14 de junho de 2014 | Ano 1, Artes, Edição #3 | Texto: | Ilustração:
Autobiográfico
Ilustração: Laura Viana.

Ilustração: Laura Viana.

Um amigo certa vez falou que costuma reconhecer um artista picareta quando ele, ao definir a própria obra, diz que ela “aborda o tema da identidade”. Ou “da memória”. Diz esse amigo que basicamente qualquer coisa que você possa criar vai falar, direta ou indiretamente, sobre os dois itens, já que sua produção, mesmo quando escolhe algo completamente externo como tema, sempre carregará parte do que você é e do que você viveu. Depois de ouvir isso, também passei a ficar incomodada quando descrevem um trabalho como “autobiográfico” – começou a me soar uma definição um pouco preguiçosa.

Já outra amiga muito querida me levou até Nazareth Pacheco na época em que fazia seu TCC de Artes Visuais, que tinha a relação entre arte e catarse como tema, e a obra de Nazareth como forma de ilustrá-lo. Graças ao entusiasmo com que esta amiga falava, já tinha decidido gostar da artista antes mesmo de conhecer seu trabalho de verdade, mas achei que seria de bom tom pesquisá-lo. Já com uma paixão justificada, encontrei um dilema: parece quase impossível não ceder à tentação de classificá-lo como autobiográfico.

Nazareth é uma artista plástica que nasceu aqui em São Paulo no início da década de 1960 e trabalha quase que totalmente com obras tridimensionais. De sua biografia, gosto muito da parte em que, lá pelo fim da década de 1990, ela conhece Louise Bourgeois, aquela mulher das grandes aranhas (a que fica lá no MAM, no Ibirapuera, é uma delas), e vai para seu ateliê para alguns encontros. É o tipo de história que me acalenta um tantinho, porque acho muito bonita a ideia de duas mulheres artistas de tempos e países diferentes trocando figurinhas sobre suas esculturas.

O trecho em que ela toma chá com a incrível Louise, porém, ainda que maravilhoso, parece menos influente em seu trabalho que outra característica de sua história. Nazareth nasceu com uma doença congênita que afetou principalmente a formação de seu rosto, fazendo com que boa parte de suas duas primeiras décadas de vida tenha sido passada fazendo cirurgias e tratamentos corretivos.

Suas memórias já apareciam timidamente em seus primeiros trabalhos – em 1989, ela produz uma série de peças de borracha retorcida, comprida e cheia de pontas, que com sua aparência perfuradorajá aponta sutilmente a ideia do corpo maltratado. Mas é em sua primeira instalação de destaque, Objetos Aprisionados, de 1993, que a artista deixa clara a inspiração que os anos de “adequação” física trouxeram para sua obra: trata-se de uma série de caixas contendo radiografias, diagnósticos, bulas, resultados de exames, medicamentos e receitas coletados ao longo dos procedimentos. Entre os itens expostos, estão fotografias de Nazareth ainda bebê, antes e depois da cirurgia de reparação do lábio leporino, e outra, aos 15 anos, com um tapa-olho após um transplante de córnea.

Além disso, as caixas são separadas por seus conteúdos, que se dividem entre aqueles relacionados aos procedimentos médicos realizados para a reparação de problemas fisiológicos verdadeiramente debilitantes, e aqueles usados para fins estéticos, que buscam apenas tornar sua aparência mais tolerável dentro dos padrões sociais do que é ou não bonito.

Meus preferidos na obra de Nazareth, seus artigos de vestuário – o vestido de giletes, os colares que intercalam contas e agulhas – são peças tão bonitas e bem executadas que acabo pensando em como seria incrível vesti-los, e só depois me lembro que me machucariam a pele. E é esse o ponto que os torna tão interessantes: no vestido bonito que corta, encontro a imagem de todas aquelas coisas de que, pensando racionalmente, qualquer um com um mínimo instinto de sobrevivência se manteria afastado – seja um sapato que aperta, um relacionamento abusivo ou aquela cirurgia bizarra de aumento de pernas – mas que têm em si algo que atrai, mata qualquer análise coerente de prós e contras e deixa no lugar um pensamento de “quem sabe não é tão ruim assim, deve valer a pena”. Ou, como colocado pela própria Nazareth, um trabalho baseado no confronto entre sedução e repulsa.

Também acabo sempre lembrando de quando, lá pelos meus cinco anos, me ouvindo reclamar enquanto tentava desembaraçar meu cabelo, minha mãe soltou a frase que seguiria ecoando na minha cabeça toda vez que me forcei a fazer uma dieta maluca ou a aguentar uma roupa desconfortável: “Ficar bonita dói”. São palavras que, ao longo da vida, continuaram aparecendo por meio de um senso comum segundo o qual essa dor não é apenas considerada aceitável, mas desejável e digna de admiração, encarada como um sacrifício por um bem maior. É um ponto comum pra todas nós – seja em maior ou menor intensidade – para o qual Nazareth tem metáforas visuais perfeitas.

E a grande mágica de seu trabalho está no ato de partir de pequenas situações tão específicas e particulares de sua própria vivência e, sem abrir mão dos objetos que a marcaram, consegue transformá-los em obras de fácil identificação pra qualquer mulher que já tenha tido alguma experiência negativa em relação à própria aparência – ou seja, qualquer mulher. Então volto ao “autobiográfico” do título e do parágrafo inicial. Ao que Nazareth Pacheco produz cabe sim o uso do termo. Mas vai além: não só conta a própria história, mas a retorce, esmaga, digere, dá nova forma e cria outra coisa que expulsa tudo aquilo que foi vivido. Catarse, como bem relacionou minha querida amiga.

Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

  • Giovanna Pelin

    fico feliz toda vez que leio <3

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