6 de agosto de 2016 | Artes, Colunas, Literatura | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
Autopublicação, por que não?

Publicar no Brasil é um desejo de muitas pessoas. Toda vez que conto que trabalho no mercado editorial, muitos olhinhos brilham e me ajudam a colecionar histórias maravilhosas e projetos que quero muito ver prontos por aí. Porém, como você já deve saber também, publicar no Brasil é bastante difícil, ainda mais para mulheres negras.

Carolina Maria de Jesus, depois da recomendação nada simpática de seu editor em Casa de Alvenaria (“Agora você está na sala de visita e continua a contribuir com este novo livro, com o qual você pode dar por encerrada a sua missão”), se tornou editora de seu próprio texto mesma em Provérbios, livro de 1965, que considero um dos mais importantes da escritora. Nele estão muitas bases da obra da escritora e sua reafirmação como uma mulher que escolheu escrever literatura, se derramar sobre ela e fazer desse ato consciente seu sentido.

Você sabia que provérbios para muitos povos da África são base da comunicação? E que isso acontece especialmente na cultura cabinda da qual nossa querida poetiza descendia? Então, ser editor passa por sensibilidade da cultura do outro, compreensão do mundo de maneira ampla e com o maior número de visões possíveis. Carolina escolheu editar esse livro porque sabia que ele era necessário.

Animou? Vou te passar umas dicas basiquinhas de como editar seu livro (quase) sozinha e dar a ele um lugar ao sol. São simples, mas só sucesso!

O original não é livro

Terminou de escrever? Ótimo! Começou o processo de edição. O material que você acabou de produzir por mais maravilhoso que esteja / pareça não é um livro pronto. Ele precisa ser registrado, relido, copidescado (sabe o que é copidesque? Não? É a preparação do original, às vezes com mudanças estruturais do texto), revisado (quanto mais vezes vezes, melhor), diagramado, revisado, corrigido… aí sim: vira livro. O livro passa por muitas fases de produção e se você não conta com ajuda de profissionais a atenção e cuidado são fundamentais! Um texto bem trabalhado e um projeto gráfico bacana são grandes atrativos para os leitores.

Todas as ferramentas de consulta são suas amigas!

O corretor ortográfico, o controle de alterações (você pode visualizar o que alterou e voltar atrás se precisar) e os dicionários são seus amigos. Eu amo os de sinônimos (a gente ganha um tantão de vocabulário usando!) e não dispenso um tradicional. Escolhe os seus e bora mexer nesse texto sem dó.

Chama as migas!

Quanto mais gente puder ler seu texto, melhor! Mas, cuidado! Tente ter em mente o que é inegociável para você em sua ideia inicial, pense no que quer transmitir e…

Prepare-se para as críticas!

Um aspecto importante é a fluência de seu texto. Eu sei, a gente escreve, se apega…nem sempre as críticas de quem está nos ajudando são tão legais quanto esperávamos. Se uma pessoa achou um trecho do seu livro estranho/problemático/redundante e você discorda, uma boa pedida é procurar alguém que solucione o impasse. Projetar um texto nos proporciona conhecimento prévio dele, mas é importante saber se escrevemos o que achamos que escrevemos. Às vezes a ideia que queremos passar não está nítida e podemos frustrar os leitores.

Já pensou no seu público?

Definir seu público é muito importante porque te ajuda a economizar em dois aspectos muito importantes para o sucesso de um título: distribuição e marketing. Esses dois elementos, especialmente em um país tão grande e diverso quanto o Brasil, também são alguns dos maiores problemas para quem se autopublica devido ao custo elevado que podem significar.

Talvez aquele seu livro sobre “Como plantar mudas de capim-limão” seja mais bem recebido num armazém que venda ervas ou uma associação agrícola local. Ou a escolha mais interessante seja oferecê-lo na internet em grupos de amantes de chás ou jardinagem. Pense em quem lerá o que você escreveu e foque.

Respeite suas limitações e seu tempo (sem se esquecer do orçamento!)

Livro é um produto e seus custos podem ser bastante altos. Ficar responsável pelo processo de edição minimiza alguns, mas outros são inevitáveis. Você precisa ser honesta com quanto tempo dispõe, sua disponibilidade financeira e ajustar tudo isso. Pense a longo prazo! Se você pretende publicar mais livros, se interessa também por diagramação, que tal fazer um curso sobre alguma ferramenta de editoração? O InDesign é o programa mais usado e a Adobe disponibiliza alguns tutoriais online gratuitamente. O Scribus é outro exemplo de software gratuito que pode te ajudar a dar corpo ao seu livro. Outra dica é ler mais sobre a construção de um livro*. Pode ser suficiente para um projeto simples e é sempre legal aprender coisas novas.

E no formato? Por que não um livro digital?

Eu sei. A maioria das pessoas quer um livro impresso, mas há muitas plataformas online que facilitam a distribuição de livros digitais e podem te dar o gostinho do seu primeiro livro! A KPD da Amazon é um exemplo. Já lancei um livro por lá e gostei bastante!

Cuide da sua autoestima!

Faça o que você ama! Se seu livro é importante para você ele já vale a pena! Nunca duvide do seu potencial e não deixe que as críticas negativas te afetem. Pense no que pode ser aproveitado, o que for tóxico, dispense. Você não precisa levar todo mundo a sério.

Bem, é isso! Faltou falar de muita coisa, mas fica para próxima e se você quiser, pode entrar em contato comigo por aqui! Espero muito ver seu livro prontinho. Juntas somos fortes!

 

*Alguns livros que podem te ajudar:

A construção do livro – Princípios e técnicas de editoração, de Emanuel Araújo

A Forma do Livro – Ensaios sobre Tipografia e Estética do Livro, de Jan Tschichold

O Design do Livro, de Richard Hendel

Pensar com Tipos, de Elen Lupton

 

Daiane Cardoso
  • Colaboradora de Artes

Nasceu em São José do Rio Preto e escolheu estudar Museologia no Rio de Janeiro. (Quase) formada em Comunicação Social pela UFRJ gosta de dança, pintura, poesia e seres fofinhos. Sonha em ser pesquisadora, mas não consegue parar quieta em um tema; para saber o dessa semana só perguntando mesmo.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Amei demais as dicas! Anotei todas, hahaha. Meu sonho é conseguir terminar meu livro e achei
    a ideia de auto publicação bem interessante. Só uma dúvida, esse KPD da Amazon deixa a gente publicar gratuitamente ou tem alguma taxa?

    • Daiane Cardoso

      Oi, Juliana! Você pode publicar com o KPD gratuitamente, mas a Amazon ficar com uma porcentagem grande do valor das vendas. Muito obrigada pelo elogio e boa sorte! <3 Quero muito ver seu livro por aí! <3

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos