8 de janeiro de 2016 | Ano 2, Edição #22 | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Auto-organização: Criação de espaços políticos seguros e coletivos

Não importa a idade ou momento da vida, na maioria das vezes temos alguma ou algumas pessoas ao nosso redor com quem conversamos sobre desde o filme da sexta-feira à noite até qual o sentido da existência humana. Normalmente, essas são pessoas que vivem uma realidade próxima à nossa, com quem dividimos lugares ou momentos, pessoas com as quais nos sentimos bem e seguras. De uma forma geral, é bem mais fácil quando temos alguém que realmente entende sobre o que estamos falando. Quer dizer, por mais que eu possa abrir o meu coração para o meu melhor amigo, tem coisa que ele não vai entender simplesmente porque viver aquilo não é algo que possa acontecer com ele sendo homem. Mas, se eu falar com a minha melhor amiga, talvez eu nem precise terminar a frase. Sentir a empatia e a cumplicidade de alguém que vive o mesmo que você faz com que a gente se sinta segura para debater questões que, muitas vezes, acabam sendo remoídas só nos pensamentos, seja por falta de força ou de oportunidade de compartilhar.

Mas nada é por acaso. Se nós, meninas e mulheres, ao sairmos na rua, temos sempre aquele medo de ouvir um comentário invasivo; ou ficamos constrangidas ao levar aquela olhada do professor na sala de aula; ou se você tem medo de demonstrar afeto por quem você gosta em locais públicos; ou se a sua família não entende as suas relações; ou se você é a única com a sua cor de pele ou o seu cabelo na sala de aula é porque sentimos no nosso dia a dia as consequências de uma estrutura social. Ou seja, tem coisa que acontece com a gente que parece – e é – muito íntima, mas, na verdade, não é um problema individual. O que é pessoal é também uma questão coletiva e política.

Em lugares como a escola ou a faculdade – mas podemos falar também de qualquer movimento social, da organização de bairro ou qualquer outro espaço que faça sentido – vivemos diversas situações de opressão diariamente. Se esses são espaços coletivos e se as opressões atingem diversas pessoas por uma razão anterior, nada mais lógico do que essas pessoas se unirem e construírem, juntas, um lugar seguro dentro deste outro maior e tão opressor e, além disso, combaterem esse tipo de atitude. Isso quer dizer, criar um espaço auto-organizado.

Como assim? Vamos explicar! A auto-organização nada mais é do que criar um espaço coletivo de pessoas que vivem uma mesma opressão na sociedade. Eu, por exemplo, já participei de alguns espaços auto-organizados de mulheres. Na minha universidade também existem grupos auto-organizados de pessoas negras e pessoas LGBT, e por aí vai. Essa é uma forma de, antes de mais nada, organizar essas pessoas, estabelecer pautas, entender quais são as questões que vivemos e como podemos combatê-las, e também de propiciar um espaço seguro, em que possamos dividir o que vivemos sem medo. Um grupo auto-organizado pode ser constante, ter encontros periódicos ou não, presenciais ou não: a dinâmica acontece de acordo com o que é melhor pra quem o constrói. O importante é que este seja um espaço de e para essas pessoas. Auto-organização é criar espaços seguros em meio a tanto perigo.

Há quem diga que seria melhor debater as situações de opressões abertamente, para que todas e todos possam participar. Eu digo que uma coisa não exclui a outra. É essencial que as pessoas desse grupo oprimido tenham um espaço seu para entender melhor do que sofrem e descobrir como agir – coletiva e individualmente. A força que um espaço auto-organizado pode lhe dar é necessária também para se estar e se colocar em espaços mais amplos. Dividir experiências, se identificar com o outro, se sentir representada, se sentir parte de algo nos faz ter mais confiança, segurança e força para enfrentar o que pode vir pela frente. Quando a gente sente que aquela dor é só nossa, nos sentimos desamparadas, mas quando vemos que aquela dor é compartilhada, conseguimos levantar mais facilmente e lutar. Afinal de contas, e aqui se encaixa o clichê, a luta é todo dia (e se ela for coletiva ela é mais forte).

Isabela Peccini
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão

O nome é Isabela, mas os apelidos são variados, sintam-se à vontade. Quase arquiteta e urbanista pela UFRJ. Mas não se engane, não vou fazer a sua casa ou a decoração da sala. Objeto de estudo: cidade, sempre pelos olhos da mulher. A minha cidade? Rio de Janeiro, uma relação de amor e ódio. Militante no movimento estudantil desde que me lembro e feminista porque não dá pra não ser, o feminismo te liberta!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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