31 de outubro de 2015 | Literatura | Texto: | Ilustração: Beatriz H. M. Leite
Audre Lorde e a possibilidade de um novo mundo através da poesia

Há algumas semanas, três amigas e eu decidimos fazer um pequeno grupo de estudos de literatura e feminismo. Nos reunimos na casa de uma delas, com bolo de fubá e chá mate, e lemos juntas o artigo “A poesia não é um luxo”, da Audre Lorde, mulher, negra, afroamericana, lésbica e poeta. Não consigo parar de pensar nesse assunto desde então.

Audre Lorde parte da ideia de que a poesia é um instrumento de luta das mulheres e, mais do que isso: de reflexão, registro e compartilhamento de experiências de vida das mulheres. Isso é importante demais. Nós, mulheres, sempre somos desencorajadas a falar. Quando nos colocamos para dar uma opinião, sempre aparece algum homem para dizer que “isso não é assunto de mulher”. Quando somos jovens, a situação piora: “isso não é assunto de mulher, muito menos de jovens como você”. Neste contexto, escrever poesia não é só firula, é também uma forma de resistência e de amplificar nossas vozes. É como olhar para nós mesmas e, a partir daí, vermos o mundo, interagirmos com ele e, finalmente, transformá-lo.

É claro que em um mundo desigual, que lê pouco e escreve pouco – porque, antes disso, sente fome –, é difícil retirar a poesia e a literatura da esfera do luxo. Quando pensamos na vida ideal, com bem estar, humanidade e igualdade, tem muitas coisas que são fundamentais: saúde, alimentação, educação, o direito de viver sem violências e abusos, e por aí vai. Mas não deveria ser também o acesso à poesia, à literatura, à cultura, também pontos fundamentais para o bem viver?

Nós, que somos mulheres, e dentre nós muitas que somos negras, lésbicas, bissexuais, transexuais, temos muito pelo que lutar, mas também podemos ter muita força e os olhos muito abertos – porque não precisamos nos contentar com pouco. Nesse sentido, dizer que “a poesia não é um luxo” não é dizer que, nos tempos de ontem e hoje, a poesia seja acessível – por mais que nos últimos tempos tenhamos cada vez mais iniciativas populares de produção poética, saraus de bairro, batalhas de rima e tantas coisas incríveis e com tanto poder. “A poesia não é um luxo” porque acreditamos em um mundo onde ela deixe de ser considerada assim e pertença a todas e todos que nela se encontrem.

A literatura já tem muitas linhas e versos que partem da perspectiva dos homens, e dentre esses, os brancos. Quando nós, mulheres, escrevemos, partimos da nossa história, mesmo que não falemos diretamente de nossas trajetórias. Quando nós, mulheres, escrevemos, partimos de nossa força, de nossas resistências, mas mais ainda de nossas alternativas. Quando escrevemos, mostramos que queremos muito, muito mais, e que nossas vidas importam, bem como nosso jeito de ver o mundo. As pessoas falam muito sobre o “olhar feminino”, como se houvesse alguma “essência” em ser mulher… acho que, mais do que isso, o que torna nossas produções culturais tão singulares é o nosso olhar feminista, mesmo, que compreende nossa condição.  Deixo por fim o parágrafo que, para mim, é o mais lindo de todos desse artigo já tão lindo. Que fique de inspiração para nós, meninas que achamos na poesia um jeito de nos expressarmos. Vamos parar de ter vergonha dos versos que escrevemos?

“Se desdenhamos daquilo que necessitamos para sonhar, para mover profundamente nosso espírito, através da promessa e também por ela; se consideramos isto um luxo, estamos renunciando à essência, aos fundamentos do nosso poder, de nossa condição de mulheres: estamos renunciando ao futuro do nosso mundo.”

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

  • Susana Batista

    Curti a ideia do grupo de estudos! Tem como ir falando sobre o que vocês andam lendo lá?

    • Malu

      Sim! Seria uma boa. Me interessei muito, o artigo é lindo demais.

      • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

        Fiquei com vontade de montar um! Falem mais dele. Além disso, só amor por esse artigo <3

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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