20 de julho de 2017 | Artes | Texto: | Ilustração:
Luna Buschinelli e grafiteiras brasileiras

Arte, geralmente, possui um conteúdo pessoal. Quem escreve, pinta ou compõe pode colocar ali suas experiências – daí a dificuldade e as inseguranças sentidas na hora de uma pintura, um verso, uma prosa ou uma melodia ganhar o mundo. É preciso um tanto de coragem para colocar o bloco na rua. Pelo menos foi assim para Luna Buschinelli, de 20 anos, que começou a fazer grafite pelos muros de São Paulo aos 15. A vontade de pintar e colorir a cidade (e o mundo também, afinal ela já pintou lugares até fora do Brasil, como na Itália) já fizeram-a vencer a timidez e até o medo de altura:

“Colocar um trabalho autoral na rua, no início, teve um grande impacto de superação para mim. Muitas pessoas são excelentes artistas e nunca sequer mostram um só trabalho para o mundo, guardam o que fazem para si. Eu era assim também. Expor sua arte é, na minha opinião, expor seu mais profundo íntimo, e isso requer um tanto de coragem. Ainda mais nas ruas. Medos de altura, de aprovação, de falar em público (sempre fui muito tímida, mas através da arte hoje sou muito mais confiante nesse aspecto)… Passei por tudo isso e mais”.

A ficha de que seu trabalho estava sendo reconhecido caiu aos 17 anos, quando ela fez sua primeira exposição. Ela define a experiência como um “marco” na carreira: “Ganhei muita responsabilidade”. Para chegar lá, foi muito tempo dedicado aos desenhos. Como não era muito de sair, ficava em casa nos finais de semana pintando: “Sempre fui muito focada em desenvolver meu estilo e meu trabalho desde muito cedo”. A mudança fica visível ao comparar os desenhos de quando começou e os de hoje. Para Luna, a maturidade que vem com o passar dos anos acabou transbordando e cobrindo o papel e as paredes:

“Para mim, é impressionante ver a transformação do meu trabalho. Meu trabalho de cinco anos atrás, por mais que carregue muito a essência do que é hoje, é quase irreconhecível. Ainda nem usava cores e meus traços ainda eram muito pouco desenvolvidos, embora reconheça que já tivessem bastante personalidade.
Atribuo essa evolução tão rápida ao meu crescimento como pessoa. A gente é tão diferente com 15 do que com 16, imagina então com 20. Um ano só quando se é jovem já faz uma diferença muito grande, e a gente vai amadurecendo e crescendo muito rápido”.

Luna leva sempre um caderno na bolsa para anotar inspirações (Site Luna Buschinelli/Reprodução)

Luna leva sempre um caderno na bolsa para anotar inspirações (Site Luna Buschinelli/Reprodução)

Livro dos recordes

Agora, aos 20, Luna tem a chance de entrar no livro dos recordes. O mural “Contos”, obra dela na Escola Municipal Rivadávia Corrêa, perto da Central do Brasil, no Centro do Rio, pode ter o recorde de maior mural já pintado por uma mulher. A convite do produtor Pagu, a jovem pintou, em 2500m², a história de uma mãe analfabeta que, com o livro nas mãos, cria uma história para os filhos, alimentando seus sonhos.

“Eu acredito que a importância desse trabalho é tê-lo feito. Tudo que ele representa e carrega é muito forte, muito empoderador. O fato de ter se tornado um recorde é uma consequência. Algo incrível, que me traz um orgulho inexplicável, principalmente por trazer muito empoderamento para a arte feminina, que muitas vezes é subestimada nessa área”, afirma Luna.

Detalhe do mural “Contos”, no Centro do Rio: obra levou 45 dias para ficar pronta (Site Luna Buschinelli/Reprodução)

Detalhe do mural “Contos”, no Centro do Rio: obra levou 45 dias para ficar pronta (Site Luna Buschinelli/Reprodução)

O grafite ainda é visto como um lugar masculino. É só procurar na internet, por exemplo, uma lista com os grandes artistas de grafite do mundo: homens são a maioria. Isso não quer dizer, entretanto, que as mulheres não estão colocando sua arte nas ruas. Aliás, colocando arte e mensagens empoderadas nas ruas (ali embaixo, você pode conferir uma lista de outras mulheres que fazem grafite).

“Até hoje quando quem não me conhece pergunta com o que eu trabalho, e digo que sou artista/grafiteira, as pessoas parecem não levar muito a sério, até que eu mostrar meu trabalho. Há um grande preconceito ainda, ainda mais, acredito eu, por eu ainda ser uma ‘menina’”, pondera a paulistana, que vê a arte como terreno fértil para todo mundo: “Acredito que grafitar e fazer arte urbana seja para todos aqueles que, de certa forma sentem necessidade de se expressar, transformar, ou se sintam muito presos dentro do seu cotidiano quadrado. A arte é para todos que se entregam a ela, tanto para fazer quanto para observar”.


Luna não está sozinha fazendo arte pelas ruas do Brasil. Outras mulheres também estão conquistando seus espaços e mostrando que há espaço para todo tipo de traço, de cor, e de luta!

Criola

A artista Tainá Lima, mais conhecida como Criola, faz da arte urbana uma luta para fortalecer as mulheres negras. Suas obras podem ser vistas nos muros de Belo Horizonte.

Criola fortalece a luta das mulheres negras em suas obras (Athos Souza/Reprodução Facebook)

Criola fortalece a luta das mulheres negras em suas obras (Athos Souza/Reprodução Facebook)

Nina Pandolfo

A artista já lançou os livros “Nina” (2011) e “Por trás das cores” (2016), em que conta sua trajetória na arte. Ela começou como artista de rua, mas hoje também trabalha em outras plataformas, como tecidos, telas e aplicações com telas e cristais.

Obra de Nina Pandolfo em São Paulo, de 2005 (Facebook Nina Pandolfo/Reprodução)

Obra de Nina Pandolfo em São Paulo, de 2005 (Facebook Nina Pandolfo/Reprodução)

Mag Magrela

Começou a pintar as ruas de São Paulo em 2007 e não parou mais. Já fez exposições de suas obras no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Nova York. Foi convidada por Ana Cañas para fazer a arte do single “Respeita”, música que fala sobre os assédios que as mulheres sofrem. 

Uma das obras de Mag Magrela (Facebook Mag Magrela/Reprodução)

Uma das obras de Mag Magrela (Facebook Mag Magrela/Reprodução)

Panmela Castro

A artista carioca usa como temas, em seu grafite, a questão das mulheres e o feminismo. Fundou a Nami Rede Feminista de Artistas Urbanas, onde pensa e discute a situação da mulher na sociedade, realiza projetos sociais e usa a arte como um instrumento de transformação cultural. É conhecida internacionalmente como a rainha do grafite no Brasil.

Grafite de Panmela Castro em Nova York, nos Estados Unidos (Site Panmela Castrol/Reprodução)

Grafite de Panmela Castro em Nova York, nos Estados Unidos (Site Panmela Castrol/Reprodução)

Arte é importante

Apaixonada por criar desde criança, Luna encontrou apoio da família para dar vazão a esse lado. “Minha família sempre incentivou meu lado artístico, mas nunca souberam que eu me tornaria artista. Quando disse que tinha decidido começar com os grafites, houve muito medo da parte deles. Mas hoje já apoiam meu trabalho e acreditam nele”, conta a jovem.

Luna acredita que o amadurecimento de seu trabalho é reflexo, além da dedicação, de seu amadurecimento pessoal (Site Luna Buschinelli/Reprodução)

Luna acredita que o amadurecimento de seu trabalho é reflexo, além da dedicação, de seu amadurecimento pessoal (Site Luna Buschinelli/Reprodução)

E essa ideia de que algumas habilidade são mais importantes do que outras acaba sendo levada para o lado profissional, e a falta de incentivo em investir na criatividade pode aumentar, já que é, nessa fase que a gente começa a pensar mais no vestibular e, consequentemente, naquela perguntinha: “o que você vai ser quando crescer?”.

 

“No meio da minha adolescência, percebi através da vivência o quão pouco valorizados são os trabalhos artísticos no nosso país. As pessoas hoje te perguntam desde os 14, 15 anos o que você quer ser quando crescer, mas não vejo essa como uma resposta ‘livre’. Se ouvirem que você quer ser artista, astronauta ou músico, provavelmente, vão ficar decepcionadas como se você precisasse se endireitar. Porque para elas seus sonhos são inalcançáveis e com eles você não poderá chegar a lugar algum. Isso é triste de se ver. Quanta gente não cede ao óbvio, ao convencional, para ter uma ‘segurança’ e nunca é feliz. A vida mata nosso sonho assim que a gente realmente começa a ter autonomia para sonhar, e isso a gente não pode deixar acontecer. Não existe um dom ou habilidade melhor do que o outro. Temos que dar valor ao que temos e acreditar nos nossos potenciais e sonhos, por mais absurdos que pareçam. Toda boa ideia ou inovação veio com alguém que acreditou num sonho”.

 

Pinte, verse, componha, expresse-se. No caso de Luna, além de uma paixão, foi também a profissão que ela escolheu. Mas não é necessariamente assim. Você pode escrever para transbordar. Você pode pintar como uma válvula de escape da rotina. Não precisamos transformar todos os nossos hobbies em trabalho. Podemos ter um trabalho e ter outros interesses. E se quiser transformar o que gosta no seu trabalho, beleza. Qual é o problema? Dá certo também. Só não deixe de cultivar o que você gosta. Afinal, somos mais do que uma coisa só!

“A arte nos faz mais humanos, nos faz conectar com nosso interior e/ou o mundo à volta. Ela tem um poder muito transformador, basta a gente se entregar um pouco e experimentar”, opina Luna.

Luna trabalhando em um de seus projetos (Site Luna Buschinelli/Reprodução)

Luna trabalhando em um de seus projetos (Site Luna Buschinelli/Reprodução)

Luna sabe, porém, que esse incentivo não é tão normal quanto deveria. Na escola, por exemplo, não era uma grande fã das aulas de Artes, porque não acredita que há certo e errado na arte. “O importante é a gente se expressar”, acredita: “Eu acho que, em primeiro lugar, as aulas de Artes nas escolas deveriam ser mais valorizadas, levadas tão a sério quanto as outras matérias. A arte é minha parceira na vida e me permitiu ser quem sou hoje, me faz sentir realizada a cada dia. E se não fosse por ela, talvez eu não seria nem metade da Luna que sou atualmente e tenho tanto orgulho. É destrutivo criar esse conceito de que algumas habilidades, ou no caso matérias, são mais relevantes que outras”.

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Aline Bonatto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Oie! Eu nasci há alguns anos atrás (num dia de abril, em 1988), morei até os 19 anos em Colatina, um lugar quente no Norte do Espírito Santo, e vim para Niterói estudar Jornalismo. Saí da faculdade, mas não de Niterói e trabalho no Rio como repórter de TV. Gosto de escrever, ler, cozinhar, especialmente se eu não for comer sozinha, adoro ficar largada no sofá assistindo a séries/filmes/novelas acompanhada do namorado ou de amigos ou com todo mundo junto. Ah, e com um brigadeiro na colher!

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