6 de março de 2018 | Ano 4, Edição #43 | Texto: | Ilustração: Guillermina Roburu
Autoaceitação de verdade: é possível?

Falar sobre autoestima e autoaceitação está super em alta nos meios de comunicação e nas redes sociais. Um número enorme de blogs, sites e canais de vídeo vem falando do tema de forma aberta e alcançado cada vez mais meninas. Mas por que às vezes é tão difícil incorporarmos essa mensagem e nos aceitarmos de fato com um olhar mais amoroso e menos rigoroso com nós mesmas?

A tarefa de aprender a se amar verdadeiramente não é simples. Desde muito pequenas, incorporamos conceitos ideais de beleza e comportamento, e é muito difícil se desvencilhar dessas idealizações tão enraizadas em nosso ser. Por esse motivo, é importante enxergar a autoaceitação como um processo, muitas vezes lento e trabalhoso, que exige perseverança e bastante paciência. Mesmo porque dificilmente alguém dorme cheio de insatisfações consigo mesmo e acorda no dia seguinte se sentindo pleno e feliz com todos seus atributos. Não é assim que acontece na maioria das vezes!

Vamos a um exemplo prático? Desde bem pequena, eu nunca havia aceitado bem meu cabelo cacheado e volumoso que sempre me rendeu apelidos maldosos na escola. Ir com ele solto para locais públicos era um enorme pesadelo e a ideia de ter várias pessoas olhando para mim com olhar de reprovação me fazia estar sempre usando tranças, coques ou rabos de cavalo apertados. Todas essas experiências negativas, associadas ao fato de apenas ver belos cabelos lisos e brilhosos na televisão, me fizeram acreditar que o meu próprio cabelo não era bonito e que, para ser feliz, eu deveria muda-lo a qualquer custo (qualquer mesmo!).

E assim fiz: foram mais de oito anos alisando, puxando, secando e maltratando meu cabelo, para deixa-lo como eu achava que deveria ser. Mas a satisfação não durou para sempre. Ao longo do tempo, percebi os danos que todos os processos químicos haviam causado. O resultado foi uma queda exagerada e a perspectiva de ficar careca em pouco tempo.

Esse foi o pontapé inicial de uma grande revolução que se iniciou dentro de mim. Ora, por que eu não poderia gostar do meu cabelo natural? Percebi, a partir daquele instante, que aderir ao padrão estava me custando muito caro e que os estragos poderiam ser irreversíveis. Neste momento, iniciei um processo de autoaceitação e passei a me sentir pronta para amar meu cabelo da forma como viesse: mais ou menos cacheado, com mais ou menos frizz ou com muito ou pouco volume. Ainda estou nessa jornada de autoconhecimento e estou aproveitando muito todo o caminho. Redescobrir uma característica única que me dá uma identidade própria tem me feito muito feliz e realizada durante essa trajetória.

Este é apenas um exemplo, dentre tantas outras histórias que já escutamos de tantas outras meninas, sobre aprender a ter um olhar mais amoroso com nós mesmas. A minha experiência nem de longe foi simples ou fácil, pois foi cheia de altos e baixos, além da vontade de desistir. E, obviamente, a autoaceitação não se limita à esfera física ou capilar, mas engloba tudo aquilo que podemos não gostar em nós.

Talvez o passo inicial para começar a jornada de autoaceitação seja revisitar os motivos que nos fazem sentirmos inadequadas e, a partir disso, trabalhar esses motivos dentro de nós. Cada indivíduo possui muitas qualidades e defeitos e aprender a aceita-los de forma sincera e tranquila nos torna pessoas mais felizes e menos dependentes da aprovação alheia. Devemos também estar atentas aos padrões criados para nós, sempre mutáveis para que nunca consigamos alcançar a satisfação completa com nossos corpos ou traços de personalidade. Olhar para eles com um olhar mais crítico também é uma etapa importante no processo!

E por último, mas não menos importante, é essencial nos lembrarmos que aceitar não significa se conformar. Querer mudar é absolutamente normal e podemos sim desejar modificar aquilo que não nos faz felizes, independentemente de julgamentos externos. Por isso, se existe algo que não te agrada e que você quer mudar, está tudo bem também! O mais importante é que estejamos nos sentindo bem com nossas decisões e que elas sejam sempre honestas com nosso corpo e nossa mente.

Ana Carolina Souza
  • Colaboradora de Ciências e Tecnomania
  • Colaboradora de Saúde

Ana Carolina tem 25 anos e é médica formada pela UFRJ. Atualmente faz doutorado na mesma universidade na área de Cardiologia. Ama tudo (tudo mesmo!) relacionado à ciência e sonha em se dedicar e incentivar a pesquisa no país.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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