19 de agosto de 2014 | Ano 1, Edição #5 | Texto: | Ilustração:
Azul (não) é cor de menino, rosa (não) é cor de menina

rosa_azulIlustração por Luiza Serpa

Durante toda gestação de minha mãe biológica fui tratada como menina.  Em meu quarto pintado de rosa, da futura família adotiva, tudo estava preparado para uma pequena garota que começaria, assim que saísse daquele ventre, a cumprir o papel que as pessoas achavam que eu ia cumprir simplesmente por ter uma vagina, sem nem saber se eu seria de fato uma mulher. Bonecas, brincos, pequenas sapatilhas, tudo já tinha sido comprado. Tudo estava pavimentado para a chegada de uma nova e pequena mulher na sociedade. Até que nasci. Com um pênis. Espanto!

“Mas não era mulher?” Disse minha tia.
“Será que ela ainda irá querer?” Perguntou a enfermeira
“Óbvio que irei querer.” Afirmou minha mãe adotiva. “Mas vamos ter que mudar todo o quarto.”

Eu era só uma criança. Uma pequena criança que tinha acabado de ser rejeitada por sua mãe biológica, mas que já tinha um lar definido em outro lugar. Um lar que tinha quarto “de menina” me esperando, afinal até ali eu era reconhecida dessa forma. Quando meu órgão genital foi identificado eu passei a virar menino aos olhos da minha família. Esperavam de mim que eu me comportasse “como homem” (como se isso existisse) simplesmente por ter um pênis, novamente sem nem saber se eu era homem ou mulher, afinal gênero não está necessariamente ligado à genitália. Já meu quarto passou a ser azul. Ganhou carrinhos e perdeu sapatilhas, que foram trocadas por pequenos sapatinhos. A partir daquele momento, passei a viver como homem. Vivi 16 anos daquela maneira. Mas sou mulher.

É preciso que vocês saibam o que é o sistema chamado de binário, aquele que nos divide em duas castas: homem e mulher. E diz que nós só podemos pertencer a algum destes dois gêneros, o que sabemos que não é verdade, porque existem também as pessoas trans não-binárias. Esses dois gêneros (homem/mulher) carregam consigo valores e padrões que irão ser socialmente disseminados desde muito cedo. Quando nos educam, ditam direções para cada um deles e sempre ressaltam que tais coisas são para um e outras são para o outro.

Durante o período que vivi sendo lida como garoto, me deparei inúmeras vezes com a frustração de pessoas ao meu redor por eu não suprir as expectativas deles. Faltava-me todos os estereótipos que se esperam de um homem: virilidade, amor pelo futebol, apego aos brinquedos ditos como masculino como carro, pipa e afins. Toda aquela imposição não tinha nada a ver comigo. Não me enchia os olhos. Eram a expectativa DOS OUTROS sobre mim, mas não o que EU desejava para minha vida. O que me atraia, o que eu gostava.

Ainda quando criança cheguei a me apegar pela cor rosa, a cor socialmente dita como de meninas, e por isso sofri repressão. Repressão porque para um homem, o ser viril, usar rosa parece o diminuir perante os outros. Usar rosa o vende como menos homem do que os outros. Porque as pessoas pensam que ser mulher é ser menor do que um homem, e portanto gostar de rosa é motivo de vergonha. Lembrando que muito se acredita que isso é influência da época nazista, onde homossexuais tinham um triângulo rosa em suas fardas. Mas existe mais homem ou menos homem? Qual é a necessidade disso? E o que conceitua o que é ser homem em nossa sociedade?

O mais engraçado de toda essa minha relação conturbada com as expectativas dos outros é que eu também não supro as expectativas do que é ser uma mulher (numa visão machista, é claro) quando não sou delicada, não me interesso em afazeres domésticos e não me sinto obrigada a estar sempre maquiada, depilada, deslumbrante. Ouço bastante de minha mãe que “se você é mulher, por que está saindo dessa maneira?” ou “mulher gosta de cuidar da casa e você não lava nem um prato”.  Ou seja, não entro em nenhuma das caixinhas que a sociedade dita como “de homem” ou “de mulher”. Não segui nenhum dos padrões, não me vi em nenhuma das normativas. Se isso me deslegitima? Pra mim, não. Acredito que gênero é muito mais do que  “se não fizer/usar aquilo, não é isso”. Gênero é o que eu sou. Como eu me vejo. Não molduras pré-estabelecidas e normativas. Aliás, fujo das normativas. Transgredir sempre foi algo comum em minha vida e continuarei fazendo isso.

Maria Clara Araújo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Futura pedagoga e feminista que transversaliza as questões de gênero e raça. Meu nome se tornou uma alusão à minha transparência em relação aos meus sentimentos. Pisciana, sinto como se eu fosse um mar misterioso e difícil de se velejar.

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