11 de setembro de 2015 | Artes | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
Artista da semana: Yoko Ono

(Nessa coluna da sessão de Artes, apresentamos uma artista que admiramos. Você pode encontrar outras artistas dessa série em nosso arquivo!)

Meu primeiro contato com a Yoko Ono foi em um episódio das Meninas Superpoderosas. O episódio inteiro era uma paródia cheio de referências à história dos Beatles, desde a formação da banda até seu rompimento, este obviamente causado pela Yoko, que no desenho era interpretada por uma macaquinha vestida de branco que gostava de gritar estridentemente e fazer arte conceitual que ninguém entendia.

Acho que essa paródia acaba representando bem a ideia da Yoko Ono no imaginário popular: a mulher má que, sozinha, acabou com os Beatles. Que gritava, perturbava e respondia. Que não mudou para se fazer mais agradável ao público. Não é difícil entender por quê, nesse contexto, Yoko se tornou o estereótipo até hoje propagado da “namorada chata”. E todo mundo sabe que se ater a estereótipos é fácil; tentar entender a fundo uma das mulheres mais incompreendidas do último século é um pouco mais difícil.

Yoko Ono é uma artista, ativista e visionária, que teve de lidar com coisas do tipo ser julgada pelo seu gênero e raça, que se intensificaram após o fim dos Beatles. Apesar de tudo, ela nunca se permitiu assumir o lugar de vítima. Na verdade, apesar de todo o ódio, ela persistiu fazendo aquilo que deixava seus haters ainda mais enfurecidos: ficando com o John Lennon e produzindo sua “arte incompreensível”, seja na música ou na performance.

Uma das minhas obras favoritas dela, e provavelmente a mais famosa, é a Cut Piece, em que ela, sentada em um palco, convida o público a cortar pedaços da sua roupa. Eu não consigo nem imaginar o quão aterrorizante isso deve ter sido, e tamanha confiança que ela teve de depositar em um monte de estranhos, permitindo que eles se voltassem contra ela. De certa forma, uma performance como essa é quase uma premonição do que viria a acontecer com sua imagem durante o namoro com Lennon.

Outra obra que dela que eu gosto muito é a Ceiling Painting, em que o espectador tem que subir uma escada e com uma lupa enxergar um papelzinho minúsculo onde se lia “yes”. Nas palavras da Yoko, essa obra é uma resposta às várias coisas negativas, ou aos vários “nãos”, que aconteceram na sua vida, e como o elemento “sim” é importante, como a positividade é importante – ainda que pequena ou trabalhosa de se alcançar.

ceiling painting

Em resumo, Yoko Ono é uma bruxa – uma bruxa que todas nós mulheres, pela nossa própria condição, temos predisposição a nos tornarmos. Cabe a nós escolhermos se vamos nos apropriar disso ao nosso favor, ou não. Deixo aqui alguns trechos do livro Grapefruit dela, que tem ideias de várias pequenas performances que você mesma pode executar.

snow piece

Imagine que há neve caindo/ Imagine que há neve caindo em todo o lugar, o tempo todo/ Quando você conversar com uma pessoa, imagine que há neve caindo entre você e a pessoa/ Pare de conversar quando você achar que a pessoa está coberta de neve.

painting for the wind

PINTANDO PARA O VENTO: Corte um buraco em uma bolsa cheia de sementes de qualquer tipo, e coloque a bolsa em lugar onde há vento.

cleaning piece

Tente não dizer nada negativo sobre ninguém. a) por três dias. b) por quarenta e cinco dias. c) por três meses. Veja o que acontece com a sua vida.

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Natália Schiavon
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Poéticas
  • Colaboradora de Artes

Natália tem 21 anos e estuda Design Gráfico em Bauru. Apaixonada por ilustração e histórias em quadrinho. Ama consumir qualquer tipo de arte feita por mulheres. Pensa no universo com frequência. Ainda está se adaptando à sua forma física.

  • Brenda

    Nossa, adorei. Vou tentar não dizer nada negativo e se conseguir vou avançar para os 45 dias.

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