31 de agosto de 2015 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Isadora M
A baixa autoestima que dá audiência


É de praxe, quase como em um ato involuntário, nos pegarmos assistindo a programas que não necessitam de muita atenção para uma compreensão total – aqueles canais da tv que existem apenas para ouvir e dar umas bisbilhotadas enquanto fazemos algo mais importante. Eles contêm uma estrutura tão semelhante que acabam se confundindo entre si, dando um caráter óbvio e estimulante à exibição. Já sabemos o que acontecerá desde o primeiro bloco. Assim como o suspense se dará no penúltimo para, no último, termos a materialização da “surpresa”. Metade da programação de diversos canais de televisão apelam para essa estrutura fixa de reality shows, com alguns até vivendo à mercê disto: dando temas para cada dia da semana (ex: segunda-feira é o dia da beleza, terça-feira é o dia da saúde etc). A forma especulada tende a ser de maneira simples mas, antes de tudo, estudada: o encantamento do telespectador é fundamental para sua sustentação. Brinca-se com as propagandas sensacionalistas, a paleta de cores estimulantes e o turbilhão de imagens que se seguem infinitamente sem o respectivo tempo para raciocinar.

A forma como tais realities mexem com a autoimagem é reflexo principalmente da realidade padronizada em que se inserem: programas de emagrecimento que estampam slogans de que felicidade é equivalente a ser magro, ou de transformações radicais no estilo das roupas que tendem a unificar uma forma correta de vestimenta para cada ocasião, independente da personalidade de cada um.

Ilustrando essa ideia, ao ver realities focados em perda de peso, observamos o quanto esta indústria – cultural – não está preocupada realmente com os indivíduos milimetricamente selecionados, mas com a formação de personagens e/ou grupos que consigam atrair a atenção do público para garantir uma maior audiência. Trabalha-se aqui a justificativa de ser um programa voltado para saúde, mas com objetivos instrumentalmente planejados, como a vinculação de um determinado padrão e o respectivo lucro tirado disto. Dietas restritivas e exercícios intensos, acompanhados de imagens da(s) personagem(s) no ápice do surto (uma compulsão alimentar, por exemplo, que ninguém descreve como um transtorno alimentar) ou do cansaço, é uma estratégia para o aumento de espectadores, que atiram frases desenvolvendo a ideia da gordofobia no ambiente social atual. A ideia que se passa, por fim, destes programas, é que é impossível a autoaceitação se você não for magro. E que viver gorda neste padrão criado é feio e repugnante.

A minimização da individualidade e o repúdio ao estilo de vida divergente tornam tais reality shows atrativos como forma de entretenimento: a maioria das pessoas que os assistem acham engraçado a forma como as pessoas escolhidas são pormenorizadas.

Num primeiro bloco, apresentam-se a(s) personagem(s), geralmente escolhidas por meio de familiares/amigos que mandam cartas para o programa (!) – é bom perceber que a grande maioria das personagens escolhidas são mulheres (!!). Frases como “Ela não pode se vestir assim já estando casada e com filhos” e “Essa roupa não cai bem no corpo dela” são marcantes. E pior, quanto mais ridicularizadas elas são, mais chances de serem escolhidas para o programa – e com isso, mais audiência. Incrível, não? No segundo e terceiro bloco, geralmente é o desenvolvimento do episódio: no caso de programas vinculados à moda (sic), mostra-se a constante tentativa de mudança da personagem escolhida para se encaixar no padrão determinado como correto (seguido geralmente com cenas da personagem ‘surtando’: um modo de provocar risadas nos espectadores). O último bloco é bem dramático e lento, retoma-se tudo que foi mostrado antes, com bastante imagens da personagem no seu ‘antes’ para, por fim, contrastar com o ‘depois’ (misto de músicas animadas + gritos dos familiares/amigos + choro coletivo + agradecimento ao programa). Sim, o agradecimento ao programa é essencial. Fazem questão de filmar a personagem no seu ‘depois’ falando como o programa a ajudou a se tornar uma mulher melhor e mais atraente (!!!).

A viralização desses realities que vinculam a imagem alheia – e indiretamente a autoimagem – é quase inconsciente. Por ser tão rápido (geralmente de 30/40 minutos) e envolvente (até um guilty pleasure para alguns) a problematização é quase que esquecida, ou pior: não é vista. Num mundo em que vinculam-se padrões, fruto de uma indústria cultural regida em sua maioria por uma classe extremamente opressora, programas que repetem isso com tal eco são extremamente favoráveis para a legitimação desse arquétipo – que, sim, deve ser rompido e (re)tracejado de forma revolucionária e livre.

Sofia Brayner
  • Colaboradora de Cinema & TV

Sofia tem 18 anos e mora em São Paulo, apesar de ter um coração alagoano fruto de sua moradia de 7 anos na capital. Estuda Cinema e tenta escrever ora ou outra umas histórias mirabolantes que aparecem na sua cabeça fantasiosa. Ela canta Beatles, dança sem motivo, é louca por jogo de terror e fala demais. Ah, e sonha, sonha muito...

  • Clarissa Agostini Pereira

    Que ótimo esse texto! Obrigada Sofia!

  • Brenda

    Maravilhoso esse texto, eu concordo com vc, já faz algum tempo que não assisto esses programas, peguei raiva, como a gente não percebe isso logo de cara?

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