15 de novembro de 2015 | Música | Texto: | Ilustração: Sarah Roque
“Black music” é popular, “black people” nem tanto

Black music– Música negra, música de negro, música feita por negros, a resistência de negros e negras através da música. Podemos adotar inúmeros significados para o termo “black music”, e de acordo com seu país, cultura e história social e política a concepção de “black music” se altera, mas de uma maneira geral a música negra é a maneira que a população negra ao redor do mundo tem de se fazer ouvir, sua voz, a sua história, o som de sua guitarra ou o toque de seu tambor. Podemos citar inúmeros cantores e grupos negros que tiveram imensa relevância para a história da música, como por exemplo Jimi Hendrix, Miles Davis, Funkadelic, Bob Marley, Ray Charles, Fela Kuti, James Brown, Whitney Houston, Nina Simone, Beyoncé entre tantos e tantos outros, se citasse todos que admiro eu faria uma playlist de cantores negros que todos deveríamos ouvir(quem sabe isso não role por aqui?). Mas, o fato é que cantores negros ao longo da história vem construindo sua voz dentro de todos estilos musicais, do jazz e blues ao rap, passando pelo rock and roll, deixando sua marca no pop, reinando no reggae com um pouco de afrobeat, e indo até onde nossa voz consegue chegar.

Quando damos um giro no globo e pensamos no Brasil, os ritmos são inúmeros e a importância dessa música como forma de luta da população negra é inenarrável. A música, conta a história de cidades, décadas de resistência do povo negro cantadas e dançadas, como o caso da evolução do samba no Rio de Janeiro. Iniciado em terreiros da cidade,passando pela era do rádio, até chegar as escolas de samba de carnaval. No cenário do samba e mpb, cantoras como Juçara Marçal resgatam a ancestralidade com músicas que carregam ritmos brasileiros dançantes e, letras que contam toda religiosidade e tradição de terreiros, como são as canções São Jorge e Machado de Xangô. O funk, que por vezes conta o sofrimento da vida em favelas e, narra através de música e batidas a violência sofrida pela população pobre, negra e constantemente criminalizada aos olhos do Estado. Através da música essas pessoas, jovens negros e negras se fazem ouvir, fazem resistir sua cultura e contam as suas vivências na cidade através de letra e som, cantoras como MC Carol, MC Sofia e tantas outras mulheres do funk ganham voz para denunciarem os abusos cotidianos, machismo e empoderar-se enquanto mulheres da periferia.


Juçara Marçal resgata a religiosidade de terreiros com músicas que falam sobre Orixás, como Machado de Xangô.

No cenário internacional a inesquecível Nina Simone mostrou por anos seu poder no movimento negro dos EUA, criando hinos dos ativistas da causa negra da época como quando cantou com toda força de suas cordas vocais até explodi-las de raiva indignação pelo povo negro que vinha sendo massacrado diariamente no país, a canção Mississippi Goddamn(ou, Mississippi, mas que porra!), que fala sobre a situação que a população negra vivia na década de 60, em especial do assassinato de crianças negras em uma igreja em Birmigham no estado do Alabama em 1963. Temos também, nossas divas pop Rihanna e Beyoncé que através de suas músicas e movimentos mostram todo o poder da mulher negra com visibilidade internacional. E ainda na cena do rock and roll, que muitas vezes é esquecida quando falamos em black music temos Chuck Berry como verdadeiro rei do rock, ainda que muitos deem a Elvis Presley esse título.


Nina Simone interpreta Mississippi Goddamn durante concerto em 1965. A canção se tornou um hino para os ativistas dos direitos da população negra nos EUA na época.

No entanto, por que ainda com os incontáveis sucessos e artistas relevantes para o cenário musical, o reconhecimento e espaço nos é negado? Por que ainda, as pessoas se comovem mais em assistir uma mulher branca recitando a canção de três negras poderosas, como foi o caso dessa semana com Clarice Falcão do que ver as originais, negras e dançantes sonorizando sua luta e dor de “sobreviventes”? Na cena do hip-hop, como foi também esse ano o caso de Nicky Minaj e Miley Cyrus nos chama atenção, por que uma mulher branca dançando “twerk” é mais aceitável, visualmente atrativo, não apelativo, do que uma mulher negra o fazendo? Onde o discurso de homenagem a cultura negra termina e, a apropriação cultural tem inicio? Será que, esse limite é tão tênue quanto acreditamos? Talvez não seja.


Música do trio Destiny’s Child de 2001 composta por Beyoncé e Mathew Knowles, junto com Anthony Dent.

Quando vemos festivais de música(de preto) como o Back2Black realizado esse ano no Rio de Janeiro, em localizações privilegiadas e com preços de ingressos absurdos os quais a grande camada da população negra não tem acesso, isso é homenagear a cultura negra? Um amigo uma vez classificou “Festivais de preto, para brancos.” e é isso. Shows de funk e rap realizados em morros cariocas, como na Rocinha mas com seus ingressos  vendidos “no asfalto”, em pontos da Zona Sul por preços exuberantes que apenas a camada privilegiada terá acesso. Isso é “valorizar” o funk, sua cultura e a população periférica?

Ainda no Brasil, quando pensamos em ritmos de terreiros e de religiões de matriz africana, como rodas de jongo que constantemente vemos em ruas de cidades como Rio de Janeiro, ou nos pátios de universidades frequentada pela classe média dessas cidades, aquela roda de jongo ou coco que, todas as mulheres querem estar com seus turbantes e saias girando, que os jovens cantam e tocam tambores, jovens desligados da religião e que não compreendem a importância daquele ato, daquele celebração, daquela dança. Deixam morrer a religiosidade, assim, como a capoeira hoje já não é mais recordada como uma tradição vinda do candomblé, outras danças de origem afro, vem se popularizando e tendo seu significado esvaziado. Querem celebrar algo, que para negros é uma resistência, como já dito aqui na Capitolina, querem celebrar mas “não vamos confundir as coisas”, “isso é só uma dança”. Não. Não é “só uma dança”. Isso é resistência, isso é ato político, isso é cultura negra.

“A cultura negra é popular, pessoas negras não são.” disse o poeta negro B. Easy. Essa talvez seja a maior verdade a respeito da música e cultura dos povos negros de uma forma geral. Todos querem cantar “Eu só quero é ser feliz andar tranquilamente na favela que eu nasci…”, desde que você faça isso no seu bairro de luxo e, não tenha que de fato se preocupar em poder andar em paz, sem ter medo de levar um tiro ou sofrer qualquer violência pela sua cor, classe e origem. Todos querem usar turbante para ser fashion, mas ninguém quer ser chamado de macumbeiro e nem sofrer preconceito. Todos querem girar a saia e bater o tambor mas, desde que seja em uma praça em área nobre e bom, desde que não se soframos represálias e tão pouco, corremos o risco de termos casas incendiadas por conta disso.

Todos amam a cultura negra, mas ninguém quer falar sobre os problemas que sofremos, ninguém quer ser negro, ninguém quer precisar discutir esses “assuntos chatos” e “exagerados” da população negra, além de nós. Mas, enquanto os nossos continuam sofrendo um genocídio diário em nosso país e, em tantos outros lugares ao redor do mundo, precisamos falar sobre isso. Precisamos resistir. Precisamos nos reconhecer e sermos negros. Precisamos lutar contra toda forma de racismo e fazer prevalecer nossa cultura, feita por negros e para negros, precisamos ser ouvidos pelo mundo, reconhecer nosso valor e nossa importância, e lugar, lugar esse que quase sempre nos é negado. Mas, em meio a tanta apropriação e esvaziamento de valor… Seguimos resistindo.

Fabiana Pinto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Fabiana Pinto, negra e carioca. Graduanda em Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro em tempo integral e, escritora de suas percepções e experimentações do mundo em seu tempo livre.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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