4 de junho de 2015 | Artes | Texto: | Ilustração: Susi Hochstimm
Artista da semana: Susi Hochstimm

Conversando sobre colagens com uma amiga, ouvi falar sobre o trabalho de Susi Hochstimm. Fui dar uma olhada em páginas da internet que disponibilizam as tais colagens e fiquei absolutamente estonteada com cada composição. Então, TIVE que entrar em contato com ela.

É engraçado imaginar que uma senhora de 94 anos tenha o interesse de divulgar suas obras, todas feitas entre 1993 e 2011, por meios digitais. Foi assim que cheguei ao administrador de ambas as páginas, Ian Kornfeld: sobrinho-neto de Susi, alguém que a admira muito e pôde convencê-la a divulgar suas colagens. Isso porque, de fato, a Susi não está ligando muito para mostrar suas composições ao mundo (obrigada Ian!) e, inclusive, hesita a cada oportunidade.

Para conseguir terminar este artigo (que mais foi uma desculpa para investigar a história de uma mulher evidentemente interessante), entrevistei Ian, quem gentilmente me recebeu em sua casa.

Enfim, a Susi nasceu no ano de 1920, em Viena. Viveu na cidade até os 17 anos, quando teve de fugir com sua família do advento da Segunda Guerra. Chegaram primeiramente em Berlim, depois passaram por Paris, de Paris ao Brasil, e de São Paulo foram para a Bolívia (ufa!). Susi ficou na Bolívia junto à sua família por dois anos e, aos 20, foi sozinha — ilegalmente — para Argentina, onde vive até hoje.

Colagem, Susi Hochstimm

Colagem, Susi Hochstimm

A vida em Buenos Aires também não foi fácil: trabalhou em uma sapataria onde foi bastante explorada. Reza a lenda que dormia em um sótão acompanhada de um furão, predador dos ratos que ali chegavam.

Passa-se quase uma década até que Susi começa a trabalhar com algo relacionado ao meio plástico, na Editorial Abril (a qual eventualmente levou à formação do Grupo Abril, brasileiro). Na mesma editora foi trabalhar sua irmã e avó de Ian, Ditti Hochstimm, com quem manteve uma relação extremamente próxima.

Colagem, Susi Hochstimm

Colagem, Susi Hochstimm

O único momento em que volta a seu país de origem é para visitar sua irmã, exilada da Argentina nos anos 1970. Podemos ver, então, que Susi teve poucas maneiras de reatar laços com seu passado austríaco, sendo um lugar sempre ligado a violência e traumas.

Hochstimm trabalhou na Editorial Abril até sua aposentadoria, aos 60 anos. Então, treze anos depois, chegamos ao começo: ela finalmente pôde fazer tudo que sempre quis… Colagens!

Segundo Ian, sua tia-avó compunha seus trabalhos exclusivamente aos domingos: era um dia literalmente sagrado, dedicado somente a fazer colagens em seu apartamento. Susi vive há cinquenta anos nessa mesma quitinete e abre suas portas para poucos. Nos dias de produção, ninguém poderia interrompê- la, e não saía dali por nada nesse mundo (nem para um almoço entre seus familiares).

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Colagem, Susi Hochstimm 

Como dito antes, ela não liga muito para a divulgação de seu trabalho. Os integrantes da família foram por muito tempo os únicos que podiam ver suas composições, as quais ela trazia de vez em quando em alguma reunião, de maneira despretensiosa. O adolescente Ian, ao ter se dado conta da maravilha que são essas colagens, passa a se aproximar do trabalho tentando incentivar Susi a expor. Hoje em dia, depois de duas décadas, pôde criar as páginas virtuais que mostram seus trabalhos.

Depois de dezoito anos nessa imersão em colagens, Susi deixou tal criação de lado. O porquê disso, segundo ela, é que um dia fez uma colagem que lhe pareceu tão ruim, mas tão ruim, que não quis mais fazer. E diz: “Mas ah!, eu já fiz tantas…”.

Hoje em dia, Susi vive bastante reclusa. Sai pouco de casa e passa quase o dia todo lendo. Mas, também, depois de uma vida agitada assim, nada melhor do que ter bons dias de descanso, não?

E para quem ficou com gostinho de “quero mais”, não deixe de checar esse vídeo:

Beatriz H. M. Leite
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Beatriz H. M. Leite, 21, é paulistana e mora em Buenos Aires. Além de cartas não enviadas, coleciona cartões-postais e histórias dignas de novela mexicana.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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