20 de outubro de 2015 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Laura Athayde
As regras do jogo (podem ser mudadas)

A escola tem um montão de regras, e elas devem ser seguidas por todo mundo. Muito justo, a princípio. É importante que em um ambiente de ensino tenhamos determinados acordos para que ninguém saia prejudicado. Aliás, isso é essencial. Precisamos sempre proteger tanto os alunos quanto os funcionários da escola para que não haja nenhum tipo de exposição, que ninguém seja ferido. Só assim para estarmos protegidas, para que o ensino se dê de uma forma saudável e consigamos aprender sem medo ou mesmo sem nos gerarem traumas. Essa é a escola ideal, mas a gente sabe que não é bem assim que a banda toca.

Aqui na Capitolina, a gente já falou sobre casos de machismo e racismo na sala de aula e, infelizmente, opressões e exposições de alunos acontecem todos os dias em quase todos os colégios. Pode ser por parte dos próprios alunos e pode ser por parte dos professores. Os dois casos são horríveis, mas hoje vamos nos focar no segundo.

É muito, muito difícil identificar quando um professor ou mesmo quando a coordenação do colégio está errada e isso é porque são eles que ditam as regras na maioria das vezes. Na escola, os alunos podem sim falar o que acham justo ou injusto, mas a palavra final sempre vem de quem está lá na frente da sala, ou na coordenação. Isso dificulta um bocado as coisas, porque são essas as pessoas que estão te ensinando as coisas. Da mesma forma que, em casa, é sua família que te educa, na escola esse papel é dos professores e coordenadores. No nosso modelo de ensino, eles que retêm o conhecimento e nós, adolescentes não iluminados, temos que aprender com essas boas almas que escolheram nos ensinar a ser gente. Pra esse modelo, a gente da Capitolina diz: HAHAHA! E, porque sabemos a dificuldade que é entender que a gente tá certa e a instituição que está errada, fizemos um apanhado de dicas de como perceber que estamos vivendo essa situação e como podemos mudá-la.

Dica n°1: se pergunte “por quê?”

Muitas vezes a gente se sente mal com algo, mas não sabe direito o motivo. Um exemplo totalmente pessoal é um professor que eu tive que não deixava meninas sentarem com as pernas cruzadas na aula, mas os meninos tudo bem. Era uma coisa que me incomodava demais, mas eu nunca me perguntei “por que isso me incomoda?”. Só quando eu já tinha saído da escola que fui entender que esse era um caso de machismo bravo, beirando a pedofilia, porque o que incomodava era que o professor não deixava as meninas sentarem de tal maneira porque ele não sabia se controlar e ia olhar e imaginar o que não deve de forma alguma. Então, ele simplesmente proibia as meninas de sentarem de forma confortável em vez de ele mesmo se educar. Pois é, bem feio.

Nós, garotas, somos condicionadas a achar que nossos sentimentos não importam ou que mais atrapalham do que qualquer outra coisa, mas isso é só mais uma maneira que a sociedade encontrou de nos oprimir. Nossos sentimentos importam, seus sentimentos importam. E se você está se sentindo mal, existe um motivo para isso. Então, se pergunte: “Por que isso me incomoda?” e tente elaborar uma resposta. Tudo bem se ela começar genérica ou ainda ser confusa. Faz parte. Lembre-se: estamos condicionadas a acreditar que as regras estão corretas, então é claro que vamos ficar confusas quanto aos motivos e não nos sentirmos bem em determinada situação. Mas insista! Aos poucos, você vai chegar a uma resposta mais e mais clara.

Dica n°2: converse com suas migas

Exatamente porque nos ensinam que nossos sentimentos não valem muito, tendemos a guardar esses incômodos pra gente, mas já passou da hora de pararmos com isso. Converse com suas amigas sobre o assunto! Muitas vezes elas também se sentem incomodadas com a mesma coisa que você, mas não falam porque acham que é bobagem da cabeça delas, da mesma forma que você achava.

Muitas vezes, quando conversamos com nossas amigas, conseguimos entender melhor o que nos incomoda na situação. Ouvindo o outro, ouvimos a nós mesmas – e, assim, juntas, conseguimos chegar a novas conclusões. Vocês podem perceber um padrão de comportamento de um determinado professor ou mesmo da instituição como um todo. Por que as meninas não podem usar short na escola quando temos verões com sensação térmica de 50 graus? Por que na educação física as meninas só jogam vôlei enquanto os meninos jogam futebol? Por que alunas e alunos com cabelo crespo têm que sentar no fundo da sala de aula? Por que o professor faz piadinhas que deixam as meninas desconfortáveis? Por que ficamos desconfortáveis? É mais fácil identificar essas questões juntas. Ninguém está sozinha nessas horas.

Dica n°3: peça pras suas migas conversarem com outras migas

Às vezes, a gente tem poucas amigas ou então a escola tem muito mais gente do que nosso grupo de amizade, por maior que seja o número de pessoas que você dá rolê. Assim, pra conseguir pensar essas questões além do seu grupo e também para trazer o assunto entre estudantes, tentem conversar com outras pessoas! Se você não se sente confortável de abrir seus incômodos para pessoas que você não conhece tanto, fala com suas amigas falarem com aquelas migas que não são tão próximas de você, mas são delas! Levem o assunto para as outras pessoas da sua escola pensarem também, façam mais pessoas se perguntarem por quê.

Dica n°4: se reúnam!

Não adianta nada todo mundo pensar “nossa, isso é chato mesmo”, mas parar por aí. Por isso é essencial que as pessoas que se sentem desconfortáveis com a situação em pauta se reúnam. Pode ser grupo do facebook, whatsapp, encontro presencial na escola, num lugar perto ou na casa de alguém. O importante é que vocês estejam juntas. Um dos motes da Capitolina é esse: todas juntas somos fortes. E nós repetimos isso incessantemente porque é verdade, mas muitas vezes acabamos nos esquecemos disso.

Em grupo, vocês podem juntar experiências, ideias, diferentes visões. Tendo entendido o que incomoda vocês, vem a segunda parte da história: vocês podem decidir o que fazer com isso. E essa parte funciona muito melhor estando em grupo.

Infelizmente, ainda hoje a escola tende a desconsiderar quando um único aluno chega com um problema com um professor ou com uma regra da instituição. Agora se um montão de alunos chega com a mesma reclamação, a história começa a soar mais como alarme no ouvido da coordenação. Mas muitas vezes ainda não é o suficiente; se eles veem que um estudante não sabe que outro estudante também tem o mesmo incômodo, fica fácil usar a mesma desculpa e não se falar mais sobre o assunto. Por isso é importante a organização, por isso é importante vocês sentarem juntas e traçarem uma linha:

1. Qual é o nosso problema?

2. Por que isso é um problema?

3. Como podemos resolver o problema?

4. O que queremos no fim das contas?

Com isso razoavelmente estruturado, vocês conseguem chegar bem mais preparadas para o próximo passo.

Dica n°5: levem o assunto para a coordenação

Como já falei, acontece que, apesar de serem os alunos que se beneficiam ou maleficiam (sim, essa palavra existe) do colégio, continua sendo a diretoria que faz as regras do jogo. Então, é imprescindível que vocês conversem com a coordenação. Vocês podem eleger duas ou três pessoas pra representar o grupo ou mesmo tentar marcar uma reunião com todo mundo. O importante é que vocês conversem com a diretoria, apresentando aqueles quatro pontos da dica anterior e resolvam possibilidades de solução juntos. Às vezes pode haver problemas como falta de verba do colégio ou uma burocracia enorme que está nas regras, mas não se deixem vencer com isso. Lembrem-se que a escola é uma comunidade formada por uma série de pessoas: além dos professores e coordenadores, existe uma série de outros funcionários que fazem a escola ser como é, além dos alunos e das famílias dos alunos que podem também interferir na construção do espaço do colégio.

A ideia é que estudantes e coordenação trabalhem juntos para que a escola seja um ambiente menos hostil para quem está nela. Afinal de contas, todo mundo está preocupado com a mesma coisa por princípio: o colégio ser um lugar seguro de aprendizado.

Dica n°6: se a coordenação não fizer nada, façam vocês mesmas!

A ideia é que levando o assunto pra coordenação, vocês consigam resolver o problema que têm, seja ele qual for. Infelizmente, o que vemos acontecer muitas vezes é que coordenadores podem ser bem obtusos quanto a problemas de estudantes. Assim, se isso acontecer, vocês têm outras opções sim!

Se uma conversa bacana e civilizada não funciona, está na hora de partir para a ação. Não, não estou falando de fazer piquete no colégio, porque isso só vai levar a um embate mais complexo ainda. Lembrem-se: o ponto principal é resolver o problema que vocês têm. Para isso, vocês vão ter que abrir esse diálogo com os diretores de alguma maneira e, normalmente, atos explicitamente contra a organização da escola tendem a fechar muito mais do que abrir o diálogo que vocês têm.

O lance é ter uma estratégia. Vocês querem chamar atenção ao problema que estão tendo, então qual é a melhor forma de fazer isso? Se é uma questão de vestuário, por exemplo, todas as garotas podem combinar um dia de ir com o short ou com uma blusa com um pouco mais de decote para a escola. Se é uma questão de espaço para mochilas, vocês podem colocar suas mochilas num lugar que atrapalhe as pessoas para que vejam que falta um mochilódromo ou mesmo armários para os alunos colocarem seus materiais. Se é uma questão de piadas machistas ou racistas, vocês podem criar panfletos informando sobre o assunto ou mesmo reagir a essas piadas dizendo “isso é racismo” ou “isso é machismo”. Se é uma questão de pessoas com cabelo crespo não poderem sentar na frente, vocês podem se negar a mudar de lugar. Existem milhões de formas de mostrar insatisfação quanto as regras do colégio, o importante é vocês escolherem uma que represente bem o assunto que querem tratar.

Nesse ponto, outras duas coisas são importantes: a primeira é deixar bem claro qual é o ponto a ser resolvido. Ter foco é essencial. Consigam primeiro uma conquista para depois partir para outra. Se vocês pedirem milhões de coisas ao mesmo tempo, a escola não vai levar vocês a sério. Mas se vocês derem um passo de cada vez, a escola vai ver que seus pedidos têm motivos justos e vão se dispor a resolver seus problemas cada vez mais.

A segunda coisa importantíssima, que tem a ver com a primeira, é que vocês deixem claro o motivo do movimento de vocês. Para deixar tudo claro, uma boa ideia é escrever uma carta para a coordenação explicando os motivos que levaram vocês a tal movimento e o que vocês querem com ele. Pensem em questões práticas: a permissão de garotas usarem determinada roupa, a demissão de um professor que oprime estudantes, o fim do pedido de mudança de lugar por causa do cabelo dos alunos. Contem o que os levou a chegar a esse ponto, que episódios como esses não serão mais tolerados. Expliquem tudo bonitinho e de forma didática, senão a escola pode acabar entendendo mal o ponto de vocês e fechando as portas para discussões necessárias porque não entenderam os próprios alunos.

Dica n°7: não foi o suficiente? Façam um escândalo.

É claro que a ideia é que, com tudo isso, o problema já tenha sido resolvido. Mas se mesmo assim a coordenação refutar os pedidos dos alunos, vocês podem sempre ir além. Contem o caso nas redes sociais, falem com a imprensa, contatem revistas (online ou físicas), façam as pessoas ficarem sabendo. Se só os alunos não são pressão suficiente para a coordenação, com todo o país sabendo do(s) caso(s) de opressão que acontecem dentro do colégio, o jogo vai virar. Não tem ninguém que não ceda a isso. Mas, lembrem-se, esse é o último caso, se a escola se mostrar de fato boçal e ignorante quanto aos problemas vividos por seus estudantes. Enquanto ainda houver opções de diálogo lá dentro, tentem isso primeiro. Mas se não, não sejam tímidas! Botem a boca no trombone, espalhem pelo mundo! E não esqueçam: nós estamos sempre com vocês.

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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