25 de fevereiro de 2016 | Artes, Colunas | Texto: | Ilustração:
Artista da Semana: Anna Maria Maiolino

As questões de imigração, identidade, território, do material e do feminino marcam a trajetória artística dessa grande mulher. Mas como tudo começou?

Bom, Anna nasceu em Scalea, uma comuna italiana (termo que não tem equivalente no Brasil, mas seria mais ou menos um município) e com 12 anos mudou-se para a Venezuela, onde passou a estudar arte e, segundo ela mesma (Veja aqui), adquiriu “um sotaque esquisito” que nunca perderia. Nesse período, fica muito interessada pela arte brasileira e suas peculiaridades diante de toda a arte produzida na América do Sul, no momento.

Embora a arte contemporânea tenha ampliado as fronteiras do que pode ser chamado de arte (valorizando a linguagem e revolucionando em muitos sentidos) a dificuldade de mulheres despontarem como artistas importantes e consolidarem suas carreiras é real, nítida e perversa. Naquele momento não era diferente, mas ela decidiu continuar.

E assim, em 1960, Anna veio estudar no Brasil e se encantou pelas riquíssimas gravuras nordestinas, tão típicas da literatura de cordel. A possibilidade de contar histórias, narrar a partir de figuras e materiais simples deu asas às suas possibilidades. Além da gravura, porém, ela se dedicou ao desenho, pintura, escultura e obras multimídia! (Ufa!!! Quanta coisa!)Porisso, é bem difícil falar de Anna em um texto curtinho (jJuro, tentei!).

A riqueza e variedade de linguagens na sua produção são imensas e não se trata de uma trajetória tão linear.

Então, para tentar ilustrar, selecionamos algumas obras que você precisa conhecer e deixar um gostinho de quero mais.

Anna (1967): A artista remete à palavra como fonte de criação e destruição. Na xilogravura são representados os pais de Anna num formato que lembra uma lápide. Para ela, nosso começo e nosso fim passam pela enunciação do que somos.

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São dessa época muitas outra sobras ligadas ao feminino,ao cotidiano, a casa e à família. Como não deixar sua potência criativa quando as cobranças são imensas? Como resistir, sendo flexível o suficiente? Glu..Glu…Glu (1967): Com a mesma técnica, ela volta aos sons primitivos humanos, ao visceral (que vem de dentro) e sintetiza a instabilidade política da época. O golpe de 64 e as coisas para uma mulher migrante não eram nada fáceis. . . Imagina ter que engolir tudo isso sem poder se expressar? Com tanta repressão? E tem gente querendo isso de volta…

 

a esperaA Espera (1967-2000): Essa obra foi feita duas vezes e essa aqui é a segunda versão. Essa gravura também discute o feminino. A mulher e o resultado de seu trabalho (tantas vezes ignorado!), sempre entre o espaço público e o privado. Uma questão que continua atualíssima.

por um fio

Por um fio (1976): As fotografias fazem parte uma série longa chamada Fotopoemação iniciada em 1963. As imagens derivam de poemas escritos, performances e vídeos, e como o nome sugere, são carregadas de poética. São retratadas além de Anna Maria (no centro), sua mãe e sua filha. Três gerações ligadas por um fio de macarrão que pode simbolizar a tradição italiana,os afetos, a linhagem feminina. A questão da identidade também passa por aí. Embora tenha nascido na Itália, Anna descobriu-se uma artista brasileira a partir de sua identificação com a arte produzida por aqui.Essa obra fala de sua ancestralidade e também de novos horizontes. Migrar é levar sua cultura, seus valores, mas também estar disposto ao novo, ampliar.

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Feijão com arroz (1979, remontada recentemente): A instalação remete, a partir do prato mais comum dos brasileiros (são mudas de arroz e feijão nos pratos), ao mito bastante propagado na década de 70 de que “era necessário que o bolo crescesse para depois dividir”. Como esperar se muitos têm fome agora? Feijão com arroz fala de igualdade e distribuição justa de recursos… Nem precisa dizer que foi muito polêmica, né?

N TIMES ONE 2000

N Times One (2000): Parte de uma série de esculturas/ instalações de barro que impressionam por incorporar com tanta força e delicadeza um material constantemente ignorado na arte contemporânea.

Atualmente, a artista vive em São Paulo e continua tratando de temas sociais, além de pesquisar materiais e tentar compreender o modo como eles interferem no processo de criação. Você pode encontrar muito mais informações no site dela:  http://annamariamaiolino.com/ (de onde foram reproduzidas todas as imagens dessa matéria).

 

Daiane Cardoso
  • Colaboradora de Artes

Nasceu em São José do Rio Preto e escolheu estudar Museologia no Rio de Janeiro. (Quase) formada em Comunicação Social pela UFRJ gosta de dança, pintura, poesia e seres fofinhos. Sonha em ser pesquisadora, mas não consegue parar quieta em um tema; para saber o dessa semana só perguntando mesmo.

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