mudança, Louis Prosper, o pai de Camille, continuou a investir no aperfeiçoamento artístico da filha, pagando os melhores professores e materiais.

Logo, o talento de Camille chamou a atenção de um homem cuja carreira despontava na época: Rodin, ao substituir o professor de Camille, se interessou pelo seu trabalho e, depois de dois anos frequentando o ateliê que ela dividia com mais outras duas estudantes, chamou-a para trabalhar para ele. Rodin contava com uma grande equipe, mas deixava sempre Camille em posição privilegiada de opinar e esculpir as mãos e os pés de importantes estátuas encomendadas. Logo, o que começou como uma admiração mútua, se tornou um relacionamento amoroso conturbado. Os dois possuíam gênios fortes e Rodin era casado, mantendo Claudel como sua amante. Por um tempo, os dois admitiram a relação publicamente, situação muito polêmica e “pouco respeitosa” para uma mulher no século XIX.

Durante o romance, as esculturas dos dois sofreram influências mútuas, porém muita gente acreditava que Camille estava apenas copiando as esculturas de Rodin. Ao mesmo tempo, mesmo dizendo-se apaixonado por Camille, Rodin se recusava a abandonar sua mulher, o que deixava os ânimos da amante descontrolados – ela que já era conhecida pela sua intensidade emocional. Ela começou a se desvincular artisticamente do trabalho de Rodin e a ruptura final se dá com a escultura “A Idade Madura”, obra que carrega alto teor autobiográfico, simbolizando a situação em que acreditava se encontrar: a de rejeição.

Foi em 1898 que Rodin deixou Claudel e, após este evento, sua situação emocional e financeira entrou em declínio. Alimentada pela ideia de que Rodin queria atrapalhá-la, ela começou a recusar encomendas de esculturas que sejam relacionadas a ele. Seus delírios de perseguição se desenvolvem até alcançar a paranoia e Camille passou a se isolar do resto da sociedade, vivendo apenas com seus gatos em sua casa e parando sua produção por completo.

Mais complexo, o tormento emocional da artista a fez perder o contato com a realidade, com um constante estado de esquizofrenia. Após a morte de seu pai, única pessoa em ainda quem confiava e que desde cedo fora seu maior incentivador, Camille entrou em uma crise violenta, com gritos, destruição e descontrole.  Após este evento, foi internada em um manicômio, onde permaneceu pelos 30 anos seguintes até a sua morte, aos 79 anos de idade.

 

A sensibilidade extraordinária e a fragilidade emocional são definidoras da obra de Camille, que tanto a levaram a produzir esculturas arrebatadoras, quanto a incapacitaram de levar uma vida saudável. É certo que Rodin não pode ser exclusivamente responsabilizado pela queda de Camille. A história de vida dela dificilmente poderia ter sido diferente, já que a crença de necessitar de outra pessoa para sobreviver estava profundamente arraigada em seu ser – e, claro, a culpa é um pouco do mundo machista onde ela viveu e nós vivemos também. A intensidade emocional é um fantasma para muitos artistas, mas, no Século XIX, as coisas tomavam proporções drásticas devido à ignorância social e ao gigantesco machismo. E esses fatores, inclusive, eram responsáveis pela seguinte situação: uma mulher que claramente precisava de ajuda foi trancada num manicômio para sofrer por três décadas seguidas sem ter a quem recorrer, já que mesmo sua família era a favor de seu internamento.

Para quem gosta de filmes bonitos e trágicos, recomendo “Camille Claudel” de 1988.

Mariana Paraizo é colaboradora de Artes e ilustradora. Mazô, vim de um planeta onde copos não precisam ser lavados e roubar balas no supermercado não é errado. Estou constantemente viajando em mim mesma e nos meus desenhos. Gosto de cantar, mas o que eu decidi gostar mais foi de quadrinhos. Por isso, a maior parte do meu dinheiro em 2013 foi vertido em livros.
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A Capitolina é uma revista online para garotas adolescentes, que procura ser acessível e inclusiva, abrindo um diálogo com as leitoras. Somos MUITAS garotas, de idades variadas e de lugares variados, divididas em várias áreas e funções.

  • Isabela

    Texto maravilhoso sobre Camille *-*

  • Grazzi Ela

    sempre bom lembrar camille…mulher-artista: inspiração.
    sinto ódio de rodin desde que conheci a sua história e acredito que ele foi muito responsável sim pela sua tormenta psicológica, qual, inclusive, foi aparentemente uma desligação da realidade através de alucinações, paranoias e desilusões; loucura, porém não acho que esquizofrenia seja um termo adequado na situação, até porque é uma doença crônica.
    linda a ilustração! bj!

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