4 de janeiro de 2016 | Ano 2, Edição #22 | Texto: | Ilustração: Sarah Roque
Brincar e criar mundos

Vamos falar sobre crianças? VA-MOS (voz da tia Juliana do jardim de infância), mas relaxa que eu não sou dessas fanáticas. É engraçado, né, mas as pessoas costumam dividir assim: quem ama e quem odeia crianças. Nunca entendi essa oposição porque existem tantas crianças no mundo e não é possível que todas as suas experiências, to-das, tenham sido ou muito boas ou muito ruins. Assim como na adolescência ou no mundo adulto, tem aquelas pessoas que a gente curte, que a gente quer perto e aquelas que a gente só quer esmagar o pescocinho de tanta raiva. Então vamos combinar assim? Crianças têm singularidades, sim, não vamos jogá-las num saquinho e dizer que são todas iguais. E isso pode até resolver seu problema com crianças se disser que “mas Yasmin, eu apenas não sei lidar com elas”: amiga, eu não sei lidar com as pessoas de maneira geral e não existe uma regra de sucesso. Com os pequenos é assim, cê pode ser engraçadona e curtir várias músicas da Disney, não vai achando que aquela criança que acabou de conhecer vai te adorar por isso.  

O que o nosso tema do mês tem a ver com crianças? Você pode não ter contato algum com elas, mas um dia já foi uma e disso tenho certeza. Podemos conversar sobre como nossas infâncias foram diferentes e é possível se chegar em um consenso: como éramos criativas! Certamente vai se lembrar de uma caixa de papelão que era uma nave ou um baú mágico. Ou ainda de histórias mirabolantes em que você jurava de pé junto que viveu. Esse poder de transformar o que tínhamos e o que éramos não é incrível? E isso, queridas, é brincar e é criar. Criando, as crianças podem ser o que quiserem, saem de suas realidades e voam longe, longe. Em terra de imaginação a palavra “limites” não existe.

Legal, as crianças brincam, qual é a novidade? O brincar pode parecer muito inofensivo se o vemos de longe. E, bem, a maioria de nós está longe. O que não nos faz perceber facilmente a riqueza desse verbo. Pude ter na faculdade uma experiência prática de: voltar a brincar. A proposta era estudarmos o lúdico e não faria sentido ler teorias de psicanalistas sem nos colocarmos completamente na experiência com nossos corpinhos. Chegávamos na sala e logo saíamos para o gramado para nos aventurarmos na barra manteiga, na ciranda, na amarelinha e corda. Até então eu pouco entendia por que brincar é importante – e para todos nós, não apenas para crianças. Viver as brincadeiras, o faz de conta, as histórias, faz parte de construir a nós mesmos. Lidamos com desafios, com o outro, com as nossas possibilidades, e tudo isso com as percepções e emoções afloradas. A sensação mais importante para mim foi, sem dúvidas, me ver criando em conjunto e me sentir parte daquilo.

É comum termos a sensação de que criávamos muito quando crianças e que isso foi se perdendo com o tempo. E na realidade, acaba se perdendo mesmo. Nosso tempo de ócio permitido à fantasia acaba quando crescemos, quando começamos a encarar outros papéis, seja na escola ou dentro de casa. Não é mais esperado e nem aceitável que fiquemos o dia todo desenhando ou brincando na rua. Principalmente para nós, meninas, que sofremos bem cedo com a pressão para nos tornarmos “mocinhas”, responsáveis, que cuidam da casa e da família. E é isso o que acontece, basicamente, seja criança ou adulto: se a sociedade quer que você seja produtiva, você não terá mais tempo para brincar. Uma criança quando começa a trabalhar ela não está deixando de ser uma criança; estão a atribuindo responsabilidades de um adulto – e, pasmem, essas responsabilidades devem ser questionadas até para quem já cresceu.

Nosso potencial de criação, aquele de brincar, está na gente de alguma forma no que fazemos no dia a dia. Ele ainda existe em pequenas brechas, como que para te lembrar que você não é um adulto perdido. Algumas pessoas conseguem dar mais espaço à criatividade do que outras, mas a questão é que não está fácil pra ninguém. Vemos por aí poucos rebeldes, seres que brincam, que teimam em não estar no corpo crescido que ganharam. É com essa imagem que gostaria de acabar este texto, uma imagem de inspiração com um misto de apelo. Sejamos brincantes, crianças. Não tenhamos medo de não crescer.

Yasmin Lopes
  • Coordenadora de Poéticas
  • Colaboradora de Saúde
  • Colaboradora de Sociedade

Yasmin, se divide entre a graduação de Terapia Ocupacional e as ~artes~. Nasceu e vive em São Paulo, porém sonha com o mar. Não moraria em uma casa sem plantas, faz dancinhas ridículas no quarto e mantém um caderno quase-secreto de colagens e textos. Se estiver com sua câmera na mão, se basta assim - a sua única possível metade da laranja.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Tantas outras coisas importantes que vamos perdendo, por exemplo, uma criança fica fascinada com muito mais coisa que um adulto (não querendo generalizar, mas acontece bastante). Vamos ficando cada vez mais entediados e “conformados” com o que nos cerca, nada é novo ou interessante. Lindo texto, trás uma reflexão importantíssima. Parabéns.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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