15 de julho de 2014 | Ano 1, Edição #4 | Texto: | Ilustração:
Bilhete pra viagem astral
Ilustração: Mariana Trigo.

Ilustração: Mariana Trigo.

Vou ser bem sincera com você: antes de começar a escrever este texto ele era sobre viagem astral. Agora já não sei mais. Pode ser que seja, pode ser que não.

O negócio é que eu não sou especialista em viagem astral. Acho que nem existe um especialista em viagem astral. Mas acho que nada mais apropriado pra falar sobre viagem astral do que alguém que sabe vagamente o que é viagem astral. Para mim, é uma jornada rumo a um plano desconhecido, inconsciente. Ou melhor: é uma jornada sem rumo, em que o percurso e as descobertas que se faz nele são o que realmente importam.

Viagem astral não se explica, você só se joga nela e UOU! Exatamente como eu estou escrevendo este texto.

E quem é que saberia definir uma viagem astral? Não é errado, por exemplo, dizer que é uma missão da NASA. Aliás, faz muito sentido. Faz tanto sentido que talvez não possa ser considerada uma viagem astral: é lúcido demais, planejado além do que se deve. O negócio muda se for a Sandra Bullock naquele filme em que ela é uma astronauta que vaga pelo universo porque se desligou da nave (aliás, jamais me torturarei com esse filme na minha vida, morro de medo desse tal de espaço sideral infinito (mas esse espaço sideral infinito é a metáfora perfeita pra viagem astral (e eu gosto de viajar pelos astros da minha cabeça (bem, talvez eu não goste muito, não)))).

Quando você tá no ônibus e descobre um batuque completamente novo num funk daqueles, que tinha passado desapercebido até o momento. Você já logo se imagina dançando de macacão de lantejoulas verde e, por causa disso tudo, acaba perdendo o ponto: me diz se isso não é viagem astral? Mas é claro que é! Se ônibus e viajante estivessem na mesma dimensão te garanto que o ponto não teria sido perdido.

Eu, pessoalmente, acho que as aulas de yoga que fiz foram as minhas viagens astrais mais pesadas e, por isso mesmo, as que me deixaram mais leve. Meditar é dificílimo, mas, quando você consegue é coisa de doido: viagem astral, só dá pra explicar assim.

Mas lembro também das histórias bizarras que contava o instrutor de yoga: pessoas que iam pra alfa, pra beta, pra gama e lá sofriam interferências que carregavam pra nossa dimensão comum (se é que isso existe). Coisa de filme de terror. Uma foi particularmente assustadora para mim: a mulher tinha ido pra dimensão das baratas gigantes, e uma barata deu um baita cacete nela. O choque foi tanto que ela não voltou de seu estado entorpecido de maneira gradual e segura. Quando ela voltou a si, suas feições estavam contorcidas – resultado da surra da barata. Só depois de meses de cura espiritual ela voltou ao normal.

Agora eu me pego aqui depois dessa viagem tendo aprendido muito sobre viagem astral e sobre eu mesma. Essa tal de viagem astral realmente é tudo o que eu disse. É como uma viagem normal pra Caxambu ou pra Istambul, mas não na dimensão física que conhecemos. E, em vez de visitarmos lugares, visitamos a nós mesmos. Não trazermos ímãs de geladeira e miniaturas de monumentos (graças a deus), mas autoconhecimento.

Continuemos aqui, lá, em todo e qualquer lugar com a cabeça na lua, viajando pelos astros e questionando a realidade. E não, nada é ridículo. Desliguemo-nos dos estereótipos pelo menos nas nossas horas íntimas. Serenidade e seriedade.

Julia Oliveira
  • Coordenadora de Estilo
  • Ilustradora

Julia Oliveira, atende por Juia, tem 22 anos e se mete em muitas coisas, mas não faz nada direito — o que tudo bem, porque ela só faz por prazer mesmo. Foi uma criança muito bem-sucedida e espera o mesmo para sua vida adulta: lançou o hit “Quem sabe” e o conto “A ursa bailarina”, grande sucesso entre familiares. Seu lema é “quanto pior, melhor”, frase que até consideraria tatuar se não tivesse dermatite atópica. Brincadeira, ela nunca faria essa tatuagem. Instagram: @ursabailarina

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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