9 de agosto de 2015 | Edição #17 | Texto: | Ilustração: Clara Browne
As cozinhas do mundo

A gente anda pelas ruas e por todo lado vê sinais iluminados nos chamando: restaurante mexicano, fast food americano, cozinha tailandesa, italiana, asiática, árabe, andina, russa, polonesa, ufa! Parece que cada lugarzinho do mundo tem alguma comida diferente pra mostrar. Mas, se a gente parar pra pensar, é bem assim mesmo, né? A Nicole já falou esse mês sobre como a cultura influencia nossa alimentação, e como as diferentes características de cada local podem moldar nossos pratos.

Só que, com a tal da globalização, os movimentos migratórios e todas as mudanças pelas quais o mundo vem passando, as comidas foram se misturando também. Na Inglaterra, por exemplo, é muito comum encontrar comida indiana e asiática em geral, devido à forte presença dessas populações no país. Assim como marroquina na França, e italiana, bem, pelo mundo todo.

No entanto, é curioso pensar na culinária como característica de um país inteiro quando se lembra que é quase certo que existe mais de uma região ali dentro, mais de um povo e, de certa forma, mais de uma cultura. Daí a gente ter no Brasil um “pão italiano”, que não tem um equivalente direto na Itália. Lá, cada região tem sua tradição alimentar, seu pão característico, os acompanhamentos da tradicional massa variando um monte.

Ao mesmo tempo que há toda essa mistura por conta da conectividade do mundo, é muito comum também que a cultura gastronômica se aproprie daquela ideia de cultura alimentar, e grandes e renomados chefes de cozinha começam a fazer modificações e versões. Muitas dessas versões podem ser mais agradáveis ao paladar ocidental, por exemplo, mas perde-se então muito do valor cultural que aquilo trazia embutido. O excesso ou ausência de temperos, o número de ingredientes, o modo de preparo, tudo isso costuma ter uma razão de ser. Não que ainda seja necessário cozinhar o arroz dentro de um pedaço de bambu numa fogueira, mas isso com certeza tem um valor para o povo que cresceu com essa noção de alimentação.

Isso tudo é uma consequência das transformações da sociedade, e não necessariamente existe – nem é necessário – uma forma de controlar. Mas a internet é uma super ferramenta de comunicação sem fronteiras, e pode ajudar a trazer mais informações sobre as influências da cultura de origem nos pratos da nossa mesa. Três exemplos bem comuns de comida que nem relacionamos mais ao local de origem são a mexicana, a asiática e a árabe.

O sabor asiático

Uma das comidas importadas mais comuns hoje em dia é a que vem lá do outro lado do mundo: japonesa, chinesa, tailandesa, coreana… Muitas vezes a gente taca tudo no mesmo pacote. Mas, parando para pensar, será mesmo que elas têm alguma coisa em comum? O Japão é um país com cultura própria bastante singular por ser uma ilha, ter muitos terremotos, entre várias outras coisas. O sushi, por exemplo, surgiu da necessidade de conservar o peixe, a principal carne consumida por lá, já que eles estão literalmente cercados pelo mar. O arroz era posto junto do peixe e isso foi evoluindo até chegar no arroz com a fatia de peixe cru por cima que agora comemos no mundo todo!

Já a China tem uma população gigantesca, um território ainda maior e vários povos, etnias e tradições diferentes, e portanto, sua culinária varia muito. No leste, banhado pelo mar, crustáceos e peixes e até tubarões são iguarias comuns, assim como em alguns lugares insetos fritos são consumidos em feiras populares.

O yakisoba é um exemplo de interação que ocorreu através dos séculos: é um prato japonês, que significa basicamente “macarrão de trigo sarraceno frito”, mas talvez tenha origem na culinária chinesa, no chow mein, que é quase o mesmo prato, com variações principalmente no molho.

Outra cozinha asiática que tem ganhado o mundo é a tailandesa, que é caracterizada principalmente pela mistura de sabores e condimentos. Os ingredientes, na cultura tailandesa, têm funções, e o prato é pensado não só como comida, mas esteticamente e até por seus benefícios medicinais; cada ingrediente e cada etapa são importantes para o resultado final. Essas características são as mais fáceis de serem perdidas nessa exportação desenfreada que acontece pelo mundo. Será que um fast food tailandês vai mesmo se preocupar com todos esses detalhes do prato?

A culinária asiática foi uma das mais difundidas nos últimos anos, e fica sempre no ar a dúvida se faz sentido essa transposição ainda ser chamada pelo nome original, ou se talvez ela não devesse ser “inspirada”. Pode parecer exagero, mas para muitos povos a comida tem valor quase sagrado, e não custa nada respeitar.

O Tex e o Mex

A comida mexicana é outra que, pelo menos no Brasil, é muito difícil de conhecer de verdade: a maioria do que vemos por aqui é “Tex-Mex”, uma mistura de características da comida da região do Texas, nos Estados Unidos, com elementos da cozinha mexicana. Não é raro ouvir de pessoas de origem mexicana que não, não é a mesma coisa. No México também é comum o consumo de insetos fritos, mas a base mesmo da alimentação é feita com o feijão e o milho, além do chili, que é algum tipo de tempero apimentado. Um prato bem típico do México e que não conhecemos muito são os tamales, feitos com uma massa de milho e recheados. Ah, outra coisa que os mexicanos comem e pra gente pode soar estranho são os cactos! Quer dizer, o nopal, que é um fruto do cacto muito usado para molhos e sobremesas.

A culinária mexicana tem bastante influência das raízes nativo-americanas, que eram muito calcadas na produção de alimentos favoráveis ao clima local.

Essa é Chicomecóatl, a deusa asteca da subsistência.

Essa é Chicomecóatl, a deusa asteca da subsistência.

O árabe e a esfiha

A essa altura você já deve ter entendido, né? A comida que chamamos de árabe passa pelo mesmo processo de “exportação” que mistura várias características e até países numa mesma coisa e espalha pelo mundo. Claro, isso é uma forma de troca de culturas que sempre vai ocorrer, e cada vez mais no nosso mundo. No entanto, a forma como essas culturas foram passadas, geralmente por colonizadores ou opressores, pode justificar um pouco a estranheza que às vezes vem junto. A esfiha, por exemplo, tem origem libanesa/síria, e só veio ser fechada já no ocidente. Por lá, as esfihas eram sempre abertas. O pão chato, não fermentado, comum na região, era coberto com carne e cebolas, o que virou a esfiha. A carne, apesar de muito consumida, com frequência é de cordeiro, e o leite de cabra. Muitos elementos da culinária árabe são reflexos da religião: a ausência de bebidas alcóolicas e carne de porco, por exemplo, são proibições fortes nos países islâmicos, de onde parte do que conhecemos como culinária árabe vem.

Síndrome de underground alimentícia

Apesar de parecer tão crítico, esse post não tem a intenção de convencer as pessoas a parar de comer tudo o que vem de fora. Até porque isso nem seria possível hoje em dia, né. A ideia é somente lembrar que a comida também é um elemento forte da cultura de muitos lugares, e é interessante pensar sobre isso para conhecer realidades diferentes das que vivemos. O mundo é um lugar muito vasto e a gente acaba passando por cima de um monte de coisas sem nem perceber. Pode ser super interessante se aprofundar mais na razão daqueles temperos serem usados em determinada cultura e não em outra, como uma região tem mais um tipo de comida do que outra. Ajuda a entender o mundo, e isso só nos torna pessoas mais interessantes também.

Verônica Montezuma
  • Colaboradora de Tech & Games
  • Audiovisual

Verônica, 24 anos, estuda cinema no Rio de Janeiro. Gosta de fazer bolos, biscoitos e doces, e é um unicórnio nas horas vagas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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