28 de setembro de 2014 | Estilo | Texto: , , and | Ilustração:
Batom, por que não?

Texto escrito por Natasha Ferla, Bárbara Reis, Giulia Fernandes e Isadora M.

Fotos: Colaboradoras da Capitolina. Ilustração: Isadora M.

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O uso e relação das pessoas com a maquiagem muda de tempos em tempos e de pessoa para pessoa. Em algumas épocas, usar maquiagem era uma coisa boa e em outras era algo abominável. Usar o argumento de que há séculos atrás o batom vermelho tinha uma conotação ruim e colocar isso como argumento para justificar aqueles que associam seu uso às prostitutas, é, primeiramente, dizer que se parecer com prostitutas é uma coisa ruim e pouco honrada, ignorando o fato de que elas são pessoas como qualquer outra e merecem respeito. Além disso, é uma afirmação ignorante com a própria história. As coisas mudam com a sociedade, e devemos nos esforçar para deixar nossos preconceitos e ser intolerantes com opiniões opressoras.

Domingo passado, nessa mesma coluna, publicamos um texto sobre expressões que achamos devem parar de ser usadas. Caso tu não tenha lido, pode conferir aqui.

Primeiramente ficamos muito surpresas com a receptividade do post. Mesmo sendo uma noite de domingo, ele teve bastante curtidas e diversos compartilhamentos. Com um grande número de acessos, a página começou a ganhar também alguns comentários que tivemos a liberdade não aceitar pois não acrescentavam nada ao debate sugerido pelo conteúdo da postagem. Além disso, acreditamos que nossas leitoras não são obrigadas a encontrar conteúdos opressores no nosso site. No final de tudo isso, esses foram indícios de que ainda precisamos batalhar muito para criar um espaço seguro na internet, sem a interferência de gente que nem ao menos lê o post que está comentando e acha que sua opinião é extremamente necessária quando só mostra ignorância e prepotência.

Um dos pontos que foram rebatidos foi a questão do uso do batom vermelho. Vimos, então, uma oportunidade de falar um pouco sobre a história da maquiagem, incluindo a do batom, para mostrar como essas associações hoje em dia são puramente preconceituosas e que podemos usar as cores que quisermos.

Uma das principais concepções equivocadas sobre maquiagem é que ela é uma ferramenta de “sedução”, como se toda mulher que se maquiasse tivesse como objetivo final atrair um homem. Essa afirmação exclui completamente qualquer mulher não heterossexual, e a origem histórica do batom deixa evidente sua verdadeira função: a sua versão mais primitiva  – assim como diversos outros cosméticos, com destaque para o lápis de olho preto do tipo kohl – surgiu no Antigo Egito e era usada por ambos os sexos, assim como outros tipos de adornos, como braceletes e colares. A maquiagem acabava não sendo uma distinção de sexo, mas de classe social: quanto mais rico, mais maquiagem se usava. Não era necessariamente uma questão de atração, mas sim de decorar o próprio corpo, de usá-lo como tela para a arte.

Os egípcios foram os primeiros usuários de cosméticos em larga escala. Maquiar-se fazia parte da rotina diária de homens e mulheres desse povo. Os olhos recebiam atenção especial: produtos como henna e sombra eram aplicados para destacá-los. Lábios coloridos em cores como magenta, laranja, vermelho e até preto azulado eram um importante símbolo de status do Egito Antigo. Potes de pintura para lábios eram objetos essenciais em tumbas de mulheres de grande importância social.

A moda dos lábios vermelhos, porém, não começou no Egito. Sua propagação se deu a partir de uma rainha suméria chamada Puabi, que viveu em 2600 a.C. e coloria os lábios com pigmentos de uma pedra vermelha local. A partir daí, sumérios e vizinhos, incluindo egípcios, adotaram este costume.

A Grécia Antiga tinha uma relação tumultuada com a maquiagem. Inicialmente, o ato de maquiar-se era associado a status social e feminilidade. Mais tarde, leis gregas associaram os cosméticos, especialmente os lábios tingidos, à prostituição.

Em Roma, mulheres nobres tinham empregadas especialmente treinadas para maquiar e pentear, as cosmetae. Os romanos consumiam cosméticos importados caríssimos e destinados à mais alta nobreza. Aqueles que não podiam pagar tinham que contentar-se com as cópias romanas dos produtos importados.

A Idade Média foi um período terrível para os admiradores de maquiagem, pois as mulheres maquiadas eram vistas por religiosos como “encarnações do demônio”. Apesar da conotação negativa, a maquiagem foi popular no período final da Idade Média entre cortesãs, especialmente no Renascimento.

Durante o reinado da rainha Elizabeth I (1568-1603) os cosméticos voltaram a ser usados pela nobreza. A rainha era apaixonada por maquiagem, inclusive foi uma das pioneiras no uso do batom sólido (na forma de lápis) e acreditava em supostas propriedades mágicas e medicinais do produto. Seguindo sua convicção nos poderes de cura do batom, quando adoecia, Elizabeth aplicava grandes quantidades do produto nos lábios. O Estado e a Igreja rejeitavam a crença nos poderes do batom e a última classificou o uso de cosméticos como um pecado mortal. Em 1770, o parlamento inglês propôs uma lei contra o uso de maquiagem antes do casamento: se a moça pintasse o rosto sendo solteira, seria considerada praticante de bruxaria.

Durante a Era Vitoriana, na Inglaterra, a maquiagem carregada ficou restringida a cortesãs e atrizes. Inclusive a maquiagem contrariava os padrões de beleza da época, que valorizavam as mulheres esguias, o uso de longos e pesados vestidos, além de luvas e chapéus para se esconder do sol.

Anúncio de maquiagem da fabricante Gellé, do início do século XX.

Anúncio de maquiagem da fabricante Gellé, do início do século XX. Imagem retirada do livro “A moda do século XX”, de Amy de la Haye e Valerie Mendes. São Paulo, Martins Fontes, 2009.

O conceito moderno de maquiagem só começou a ganhar forma no início do século XX. As sufragistas usavam o batom vermelho forte como símbolo da emancipação feminina, chocando conservadores do sexo masculino. A conotação negativa que as autoridades repressoras masculinas deram ao batom durante boa parte da história fez com que esse item de maquiagem fosse o símbolo perfeito da campanha a favor da liberdade da mulher.

Não demorou muito para o batom e a maquiagem caírem no gosto de estrelas de cinema e mulheres comuns, atraindo o interesse publicitário. A partir daí, a indústria cosmética se expandiu e a maquiagem tornou-se algo comum para a sociedade.

Durante os anos 1960, década da contracultura, dos hippies e da guerra do Vietnã, olhos bem pretos e cílios longos – muitas vezes postiços – eram a grande moda entre as jovens. A cor dos lábios e dos olhos contrastava com a pele, e as roupas tinham motivos florais e psicodélicos, com muitas cores. Na década seguinte, do outro lado do oceano, na Inglaterra, os punks também usavam cores fortes: batons vermelhos e pretos, com o intuito de chocar e parecer diferente dos outros jovens.

Apesar de atualmente o uso de maquiagem ser algo praticamente imposto para as mulheres, a maioria delas – como eu e muitas das meninas da Capitolina – a usa como um modo de se expressar e, de fato, ficar bonita, mas para nossa própria satisfação. Até porque, na maioria daqueles posts do tipo “10 coisas que os homens odeiam que as mulheres façam” (sic), sempre lista a bendita maquiagem – notoriamente, batons escuros -, alegando que “homens preferem mulheres naturais”. Primeiramente, isso demonstra um conhecimento muito limitado do que maquiagem realmente é, uma vez que a noção de um rosto “natural” foi completamente deturpada, e agora exige uma boa quantidade de cosméticos para ser utilizada, e, em segundo lugar, pressupõe que as mulheres usem maquiagem exclusivamente para os homens. Isso não é verdade. Não somos objetos de decoração que os homens têm que aprovar. Usamos algo porque gostamos, e, se alguém tiver algum problema com isso, que vire de lado e vá olhar outra coisa.

Mas mesmo já tendo ouvido incansáveis vezes esse tipo de crítica, nós continuamos usando batom. Batom vermelho, lilás, pink, violeta, magenta, laranja, azul, preto.  Acho que, diante deste fato, eles precisam rever a própria lógica.

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Eu, Bárbara Reis, passei os primeiros cinco anos da minha adolescência sem sequer tocar em maquiagem. Eu tinha uma rejeição a ela justamente por sentir que todos ao meu redor queriam enfiá-la pela minha garganta. Eu odiava que exigissem algo de mim. Lembro que, nesse período, diversas pessoas me diziam que eu tinha que começar a usar maquiagem, como se isso fosse ser bom pra mim mesmo não sendo o que eu desejava naquele momento. Eu só passei a usar maquiagem quando percebi o seu outro lado: a auto-expressão, a diversão. Percebi que, com a maquiagem (e livre de qualquer restrição a ela), eu tinha um milhão de possibilidades para alterar a minha aparência, para transmitir a minha personalidade. Gostei disso e comecei a experimentar feito louca. Eu comecei a usar maquiagem pura e simplesmente porque eu quis. Eu fiz essa escolha, e acredito que todas (e todos) deveriam sentir essa mesma liberdade de escolher usá-la ou não, sem precisar se preocupar com críticas e preconceito.

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Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

Isadora M.
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Isadora Maríllia, 1992. Entre suas paixões estão: Cookie Monster, doces, histórias de espiãs (como Harriet The Spy e Veronica Mars), gatos e glitter. No entanto, detesta bombom de abacaxi e frutas cristalizadas.

Bárbara Reis
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Bárbara Reis tem 18 anos, é paulista e estuda Jornalismo na ECA. Acha que a internet é a melhor coisa que já aconteceu, é fascinada por novas linguagens e tem o péssimo hábito de acumular livros para ler e séries para assistir. O seu pior pesadelo envolveria insetos, agulhas, generalizações, matemática e temperaturas acima de 27ºC.

Giulia Fernandes
  • Colaboradora de Cinema & TV
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Giulia Fernandes, 17 anos, Rio de Janeiro, estudante. Meus interesses são: film noir, batons roxos, criptozoologia, árvores centenárias, garimpar livros e LPs, colecionar caracóis e algumas vezes outras coisas também.

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