16 de fevereiro de 2016 | Fala Mais, Sem categoria | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Boko Haram, precisamos enxergá-los
bokoharam

Recentemente falamos sobre o Estado Islâmico aqui no Fala Mais, explicamos como surgiram e o que eles têm feito no Oriente Médio e no mundo. O Estado Islâmico é um grupo extremista que tem se destacado nas mídias internacionais devido aos seus atos terroristas contra representantes de países europeus como jornalistas e também seus ataques a localizações famosas no mundo, como foi o caso de Paris no final do ano passado. Bom, mas e os outros grupos extremistas dos quais a mídia não fala? E os assassinatos, ataques de homem bomba e terror às pessoas fora do ocidente, pessoas pobres e desconhecidas da Nigéria? Será que ninguém morre por lá? E se morrem, por que não ouvimos falar?

Na mídia nacional pouco se tem notícia a respeito do grupo extremista islâmino Boko Haram e na internacional o debate também não é aprofundado. Uma série de fatores determina o que deve ou não ser notícia e entre eles o poder que o local onde a notícia ocorreu exerce é o fator principal. Isso significa que uma morte na França tem mais chances de ser noticiada do que centenas na Nigéria, ou como vimos no final do ano passado, tem mais chance de ser noticiada e debatida amplamente do que dezenas no interior de Minas Gerais. Uma vida francesa vale mais que uma brasileira ou nigeriana? Não, mas para a mídia não é tão interessante falar a respeito de conflitos e ataques em locais que não geram tanto lucro como é o caso da Nigéria, ou que não seja tão famoso como foi o caso de Mariana.

Mas deixando o Brasil e as suas catástrofes “naturais” de lado, vamos desviar nossos olhares para o grupo extremista Boko Haram e tentarmos compreender o que eles são, como surgiram e por que apesar de nos últimos anos terem alcançados números alarmantes de mortos nos territórios que comandam a mídia permanece em silêncio.

O Boko Haram teve sua fundação no começo de 2002 por Mohammed Yusuf no norte de Nigéria. O grupo surgiu como oposição à educação ocidental que estava se implantando no país e seu nome inicial era “Jama’atu Ahlis Sunna Lidda’awati wal-Jihad”, que na língua local significa “Pessoas comprometidas com a propagação dos ensinamentos do Profeta e Jihad”.  No começo, o grupo era apenas uma instituição religiosa, consistia em uma mesquita e uma escola de ensino islâmico em Maiduguri que se localiza na região do nordeste da Nigéria, na época de sua fundação, muitas famílias muçulmanas pobres da Nigéria e de outros países vizinhos matricularam seus filhos nas escolas do grupo e então surgiu o apelido de “Boko Haram”, que na língua local significa algo próximo de “Educação ocidental é proibida.”

Após algum tempo o que antes era uma escola se tornou um centro de recrutamento de jihadistas e então, o grupo iniciou sua atuação de forma política contra as autoridades do país através de ataques a unidades de polícia e em instalações militares bem como instituições governamentais e bloqueios nas principais estradas. Até 2009 o Boko Haram não era classificado como um grupo terrorista violento, foi tão somente quando começaram suas conquistas territoriais que o método de ação do grupo mudou. Em 2015 o grupo já comandava um território de aproximadamente 25 mil quilômetros. Esses territórios foram conquistados a partir de uma guerra civil, através do terror e ataques como visto no início de 2015 e em Janeiro desse ano contra civis, moradores de vilarejos e regiões pobres da Nigéria.

Nunca tive grande compreensão dos conflitos de grupos terroristas islâmicos até esse ano, no entanto me lembro de uma conversa com meu pai a alguns anos atrás onde ele analisava a maneira ocidental de combate a grupos terroristas, na época ele fazia referência a Al-Qaeda. Me lembro de estar em uma madrugada assistindo a um jogo de futebol americano pela ESPM Brasil e no estádio serem exibidas mensagens e os norte-americanos começarem a gritar enquanto olhavam para seus celulares e os telões como se seu time tivesse marcado um ponto, na verdade, o que eles comemoravam era o anúncio da morte de Osama Bin Laden. Alguns anos atrás vimos de forma pouco televisiva a mesma história se repetir, quando as autoridades e grupos militares da Nigéria com ajuda de países do ocidente decidiram atacar o grupo Boko Haram em 2009, durante a ação eles mataram seu criador e líder, Mohammed Yusuf. Considerando isso uma grande vitória as autoridades nigerianas declararam o grupo “extinto” de maneira totalmente errônea e equivocada. Quando existe uma ideologia e essa ideologia é trabalhada na mente de milhares, ainda que um líder morra suas ideias não morrerão junto, foi por isso que em 2013 o Boko Haram teve uma nova formação, com um novo líder e o que antes eram ataques a cabines de polícia e bloqueios de estradas se transformou em um extermínio sem piedade da população civil do país.

Com casos como de 2013 onde o grupo assassinou 60 estudantes enquanto dormiam em uma escola rural e decapitaram diversos caminhoneiros de forma desumana, em 2014 quando sequestraram mais de 200 meninas e que até hoje muitas se encontram desaparecidas, 2015 quando aproximadamente 2 mil pessoas foram mortas em um ataque a um vilarejo e mais recentemente em janeiro desse ano onde aproximadamente 100 pessoas foram mortas durante o ataque de mulher bomba em uma aldeia, sendo a maioria das vítimas mulheres e crianças. O grupo carrega consigo números alarmantes de morte e destruição e, ainda assim, pouco se fala a respeito disso.

Assim, como as disputas que ocorrem em outros países com grupos extremistas islâmicos sabemos que a questão na Nigéria e que cerca o grupo Boko Haram trata-se de política e poder. O medo dos outros é o que fortalece grupos como esse, mas o que acontece quando “os outros” não importam tanto para o restante do mundo? Acontecem mortes, tragédias e dor silenciosas e silenciadas pela mídia e os países que detém poder. Quantas pessoas mais serão preciso morrer? Quantos corpos, negros, pobres e desconhecidos precisaram ficar no chão até que as autoridades de países poderosos comecem a olhar para eles?  Até que comecem a discutir e tentar compreender o que se passa nesse país, não tão distante, mas há muito já esquecido.

Saiba mais: Jornalista faz análise a respeito do silêncio da mídia internacional a cerca dos ataques do grupo extremista Boko Haram onde mais de 2 mil pessoas morreram na Nigéria no começo de 2015.

Fabiana Pinto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Fabiana Pinto, negra e carioca. Graduanda em Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro em tempo integral e, escritora de suas percepções e experimentações do mundo em seu tempo livre.

  • christian basilio

    Um otimo texto que diz exatamente o que penso sobre o assunto .Muito bom mesmo, Parabéns!

    • Fabiana Pinto

      Obrigada querido!

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