11 de janeiro de 2016 | Cinema & TV, Colunas, Se Liga | Texto: | Ilustração:
As Sufragistas

 

 

Na Capitolina, nós já falamos em várias instâncias sobre o apagamento de mulheres na história – suas lutas, conquistas e criações frequentemente passando em branco, sendo atribuídas a homens ou condensadas em apenas algumas linhas, num capítulo perdido do seu livro escolar. As Sufragistas (Suffragette, 2015) é um filme que busca reparar parcialmente o estrago, trazendo à tela a história da luta das mulheres pelo direito de voto na Inglaterra.

As Sufragistas retrata os acontecimentos de 1912 e 1913, anos de destaque devido tanto à mudança no caráter do movimento – depois de optarem por marchas pacíficas durante 40 anos e não obterem resposta, o grupo passou a adotar táticas de desobediência civil – como à intensidade da repressão policial enfrentada pelas militantes. Sua resposta às prisões arbitrárias e à recusa de reconhecê-las como presas políticas era fazer greves de fome, que eram normalmente “combatidas” por meio de alimentação à força.

O movimento sufragista inglês era centralizado na figura de Emmeline Pankhurst, chefe da União Política e Social das Mulheres (Women’s Social and Political Union, WSPU), uma mulher de classe média alta, assim como grande parte das suas participantes. Entretanto, o filme propositalmente tem a trabalhadora fabril Maud Watts (Carey Mulligan) como protagonista e acompanha o seu lento envolvimento com a causa, dando destaque a todos os sacrifícios “extras” que ela teve que fazer em virtude da sua situação socioeconômica. Apesar de Maud ser fictícia, a roteirista Abi Morgan justificou sua importância da seguinte maneira:

Tantas dessas mulheres da classe trabalhadora são as heroínas anônimas [do movimento] – não havia uma única mulher a qual eu pudesse atrelar esse título – o filme foi sobre capturar o coletivo, o coro dessas mulheres, que provavelmente nunca nem perceberam o quão significativas eram no momento de sua morte.

As Sufragistas é especialmente astuto em sobrepor as vivências de mulheres em diferentes posições sociais – além de Maud, temos Edith Ellyn (Helena Bonham-Carter), uma farmacêutica com diploma universitário, e Alice Houghton (Romola Garai), esposa de um político – e uni-las por uma única constante: a subjugação social inerente a ser mulher, que, apesar de ficar menos pesada de acordo com seus privilégios, está sempre lá, pronta para sabotá-las e exigir mais delas do que dos homens que fazem parte das suas vidas.

Houve críticas ao filme devido a sua falta de representatividade racial – nele, não existe uma sufragista que não seja branca. A questão se torna particularmente relevante quando levamos em conta que, nos Estados Unidos, o movimento sufragista surgiu a partir do abolicionista, e acabou sendo apropriado por mulheres brancas. As críticas foram rebatidas pela diretora do filme sob o argumento da história ser um tanto diferente no Reino Unido, onde a diversidade existente hoje é fruto principalmente de imigrações que ocorreram após as duas guerras mundiais. Ela alega só ter encontrado duas mulheres negras na documentação fotográfica das Sufragistas, ambas aristocratas.

A criação de um roteiro para o filme foi especialmente difícil devido à escassez de material sobre o assunto: poucos jornais cobriam o movimento devido à censura (as próprias táticas violentas utilizadas pela União Política e Social das Mulheres tinham como objetivo atrair atenção midiática à causa), e grande parte dos relatos existentes está intoxicada pela opinião pública negativa que cercava a luta Sufragista. A história foi construída principalmente por meio de documentos pessoais encontrados no arquivo do Museu de Londres – cartas, diários não publicados, autobiografias e diários de prisão. A maior impressão deixada por esses documentos na equipe do filme foi a contemporaneidade das mensagens: desigualdade salarial, abusos no ambiente de trabalho, direitos de custódia…

Seu aspecto mais surpreendente talvez seja, no entanto, sua recusa em esconder ou pedir perdão pelos métodos violentos utilizados pelas Sufragistas. Num mundo que constantemente desvaloriza um movimento a partir do momento em que ele utiliza o mínimo de violência, é inovador ver essa tática tratada com compreensão, como uma questão de ação e reação – afinal, se 40 anos de negociações pacíficas e repressão policial não bastaram, o que bastaria?

Como declarou a diretora, Sarah Gavron, quando questionada sobre o que a motivou a fazer esse filme:

É uma história que ressoa com o que está acontecendo no mundo hoje, em tantos países, não apenas em termos de desigualdade de gênero, mas desigualdade em geral e o ativismo das pessoas que estão desafiando repressão. É um lembrete importante, oportuno e necessário do quão longe nós já chegamos, mas também da longa distância que ainda precisamos percorrer.

Bárbara Reis
  • Colaboradora de Cinema & TV

Bárbara Reis tem 18 anos, é paulista e estuda Jornalismo na ECA. Acha que a internet é a melhor coisa que já aconteceu, é fascinada por novas linguagens e tem o péssimo hábito de acumular livros para ler e séries para assistir. O seu pior pesadelo envolveria insetos, agulhas, generalizações, matemática e temperaturas acima de 27ºC.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    ESSE FILME É MARAVILHOSO! Saí arrepiada com vontade de mudar o mundo, sensacional, inspirador.

  • Annie

    Esse filme é muito bom, inspira a gente a querer mudar ainda mais o que vemos de errado mesmo nos dias atuais.

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