29 de junho de 2016 | Ano 3, Edição #27 | Texto: | Ilustração: Clara Browne
As relações inter-raciais e os cuidados que precisamos ter para vivê-las

(Gleice, miga, obrigada pelo empurrão para o texto sair s2)

Escrevo este texto da perspectiva de uma mulher negra filha de uma relação inter-racial – com a mãe negra e o pai branco – e de alguém que se relacionou afetivamente tanto com pessoas brancas quanto com pessoas negras. Para tanto, em alguns momentos me dirigirei às pessoas brancas e em outros momentos às pessoas negras.

De modo curioso, passei muitos anos da minha vida para me reconhecer enquanto negra. A confusão sobre o tema não vinha apenas do fato de meu pai ser branco, mas do quanto esse assunto era colocado em silêncio, não dito ou muitas vezes deixado de lado. Entretanto, cresci ouvindo histórias que tinham por trás delas questões raciais e aos poucos pude me colocar no mundo entendendo que lugar racial eu ocupava.

O processo de reconhecimento veio devido às muitas ocasiões de racismo que fui passando, sem saber necessariamente que aquilo tudo tinha a ver com a minha origem racial. E ao me reconhecer enquanto negra, pude repensar as minhas relações com pessoas brancas e pude perceber o quanto passei por objetificações, por racismo, por uma demanda de que eu cuidasse e estivesse sempre disposta a ajudar, quando nem sempre havia uma reciprocidade nos cuidados.

Aos poucos fui notando então que o amor não fugia da lógica que opera desigualdades e hierarquias em nossa sociedade. Não é o amor algo mágico, uma verdade inquestionável. Nas relações amorosas, as assimetrias e desigualdades que vemos na sociedade também podem acontecer. Desse modo, percebi que quando me relacionava com pessoas brancas algumas dessas questões sempre voltavam à tona.

Decidi então escrever sobre esse tema que é um bocado difícil, mas que acredito que pode ajudar a colocar alguns pensamentos no lugar certo. Afinal, quais seriam as dificuldades de nos relacionarmos com alguém que seja visto racialmente de forma diferente da nossa? Ou por que quando somos negras/os e nos relacionamos com pessoas brancas há, geralmente, tantas questões que ficam pairando no ar?

Trago então alguns pontos que acredito serem importantes para o debate:

1) Ainda que saibamos que biologicamente a raça não existe, não significa que o racismo não estruture a nossa sociedade e as nossas relações. Desse modo, a branquitude vira uma espécie de norma. Ser competente, bonito, desejável, importante é ser branco. Por mais que uma pessoa branca possa passar por dificuldades na vida, ainda estará dentro do padrão do que se espera de ser humano. Não por acaso a maior parte dos estudos feitos sobre questões raciais é feita a partir da imagem do negro, quase nunca partindo do que é ser branco nessa sociedade. Porque é como se ser branco fosse neutro e o que precisasse ser estudado fosse o que significa a negritude. Diante disso, para conseguir entender o que uma pessoa negra te diz sobre as próprias vivências é preciso esforço. E esforçar-se muitas vezes não significa apenas ler sobre o assunto, significa também ter a humildade de ouvir, voltar atrás do que foi dito e questionar-se sobre a forma que foi dito;

2) A nossa sociedade carrega em sua história séculos tratando pessoas negras como menos humanas. Tal traço fez também com que houvesse alguns estereótipos ligados à nossa imagem. E a verdade é que tanto os homens negros quanto as mulheres negras tiveram suas imagens construídas como seres hipersexualizados, atribuindo a noção de que ambos teriam apetites sexuais acima da média. Tal raciocínio fez com que homens negros fossem vistos como extremamente viris e “bem-dotados” e as mulheres negras como “mulatas fogosas”. Há então uma grande objetificação de nossos corpos, o que acaba fazendo que a nossa autoestima vá sendo bombardeada, pois a curiosidade para saber como é transar com uma pessoa negra não significa que essas pessoas têm algum interesse real em nós, que ultrapasse essa objetificação ou deixe de passar por esse imaginário, de modo que nós negras/os podemos desenvolver bastante insegurança para lidar com relacionamentos amorosos-afetivos;

3) As questões raciais poucas vezes vêm desacompanhadas de questões de classe. Além do estereótipo sobre a sexualidade, há também um estereótipo ligado às posições que devemos ocupar na sociedade. Logo, andar de mãos dadas na rua com alguém que seja diferente de nós pode fazer com que passemos por olhares intimidadores. Esses olhares atingem as duas pessoas, mas não do mesmo modo para as duas. As pessoas negras não são olhadas assim apenas quando estão ao lado de uma pessoa branca. São olhadas assim quando estudam em uma boa universidade; quando entram em uma loja e os seguranças as seguem, pressupondo algum comportamento desviante; quando estão em um evento acadêmico e farão uma fala; quando se posicionam politicamente e são acusadas de serem agressivas demais e por aí vai. Tudo isso nos faz perceber que ser negra/o pressupõe em nossa sociedade que ocuparemos posições subordinadas e que é melhor ficarmos invisíveis. Isto é, raça se alia à classe social, sendo muito difícil pensar essas duas questões de forma separada;

4) Além do estereótipo sexual e do estereótipo de classe, Lélia Gonzalez, antropóloga brasileira negra, também atentava para um terceiro estereótipo que é o da mãe preta cuidadora. Lélia se referia à ideia de que as mulheres negras são “naturalmente” cuidadoras. Cuidam de sua família, de seus homens, de filhos e dos filhos de suas patroas, da própria patroa e por aí vai. Uma lista infinita de quem devemos cuidar. Infelizmente, costumamos ser educadas dentro dessa lógica, que aqui não se alia apenas à questão de classe social e de raça, mas também a uma educação pensada a partir do gênero. Desse modo, em muitos relacionamentos esse estereótipo se mantém, havendo uma demanda desumana sobre como devemos cuidar e deixar as pessoas bem, quase nunca pensando em nós mesmas, o que me parece também ser alimentado por essa lógica de nos pensar considerando e sendo perpassadas por tais estereótipos.

Esses são apenas quatro pontos que julguei relevantes para pensar relacionamentos e questões raciais. Quatro de um universo de pontos que podemos levantar. Longe de pensar as pessoas negras apenas como vítimas dessa sociedade, pois tenho ciência de toda a resistência que travamos historicamente para sair do lugar que acreditavam ser nosso, bem como sou consciente de como fomos nos construindo tentando fugir desses estereótipos, escrever esse texto é mais um alerta de que tipo de armadilhas podemos acabar caindo em relacionamentos inter-raciais que tentem ignorar essas diferenças.

Ao retomar um pouco a forma que somos atravessados pelo racismo e o quanto a raça vai pensado as pessoas, todas elas, sejam brancas ou negras, não sendo as pessoas brancas nenhum tipo de ser humano neutro, o faço para que possamos pensar as relações de maneira mais saudável. E me parece saudável atentar para a forma que a sociedade vai nos moldando para continuarmos seguindo esse padrão, para continuarmos aceitando nossas marcas sociais de forma a operacionalizar as assimetrias e os estigmas que podemos sofrer. Mas não precisa ser assim.

Ao sabermos que existem esses estereótipos, por exemplo, ou que o amor também passa por todas essas questões de classe, raça, sexualidade e gênero, nós podemos estar mais atentos/as tanto para não repetir esses comportamentos, mas também e, principalmente, para não passar por esse tipo de tratamento.

Acredito que qualquer relacionamento requer empatia, reciprocidade e cuidado, mas talvez para nós, negros/as, que carregamos tantas demandas e que temos a autoestima tão bombardeada, perceber quando nos falta essas coisas seja às vezes um pouco mais difícil. A verdade é que quanto mais estivermos certos/as do que nos ocorreu do passado e do quanto não queremos propagar tais acontecimentos, nos livrando das amarras e de pessoas que podem nos submeter a esses estereótipos em relações afetivas, mais ganharemos em saber como nos colocar em nossas relações e o que exigir dessas relações.

Nesse sentido, faço um apelo: não se deixem cair numa lógica de cuidado extremo dos outros, cuidem-se. Não se deixem bombardear pelos padrões brancos, amem-se. Não se deixem cobrar pelo tipo de relação que você tem, você é a única que pode saber em que relacionamento se sente melhor. Não se deixem ser tratadas como fortes demais o tempo todo, como se pudesse aguentar tudo, não precisa ser assim. A gente também pode cair às vezes, pode chorar às vezes, pode pedir colo e querer ser mimada também.

Dito tudo isso, concluo que nenhuma relação é em si impossível, desde que tenhamos em mente que cada um de nós passa por experiências diversas, o que vai nos fazendo ser “x” e não “y”, isto é, cada um de nós é muito diferente, porque vivenciou os acontecimentos de modo distinto. A diferença não precisa ser um impeditivo para nos relacionarmos uns com os outros. O que deveria tornar um relacionamento impossível é manter-se numa relação que nos ignore como seres humanos. Seja nos transformando nesses estereótipos citados acima, seja nos transformando em super-heróis/heroínas que não têm o direito de estar mal às vezes. Então independente de estar em um relacionamento intra ou inter-racial, certifique-se de que há reciprocidade e empatia. Não se deixe enganar.

Fernanda Kalianny
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Se liga
  • Coordenadora de Poéticas

Fernanda Kalianny Martins Sousa , 26 anos, fez Ciências Sociais na USP e cursa doutoraddo em Ciências Sociais na Unicamp. Adora ler sobre aquilo que informa e complementa sua formação enquanto ser humano, então sua área de estudo tem tudo a ver com aquilo que sente ou é (estuda raça, gênero e sexualidade). Escreve poemas e acredita que sempre será "amor da cabeça aos pés". O coração, intensidade e impulsividade controlam quase todas as ações. Ama apaixonadamente e vive as paixões da forma mais cheia de amor possível. Antes que sufoque com o que fica para dentro, coloca tudo no papel.

  • Filipe Dias

    Fernanda, obrigado por suas palavras. Elas contribuíram para minha formação e para o entendimento do mundo. Abraços.

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