19 de outubro de 2014 | Estilo | Texto: | Ilustração:
A blusa de alcinha nossa de cada dia
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Ilustração: Julia Oliveira

Se você tem pernas grossas, já deve ter ouvido que não deveria usar calça clara. Ou que, se sua barriga é grande, qualquer coisa que marque a região da cintura é um no-no total. E, claro, aquele sempre presente conselho de “quem é gordinha fica melhor de roupa escura”. Mas, vem cá, quem foi que decidiu tudo isso? Quando foi que editaram O Grande Livro de Regras de Vestuário e não convidaram nem por educação a gente pra dar uns palpites?

Dito isso, resolvi compartilhar com vocês uma das minhas grandes conquistas do mês: eu comprei (e usei, claro) uma blusa de alcinha.

“Nossa, Laura, que vida chata, sua grande conquista É ISSO?!”, vocês devem estar pensando. E com razão, né, tem gente com bem menos idade que eu que já tem um Nobel da Paz (é com você mesma que eu estou falando, Malala), então por que diabos alguém comemoraria uma blusa de alcinha?

Mas, calma, que eu acho que tenho motivos para me dar pelo menos um brigadeiro de parabéns: durante uma parte da minha infância – bem aquela em que a gente já tá quase indo pra adolescência e já tem mil coisas esquisitas rolando no nosso próprio corpo – eu estava acima do peso. Nunca percebi em que ponto engordei e não tava ligando muito não, pra dizer a verdade, afinal, já que eu ainda fazia as mesmas coisas da época em que minha barriga era menor e minhas pernas eram fininhas, e aquilo não parecia nenhuma mudança absurda pra mim. Só pra mim, né? Porque, de repente, quase todo mundo ao meu redor se juntou para me dizer como eu não era saudável, como eu era tão bonita e estava ficando feia e como eu nunca mais deveria sequer cheirar uma barra de chocolate porque, veja bem, a beleza exige alguns sacrifícios, não é mesmo?

Acho que não preciso nem dizer que blusa de alcinha estava total e completamente fora de cogitação, né? Assim, foram dez longos anos de calor e suvaquinhos sufocados até que, em um dia desse outubro apocalítptico de quente que estamos vivendo na cidade de São Paulo, me vi parada no meio do Bom Retiro vestindo uma camisa de flanela e virando água no caminho pro trabalho. Se eu optasse por manter aquele look, as chances eram grandes de que R.I.P. Laura até o final do expediente, então tomei coragem e entrei numa loja daquela em que nada custa mais que vinte reais e você fica querendo comprar tudo só porque é. Muito. Barato.

Não sei se era o calor ou a emoção, mas fiquei até ofegante quando caminhei até a arara e peguei uma belíssima camisetinha de alcinha, e mais ofegante ainda quando a vesti. Foram os melhores dez reais que gastei no mês, devo dizer, e olha que minha lista de compras de outubro envolvem também um collant e sorvetes deliciosos. Aquela blusinha colocou para fora de mim anos de guerra ao meu próprio corpo e, naquele momento, eu não me senti feia, bonita ou qualquer outra coisa física: eu senti que tinha poder. Piegas, né? Eu sei, mas foi bem legal. Não foi uma peça enfeitiçada que resolveu todos os meus problemas, mas foi um passo até que bem grande.

A edição desse mês da Capitô não é mais Medo, mas acho que o clima de “enfrente seus fantasmas” continua acompanhando todas nós por aqui, e essa foi uma experiência tão, tão legal que eu resolvi propor um desafiozinho: qual é a peça de roupa que você acha maravilhosa, mas não tem coragem de usar porque te disseram que não funciona no seu corpo? Que tal dar uma chance a ela? A gente vai adorar ver, e aposto que vai ser bem legal pra você também!

Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

  • Raissa

    Amei <3. A minha peça era saia comprida. Por ser gordinha e baixinha, sempre ouvia um "ai, mas não vai ficar bom em você". Comprei há uns 4 meses e usei. Fiquei linda. Obrigada pelo texto/incentivo!

  • cecilia_moronari

    Já estou amando você por dois motivos: usou blusa de alcinha depois de anos de repressão (assim como eu!) e colocou um link de “Tô virando água” da Sheilla Mello <3 que é a musica que canto sempre na ~zueira~ e ninguém sabe do que eu to falando. DÁ UM ABRAÇO AQUI D:

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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