23 de agosto de 2015 | Colunas, Estilo, Se Liga | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Brincos pra quem?

No mundo em que vivemos, espera-se que meninos tenham um tipo de comportamento e que meninas tenham outro tipo de comportamento. Também é esperado que sigamos certos códigos de vestimenta, e todas estas expectativas que o mundo despeja sobre nós começam antes mesmo do dia em que nascemos.

Tudo começa no enxoval, se for designado menino ao nascimento será tudo azul e se for designada menina ao nascimento, tudo rosa! As roupas e os brinquedos dos meninos vão ser estampados com barquinhos e carrinhos, as meninas usarão flores e bonequinhas. E como é importante que mulheres e meninas estejam sempre bem apresentadas, as meninas ainda passam pelo processo de colocação de brincos.

É comum que os brincos sejam colocados em crianças e bebês, e é quase uma regra para diferenciar meninos e meninas. Para os pequenos, que ainda não entendem quase nada do mundo, a falta de brincos não faz nenhuma diferença, mas para uma sociedade que só consegue enxergar o binarismo de masculino e feminino, olhar um neném e poder identificar seu gênero é quase um alívio.

Nossa colaboradora Carolina Walliter conta que sua mãe optou por não furar suas orelhas e que isso causava um estranhamento nas pessoas. Somente aos seis anos, e por escolha, Carol teve as orelhas furadas. Nossa outra colaboradora Dani Feno nunca gostou muito de roupas consideradas mais femininas, como laços e coisas rosas, e o brinco era sempre um motivo de briga entre ela e sua mãe.

A roteirista Eleonora Loner vem de uma família de “sem brinco”: ela, sua mãe e sua irmã não têm furos nas orelhas, e nunca tiveram vontade de fazer. Diferente da publicitária Dani Soares, que furou as orelhas aos dez anos em uma tradição familiar que consistia em furar a orelha com uma agulha de costura e uma batata. Apesar da dor, a iniciativa partiu dela mesma.

A fotógrafa Amália Gonçalves quando teve sua filha, Bella, optou por não furar suas orelhas. Segundo ela, a decisão cabia apenas à menina, que poderia fazer uma escolha consciente em relação ao seu corpo quando mais velha.

Nossa outra colaboradora Ana Paula Andrade Peccini que é enfermeira, acredita que a colocação de brincos em bebês recém-nascidos é uma agressão. Além dos riscos de infecção a que a criança é exposta, ela também sente a dor causada pelos furos. Ana Paula sempre orienta as mães a esperar as crianças ficarem mais velhas, algumas aí então param pra pensar sobre o assunto. Mas claro que não podemos culpar unicamente as mães, usar brincos é uma coisa cultural tão forte que às vezes nem paramos para pensar no que ela significa.

Outro ponto importante na questão da colocação de brincos é o consentimento. Crianças não podem consentir. Por que, mesmo assim, fazemos uma (ainda que pequena) modificação no corpo delas? Brincos não são uma coisa necessária no desenvolvimento de uma pessoa, são um enfeite que deve ser usado por quem quiser e como quiser.

Daiane Cardoso, que também é colaboradora da revista saiu da maternidade usando brincos e durante a vida toda só usava coisas delicadas, não porque gostava, mas porque cresceu ouvindo a opinião dos outros. Hoje ela gosta de brincos grandes e coloridos. Nossa editora Clara Browne não teve as orelhas furadas. Ela até quis, mas teve uma infecção e hoje só usa brincos de pressão. A Dani, que teve sua história contada no começo do texto, hoje nem tem mais furos e não tem nenhum problema com isso. Eu acho brincos lindos, mas uso só quando quero e como quero e tenho quase certeza de que, se não tivesse nenhum furo, não ia fazer a menor diferença.

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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