13 de novembro de 2015 | Saúde | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Doenças negligenciadas: O silêncio que mata

Não é difícil ver e reconhecer que, historicamente, as populações mais pobres viveram (e vivem) sempre à margem de muitas coisas da vida em sociedade. Desde o acesso à alimentação equilibrada, até a aquisição de bens de consumo, o dinheiro e a região de moradia pautam as condições vividas rotineiramente por cada um. Não é diferente com a saúde.

As chamadas “doenças negligenciadas” são endemias (doenças que atingem uma determinada região, de causa local) que atingem as populações mais pobres, especialmente da África, Ásia e América Latina. São doenças tratáveis e curáveis, mas que, mesmo assim, afetam (e matam) um grande número de pessoas porque as medidas preventivas e até o tratamento muitas vezes não estão disponíveis para os que possuem baixa renda.

O tratamento destas condições de saúde costuma ser até barato, mas na maioria dos casos não há interesse de investimento e financiamento porque, por atingirem populações pobres, possuem pouca visibilidade e baixa margem lucro. Por total falta de interesse em desenvolver tratamentos para estas doenças, algumas indústrias chegaram, inclusive, a ceder gratuitamente as patentes para a produção destes medicamentos, outras se comprometeram a doar remédios para o tratamento, e a distribuição destes em muitos países chegou a alcançar determinado sucesso. Em alguns casos os mecanismos para tratar e diagnosticar essas doenças são antigos e até inadequados, mas poderiam se tornar mais simples e efetivos se houvesse investimento em pesquisa, o que não é de interesse das indústrias farmacêuticas, por não haver a perspectiva do retorno financeiro.

Estão entre as doenças negligenciadas, doenças tropicais como a Doença de Chagas, a Dengue, a Cisticercose, a Doença do Sono (Tripanossomíase africana), a Hanseníase (antigamente conhecida como Lepra), a Raiva, a Esquistossomose, e outras enfermidades causadas por parasitas e agentes infecciosos. São doenças tão negligenciadas que muitas vezes não há registro e, por isso, os índices referentes a elas podem não refletir a realidade. São doenças potencialmente fatais (como a Doença do Sono e a Dengue Hemorrágica), ou que podem gerar sequelas e complicações a longo prazo (como a Doença de Chagas). Outras causam efeitos que provocam incapacidade e ainda mais segregação (como a Hanseníase), agravando o quadro da pobreza e exclusão.

As regiões e populações afetadas pelas doenças negligenciadas possuem sempre características bastante parecidas: clima tropical, falta de saneamento básico, falta de acesso à informação, baixas condições de higiene, falta de planejamento urbano, com moradias precárias e desordenadas, etc. Muitas dessas doenças teriam índices menores de proliferação ou até seriam evitadas se estas populações tivessem condições mais salubres de vida.

No Brasil as doenças negligenciadas são uma preocupação do Ministério da Saúde, porque atingem uma parcela muito significativa do povo e, apesar de tratáveis e evitáveis, continuam a manter números assustadores. A tuberculose, por exemplo, possui tratamento consolidado e gratuito, oferecido pelo SUS, mas continua a ser um problema de saúde pública no nosso país, principalmente no Rio de Janeiro e no Amazonas. O Brasil é o segundo país com maior prevalência de Hanseníase no mundo, ficando atrás só da Índia. A doença também possui tratamento pelo SUS, mas ainda amarga poucas campanhas de conscientização da população. Muitas vezes o medo do preconceito e a falta de informação para ficar alerta logo aos primeiros sintomas fazem com que os doentes demorem a procurar atendimento e, consequentemente, exponham cada vez mais as pessoas do seu entorno ao contágio. No nosso país, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) é um dos maiores agentes pelo controle e tratamento destas endemias, e tem contribuído em muito para estudos e pesquisas no combate a elas. Em 2003 foi criado, também, a DNDi, iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas, um coletivo independente de vários países em prol da pesquisa na área. O escritório da DNDi América Latina fica no Rio de Janeiro, e tem alcançado significativas vitórias, especialmente com a parceria da Fiocruz.

Atualmente as doenças negligenciadas possuem indicadores considerados inaceitáveis pelos pesquisadores da área, e investimentos muito reduzidos em pesquisa, produção de remédios e controle. Essas enfermidades causam entre 500 mil e 1 milhão de mortes todos os anos, além de incapacitar milhões de pessoas, pessoas estas que parecem invisíveis, porque, por possuírem baixo poder aquisitivo e praticamente nenhuma influência política, permanecem sem a atenção de que necessitam.

 

 

Dia 17 de novembro é o Dia Nacional de Combate à Tuberculose.

Iane Filgueiras
  • Colaboradora de Saúde

Iane Filgueiras, 25 anos, de São Gonçalo - RJ, é mestranda em mídia, com pesquisa voltada para comunicação e saúde. Tem vários desejos, pouco dinheiro, e muito trabalho. Sentimental, faladeira e ansiosa até o último fio de cabelo. Prefere um bom filme/série na TV com balde de pipoca e edredom a quase qualquer coisa. Tem gostos ~~infantis~~, mas é com eles que se sente mais feliz. Sonha em ir à Disney, mas nunca quis ser princesa.

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