20 de março de 2016 | Colunas, Música, Se Liga | Texto: | Ilustração: Diffuser
Artista do mês, Kate Nash, a riot grrl dos anos 2000!

Imagem retirada deste site

Acho que para começar a falar de Kate Nash, preciso levar vocês para a minha memória do primeiro show que fui dela no distante ano de 2011 em uma noite chuvosa. Kate sobe ao palco com um laço gigante na cabeça, um laço imenso mesmo, salto alto e bastante maquiagem. Ao longo do show ela vai se soltando e tem seu ápice na música “Mansion Song”. Aqui Kate está em cima de um amplificador gritando “I don’t have to be your baby”, (em tradução livre “eu não preciso ser seu amorzinho”) e a música é todo um monológo sobre empoderamento e como nós mulheres somos mansões e devemos ser tratadas assim. Até que em uma atitute bem punk, ela dá um salto e começa a grunir deitada no chão. Resgatei toda essa memória para dizer que pra mim o que a Kate Nash faz é provar que podemos sim usar todos esses símbolos tipicamente “femininos” e misturar com mensagens feministas e sermos o máximo fazendo isso.

Agora para você que nunca ouviu falar de Kate Nash vou fazer um retrospecto da carreira da moça. Kate é inglesa, da capital Londres e fazia músicas no myspace sempre com um piano. Até que uma gravadora viu, assinou com ela e em 2007, com apenas dezenove anos, ela lançou seu primeiro disco Made Of Bricks (2007, Polydor Records) e a música Foundations, uma baladinha pop sobre o fim de um relacionamento, explodiu na Inglaterra e lançou a Kate pro mundo. Todo o primeiro cd dela é bem delicado e fofo, ela era bastante a “bonequinha” inglesa. Eu nunca fui delicada ou fofa, queria distância de rosa ou qualquer coisa parecida. Ser muito “menininha” era a morte pra mim, porque era ser fraca, porque a gente é ensinada que ser mulher é ser fraca. Porém em toda a fofura desse primeiro album Kate é tão forte, tem músicas como “Mariela” que fala sobre uma menina que tem opiniões diferentes de todos e que não aceita “caber” em um mundo que quer que ela seja uma outra pessoa que ela não é. Outra faixa ótima é Mouthwash, que ela lista várias coisas normais que faz e também várias dúvidas e tormentos que passa, mas que ela vai continuar ali, forte, cantando e que ninguém vai impedi-la de falar o que pensa e, com essas duas músicas, eu estava fisgada.

Em 2010 ela lança My Best Friend Is You. Nesse segundo album já podemos ver um pouco da influência do movimento riot grrl no trabalho de Nash que foi muito evidente em seu terceiro disco. O movimento surgiu nos anos noventa, nos EUA, onde várias artistas queriam informar e empoderar outras mulheres e fizeram isso principalmente atráves da música. A banda Bikini Kill e sua vocalista Kathleen Hanna foram um dos maiores destaques e sua música é um rock mais urgente, mais gritado, um rock que exigia a atenção para mulheres poderosas. Kate abertamente já declarou sua paixão pelo movimento e por Kathleen e como ela resussita isso em suas músicas. Nesse álbum temos a “Mansion Song”, a qual citei no primeiro parágrafo, que é uma nítida influência e também “I’ve Got A Secret” que é uma música contra homofobia (a cantora declarou que namora um homem, mas que não consegue definir sua sexualidade e nem acha que deve).

Porém em 2013, Nash lança Girl Talk, seu terceiro álbum e o título (conversa de garota) já deixa claro sua temática, ela vai falar de feminismo e principalmente ela vai falar com garotas sobre garotas. Na música All Talk ela literamente fala “I’m a feminist and if that offends you then f*** you”(Eu sou uma feminista e se isso te ofende então f** você). Mais Riot Girl do que nunca nesse álbum ela ainda fala de gaslight, sexismo e muito sobre empoderamento. Só que o legal disso tudo é que ainda tem músicas de amor, ainda tem a delicadeza e a fofura, ela não deixou isso pra lá, ela misturou os dois e deu um resultado ótimo. A música “Conventional Girl” é um ótimo exemplo, é uma música sobre o fim de um relacionamento que tem uma segunda voz super lírica cheia de uhhhs e oohhs e ao mesmo tempo tem uma parte toda gritada e mais agitada falando sobre ser ela mesma e que isso é o suficiente.

Outro fator importante foi que esse último álbum Kate lançou independente de gravadoras, pois a sua gravadora a dispensou. A partir desse choque ela decidiu, além de seguir carreira indepente, se envolver em diversos programas que incentivam outras meninas a fazerem o que elas quiserem independentemente. Ela lançou o programa “Kate Nash’s Rock in Roll for girls after school club”, no qual ela vai em diversas escolas e dá aulas de música para meninas depois da aula e com elas organiza um show no final do ano. Além disso ela também lançou o Girl Gang TV, que é um canal no youtube que ela junto com amigas e algumas fãs fazem uma série de vídeos falando com vários artistas, principalmente mulheres, sobre feminismo e sobre arte de um modo geral. É interessante porque a cantora falou que todos esses projetos vieram de um lugar de frustração e raiva que depois ela transformou em algo ativo para melhorar o mundo.

Não podemos esquecer no entanto que Kate Nash é branca, magra, inglesa e de classe média e todo o seu trabalho passa por esses privilégios. Porém é muito importante termos uma artista pop disposta a falar desses assuntos, a falar de feminismo e sexismo de uma forma honesta e que também use sua plataforma para impulsionar outras meninas. Foi importante pra mim com Kate Nash ver que podemos ser “menininhas”, que não tem nada de fraco nisso. Eu continuo não sendo a menina do batom ou do salto alto e tudo bem, agora eu sei que eu só não sou assim, mas se eu quiser eu vou usar o meu vestido vermelho de corações e gritar com o mundo para exigir meus diretos, assim como a Kate faz.

Dani Feno
  • Coordenadora de Audiovisual
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Música

Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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