26 de abril de 2014 | Ano 1, Artes, Edição #1, Literatura | Texto: | Ilustração:
“Tudo que não é funcional é simplesmente decorativo”: Asterios Polyp
Asterios Polyp.

Asterios Polyp.

Texto por Mariana Paraizo.

Os aficcionados por quadrinhos provavelmente já ouviram falar, mas, se você é um desses e não conhece Asterios Polyp, não tem problema. As graphic novels são o auge divino na terra para quem curte literatura e desenho. Como o nome já denuncia, os romances gráficos são coisa recente, dos tempos de Eisner pra cá (que nomeia o prêmio máximo do gênero), e desde então uma legião de quadrinistas com aspectos em comum surgiu: muitos quadrinhos autobiográficos (Cicatrizes, Retalhos, Fun Home, entre outros), com um enfoque emocional no crescimento como indivíduos, esboços de relacionamentos familiares e amorosos, vários casos dignos de serem estudados por Freud – além do típico P&B (preto e branco), às vezes premiados com uma terceira cor para dar o tom dramático. Belos calhamaços de histórias sensíveis e sinceras desenhados à mão.

Em 2010, Cachalote, graphic novel brasileira do Daniel Galera com o Rafael Coutinho, foi lançada pela Quadrinhos na Cia (da Companhia das Letras). Em 2011, a mesma editora lançou Asterios Polyp, que chegou às mãos de um monte de brasileiros que já estavam sedentos por mais histórias do gênero. Mas, se o gênero era o mesmo, havia algumas diferenças notáveis entre Asterios Polyp e esta geração que estava mergulhando de primeira na arte sequencial. A primeira é que Asterios Polyp não é uma estreia para o seu autor no mundo dos quadrinhos, apesar da produção prévia de David Mazzucchelli pertencer a uma outra “tribo” dos quadrinhos. Nos anos 80, David foi um dos responsáveis pela revolução das histórias de super-heróis, tendo como títulos mais aclamados seus trabalhos com o Demolidor e uma série Para muitos, este livro é quase uma bíblia das possibilidades gráficas dos quadrinhos. Tudo que se encontra nele não está onde está por acaso. As cores, as fontes, os espaços, a diagramação, a escolha de onde cada requadro (a moldura que separa a imagem que vem antes e depois em um quadrinho) entra, os espaços entre eles e o excesso de informação pontual de algumas páginas: não se engane, Mazzucchelli sabia o que estava fazendo. Toda a sua experiência foi catalisada por anos, aliada a, no meu ver, uma criatividade genial, para produzir uma história que pode ser lida e relida e não esgotada – e não é isso que é a essência da arte? Asterios Polyp é atemporal, trata de temas filosóficos: a relação entre o homem e o seu amor, o seu passado, seus medos, enfim, sua visão de mundo. Fica claro que as escolhas gráficas tomadas por David são pautadas pela abordagem dicotômica (duas ideias em oposição) que Asterios tem da vida: homem e mulher, azul e rosa, linhas bem definidas e sempre com uma direção precisa, sem hesitação, movimentos dinâmicos e momentos de contraste decisivo. A mistura entre os sentimentos do protagonista e cada cena é bem fluida, apesar da densidade dos temas ali colocados, às vezes quase como que banalizados. A sombra é explorada em cores chapadas. À medida que a história progride e o nosso querido professor de arquitetura vai passando por sua “redenção”, o degradê vai invadindo nossos olhos, o surgimento do amarelo é o sintoma final de que ele está transformado, que nosso herói está pronto. Batman- Ano 1. Enquanto os super poderes levavam muitos a sonhar com uma vida de mais poder, de aventuras inimagináveis para um cidadão comum, esta graphic novel te faz imaginar uma vida que poderia pertencer a qualquer um, até mesmo um vizinho. Sem cuecas por cima da calça e capas esvoaçantes – nada contra, apenas diferenças de gosto.

A segunda, e mais importante, é a forma completamente especial com que David arranjou de contar a história de Asterios, um professor catedrático de meia idade que se vê com o ego completamente destruído depois de uma série de acontecimentos: o fim de seu casamento, uma crise pessoal e, por fim, um incêndio que acaba com o seu belo apartamento em Manhattan. Não tenha medo de spoiler, esta será apenas uma tentativa de traduzir como o planejamento visual meticuloso de Mazzucchelli foi bem sucedido em provocar, de forma sutil, no leitor uma experiência de êxtase intelectual e estético.

 

Enfim, Asterios Polyp é uma história completa, narrada de forma surpreendente, cativante, prolífera, inspiradora, que vale muito a pena ser lida. Aposte que, mesmo o seu tio, aquele cara que nem liga pra quadrinhos ou qualquer coisa que seja minimamente artística, vai “comer” a história em um dia. Convençam a biblioteca mais próxima de adquirir um exemplar, ou peçam aos seus pais ou responsáveis um de Natal, não sei – se você tem o mínimo de interesse em desenho e narrativa, aproveite a carona e vá se envolver com a obra deste mestre super conceituado.

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Mariana Paraizo é colaboradora de Artes e ilustradora. Mazô, vim de um planeta onde copos não precisam ser lavados e roubar balas no supermercado não é errado. Estou constantemente viajando em mim mesma e nos meus desenhos. Gosto de cantar, mas o que eu decidi gostar mais foi de quadrinhos. Por isso, a maior parte do meu dinheiro em 2013 foi vertido em livros.
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