22 de junho de 2017 | Artes, Colunas | Texto: | Ilustração: nataliaschiavon
As narrativas que carregamos em nós: A poesia de Rupi Kaur

[TW: estupro, abuso, violência contra a mulher]

“como é tão fácil pra você

ser gentil com as pessoas ele perguntou

leite e mel pingaram

dos meus lábios quando respondi

porque as pessoas não foram

gentis comigo”

Esse poema é o que abre o primeiro livro de Rupi Kaur: “milk and honey”  (“leite e mel”, em tradução livre, publicado no Brasil como “outros jeitos de usar a boca”).

Ela nasceu em Punjab, na Índia, e imigrou com os pais para o Canadá, onde mora hoje, com quatro anos. As mudanças pelas quais ela passou e toda a experiência que teve enquanto mulher, imigrante e parte de uma minoria que fora perseguida em sua região natal foram fundamentais para sua arte.

Ela escreve poemas, performa poesia falada (“spoken word”) e desenha as ilustrações que acompanham seus poemas, cuja primeira antologia ganhou um lugar na lista dos mais vendidos do jornal New York Times.

A primeira vez que li um poema de Rupi, eu tinha acabado de conversar com algumas amigas sobre empoderamento. Depois de passarem por alguns momentos difíceis, de término e relacionamentos abusivos, elas procuravam algo que as animasse. Uma outra amiga nos apresentou o livro, e aí fomos nos revezando para ler em voz alta e paramos depois de cada um para expressar o quanto aquilo falava ao nosso coração. É dessa forma que Rupi Kaur estende sua arte para nós, leitoras: é impossível não se sentir inspirada, encorajada, compreendida.

A origem do título vem de um poema que foi escrito por Rupi sobre o genocídio do povo Sikh, do qual ela faz parte, que ocorreu em 1984. Um dos versos, específico sobre as mulheres Sikh e seu sofrimento, diz que elas se tornaram “suaves como o leite, mas fortes como o mel”. Em seu site, ela explica que leite e mel, além de serem mencionados em escrituras sagradas de várias religiões, sempre foram usados em sua família e comunidade como ingredientes curativos, como substâncias que reparavam o interior do corpo. As suas poesias tem relação forte com essa finalidade: o livro dela trata de temas como abuso, perda, trauma, amor, feminilidade e empoderamento. Passando por situações e experiências suas e de outras pessoas, Rupi tece uma história que prende a atenção e incentiva quem lê a se colocar no lugar de quem fala.

Como imigrante, Rupi tem a importância de preservar a sua cultura, tão massacrada e perseguida, dentro de si. Em cada verso do que escreve, ela coloca uma sutil, mas importante homenagem à sua origem: seus poemas são escritos apenas com letras minúsculas, e não são usados símbolos de pontuação além do ponto final. Essa decisão vem do respeito à sua língua materna, o Punjabi: na escrita tradicional Gurmukhi, que acompanha a língua, não se utiliza a letra maiúscula nem outra pontuação.

Outros temas frequentes na poesia de Rupi são o abuso e a violência contra a mulher. Ela mesma se considera sobrevivente da prática do feticídio feminino (aborto de fetos apenas por serem do sexo feminino) comum na região onde nasceu. É evidente que essa violência é muito presente nas nossas vidas, temos nossa liberdade limitada por ela; somos restringidas a padrões de beleza e comportamento que nos impedem de viver como bem queremos, com nossas próprias escolhas e com nossa expressão única e individual de feminilidade. Sofremos assédio, abuso e violência doméstica e sexual. De várias maneiras, experimentamos a opressão. Como a própria Rupi escreve em seu site: “conhecemos a violência sexual intimamente. temos números alarmantes de estupro. de anos e anos de vergonha e opressão. da comunidade e de colonizador após colonizador. mas também desafiamos esta narrativa a cada dia. e essa poesia é apenas um caminho para fazê-lo”.

De fato, a poesia é apenas uma das formas de arte que Rupi produz. Em seu site, rupikaur.com, ela também publicou séries de ensaios fotográficos com temas diversos, um deles, sobre menstruação, sendo o mais famoso por ter gerado controvérsias. Após publicar uma foto sua deitada de costas sobre a cama, com uma mancha de sangue menstrual na calça no Instagram, a empresa retirou-a do ar duas vezes sem justificativa.

Rupi respondeu com um post no Facebook falando sobre a atitude do site, publicando a imagem mais uma vez e ganhando repercussão viral na Internet. A resposta do Instagram era justamente a atitude que ela queria criticar ao fazer seu ensaio: uma sociedade que aceita mulheres seminuas ao lado de propagandas de cerveja, mas que sente nojo de uma imagem de um vazamento de sangue menstrual.

Em uma de suas performances de poesia falada, intitulada “i’m taking my body back” (estou tomando meu corpo de volta), ela narra uma situação de abuso sexual, mas se concentrando na cura que se segue após o trauma. Sua performance nos leva para o sentir do sofrimento, mas acompanha o passar do tempo e depois celebra a cura e o conforto novamente.

Essas narrativas e expressões de sentimento contadas por Rupi nos levam para perto das nossas próprias mágoas, inseguranças e ansiedades e as elevam com palavras. O que eu e as minhas amigas sentimos ao lê-las foi uma amostra do que Rupi pretende criar com elas: um momento de conforto e de identificação, de reflexão que leva à mudança e à união. Termino com um dos nossos poemas favoritos, e que, para mim, transmite esse sentimento:

“meu coração sangra pelas irmãs em primeiro lugar

sangra por mulheres que ajudam mulheres

como as flores anseiam pela primavera”

Que as palavras de Rupi ajudem a fortalecer ainda mais as amizades e que possamos ser sempre umas pelas outras.

 

Isabella Rangel
  • Colaboradora de Artes
  • Colaboradora de Se Liga
  • Colaboradora de Culinária e FVM

Isabella é curitibana e tem 20 anos de idade. A chuva, para ela, é um estado de espírito, muito bem apreciado com muitas xícaras de chá. É fã de museus, música e aventuras gastronômicas e gosta ainda mais de atividades que combinem os três. Hoje vive no interior de São Paulo, e quando não está lendo livros para a faculdade de Direito, ela pratica seu clarinete, assiste musicais e lê mais livros.

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