30 de março de 2020 | Esportes | Texto: | Ilustração: Raphaela Corsi
As Olimpíadas esperam a saúde

Estado de emergência. É proibido frequentar escolas, bares e restaurantes. Eventos, só se não encher uma mão na conta dos presentes. Sem chances de viagem; nem pelo céu, nem mar, nem pelos trilhos, muito menos nas estradas. Fronteiras fechadas. Sair de casa apenas para o essencial e, não, não é o que você julgar essencial: apenas o necessário para a sua sobrevivência, ou seja, farmácia e supermercado.

Alguns países estão assim há mais de um mês. No Brasil, há duas semanas. Tudo por conta da pandemia do coronavírus, uma “atualização” de um vírus que tem rápida transmissão e pode se assemelhar a uma gripe, mas também a uma letal pneumonia. São milhares de pessoas infectadas por todo o mundo e outras milhares mortas. Em um 2020 em que achamos que tudo nos aproximava, um vírus – que não é digital – nos parou.

 

As Olimpíadas

Entre os cancelamentos e adiamentos trazidos pelo COVID-19, o maior evento de esporte do mundo tentou contê-lo, ser otimista, esperar… Mas não teve jeito. Pela primeira vez na história, as Olimpíadas foram adiadas. A decisão saiu tardiamente em relação ao posicionamento de outras entidades do esporte e ao apelo de atletas que visavam a competição. Sede dos Jogos, o Japão chegou a um acordo com o Comitê Olímpico Internacional para passar as atividades para 2021.

A resistência para alterar a data tem motivos: uma edição de Olimpíadas de verão só teve mudança em relação à previsão inicial em ocasiões de guerra. Casos de 1916, na 1ª Guerra Mundial, e nos anos de 1940 e 1944, períodos da 2ª Guerra Mundial. Nas três vezes, os Jogos foram cancelados. Coincidência ou não, no ano de 40, a disputa seria em Tóquio.

 

Seus números

Mas muito além de coincidências, os números explicam a grande burocracia do tardio adiamento. Estamos falando da 32ª edição das Olimpíadas. A previsão é de que 11 mil atletas de pelo menos 204 países a disputem. São 33 esportes para entreter uma estimativa de cinco milhões de espectadores divididos entre 43 locais em Tóquio. Acha que acabou? Vem aí, os cifrões.

Com o adiamento dos Jogos para 2021, o Japão, país-sede do evento, estima um prejuízo de R$ 13 bilhões, segundo o jornal local de economia Nikkei. É que os organizadores do evento terão que renegociar inúmeros contratos, além da manutenção dos locais de jogos e a Vila dos Atletas, que até tem apartamentos vendidos, mas que terão que ser entregues aos novos donos em dois anos, em vez de um; além de ingressos comercializados, etc.

Num geral, o Japão estima um gasto de R$ 140 bilhões com as Olimpíadas. Não à toa no livro The Oxford Olympics Study 2016: Cost and Cost Overrun at the Games (“Estudo de Oxford das Olimpíadas de 2016: Custo e superação de custos nos Jogos”, em tradução livre), o escritor Bent Flyvbjerg afirma que os Jogos têm o maior custo médio de superação de qualquer tipo de megaprojeto.

 

Sua humanização

Porém, existem aspectos que transpassam os numéricos, que são o profissional e o social. São milhares de atletas que vivem esperando estar no evento. São, no mínimo, quatro anos de preparação – tempo entre uma edição e outra. Tem aqueles que vão pela primeira vez e vivem a expectativa do novo, e os experientes que sabem que não terão mais idade para um novo ciclo e vivem a expectativa da despedida. Tem também os que já foram e vão voltar, ainda construindo sua história que, num evento como esse, vale tudo.

Agora todos eles devem esperar um pouco mais. A ansiedade para o 24 de julho de 2020 aumenta para a nova data: 23 de julho a 8 de agosto de 2021. Mas há também o alívio. Imagine você, um nadador às vésperas da competição mais importante do mundo, entrar em quarentena dentro de casa, sem contato com a água? Ou um atleta da areia, da corrida, do arco, do tatame. Não há home office para o esporte.

A Tocha Olímpica, maior símbolo dos Jogos, chegou a Tóquio na última semana em cerimônia fechada. E eu pergunto a vocês: o que é o esporte senão um entretenimento do povo? O ato discreto já mostrava que um evento desse não pode dividir as manchetes com uma triste pandemia. Vamos esperar tudo isso passar, mantendo a chama acesa como esperança e certeza de que em 2021 celebraremos atletas que doam sua vida à pátria, ao esporte e à educação, embasados, sobretudo, na saúde. E ela virá.

Queka Barroso
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  • Colaboradora de Esportes

Nascida na geograficamente pequena, mas amorosamente imensa, Barroso/MG, Queka quis homenagear sua cidade colocando-a como sobrenome - o nome, aliás, é Jéssica, mas isso só no RG. Moradora de Belo Horizonte desde os cinco anos, foi na capital mineira que se formou jornalista e exerce e estuda a profissão na área esportiva - sua maior paixão. Nasceu em fevereiro, é amante do carnaval e é do signo de Peixes. Embora não tenha conhecimento sobre astrologia, sabe que tudo que falam sobre pisciano bate com sua personalidade. Queka agora escrever e transcrever as escritas de Rubem Alves (no blog Sou Muitos) e Nelson Rodrigues (em um livro ainda em construção). Na cozinha, o que não sabe fazer, sabe comer. Se for uma boa comida mineira ou coxinha então... Quando não tem jogo, certamente está assistindo Padrinhos Mágicos, Matilda ou Frozen. "Você quer brincar na neve?"

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