21 de março de 2016 | Edição #24 | Texto: | Ilustração: Heleni Andrade
As histórias das avós
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Existem grandes histórias. História com H maiúsculo, sobre a Humanidade, também com H maiúsculo. Existem livros sobre essas grandes histórias da humanidade. São livros de pensadores acadêmicos, que se dedicaram a interpretar e organizar a cronologia coletiva do mundo das maneiras que acharam mais adequadas – ou mais estratégicas. Existem livros condensados, que lemos na escola como material didático, e que trazem pinceladas de cada parte da história. Mas da história toda? Não. A “história toda” é uma questão de ponto de vista. Os estudos da história, apesar de serem parte das Ciências Humanas, também são narrativas.

E quem cria as narrativas?

Depende. Se fôssemos seguir muito à risca a formalidade, diria que são os pesquisadores, formados nas universidades. Alguns fizeram trabalhos primorosos, que ajudaram muitas e muitos na formação de saberes. Outros deram voz a narrativas focadas muito mais nas experiências de poderosas elites, reforçando pontos de vista estereotipados sobre os povos e tornando mais invisíveis suas resistências.

Em contrapartida, existem milhões de outras narrativas prontas para serem rememoradas: estão nas cadeiras de balanço, nas soleiras das casas, nos bancos de praça, nas filas do mercadinho, batendo ponto, pegando ônibus. A história não se faz sozinha, ela é vivida todos os dias. É vivida por todas e todos que compõem a sociedade, e não apenas por aqueles que possuem diplomas para tais análises.

O que eu sei da Era Vargas vem do que aprendi na escola, mas também vem muito do que me contou minha avó, que veio do Pará para São Paulo aos cinco anos pelas ofertas de trabalho do período, e que em seguida vivenciou na pele as atitudes cotidianas do cenário paulista que, por considerar-se “locomotiva do país”, colocava-se com superioridade e diminuía todo o povo que vinha de regiões mais ao norte.

O que sei da ditadura militar aprendi pouco na escola, talvez por ser um episódio em nossa história tão recente e ainda mal digerido. Até pouco tempo atrás, currículos escolares tratavam o golpe de 64 como “revolução de 64” – exemplo óbvio de como a construção da história não é neutra, muito menos intocável. Em compensação, muito aprendi pelo que contam meus pais, que cresceram no meio daquilo tudo, e que contam seus amigos mais velhos, que viveram não apenas a ditadura, mas a luta contra ela, que se organizaram, que foram presos e torturados, que sobreviveram e estão aí para contar a história – e que deveriam ser mais ouvidos em momentos como esses, em que a democracia está tão fragilizada.

Nosso país é historicamente desigual, desde a conquista de nossos territórios, em 1500. Depois disso, se passaram séculos de escravidão, de governos formados por e para as elites, de exploração de nossos povos e junto a eles suas riquezas, seu trabalho, seus corpos, suas culturas, seu bem viver. Os livros de história pouco mencionam as resistências daquelas e daqueles que lutaram pela sobrevivência coletiva, e junto a isso todo o sonho de uma vida que vale a pena ser vivida. Mas essas pessoas ainda existem, e constroem, nas esquinas, estradas, ruelas, quartos de despejo e casas de alvenaria, suas resistências e alternativas cotidianas, que são parte crucial de nossa história.

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

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