24 de novembro de 2015 | Colunas, Educação, Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Bullying não é brincadeira! E a escola nessa história?

A escola é (seria, se todos tivessem acesso à educação) o lugar em que vamos descobrindo quem nós somos. Desde a música que gostamos de escutar, o esporte que gostamos de jogar, o estilo que queremos vestir, os amigos que convivemos e, claro, quais áreas de conhecimento queremos nos aprofundar. Entramos na escola crianças, ainda descobrindo o mundo, e saímos de lá adolescentes, quase ou já na maioridade. Isso quer dizer que as experiências que vivemos lá são muito responsáveis por quem nós somos e seremos. O problema é que isso nem sempre é uma experiência positiva e geradora de boas lembranças.

Tenho que assumir que a minha experiência na escola não foi das piores, alguns dos meus privilégios garantiram que eu não fosse o principal alvo das tais “zoações” adolescentes que, geralmente, giram em torno dos pontos frágeis de cada um(a) e das opressões enraizadas na sociedade. Mas parar, hoje, pra analisar as nossas relações naquela época (que pra mim já faz uns anos mas sei que ainda acontece do mesmo jeito), me fez enxergar alguns fatos assustadores.

Durante a vida toda somos incentivadas à competição. Os aspectos dela podem ser diversos: o corpo, o desempenho na escola, a popularidade, os gostos e muitos outros… Na adolescência isso se intensifica, e a melhor forma de lidar com as diferenças ainda não é muito bem entendida. Não sabendo como lidar, não nos utilizamos da seriedade e responsabilidade necessárias. A “zoação” com o colega de classe, por qualquer motivo que seja, pode parecer uma brincadeira inofensiva pra quem faz, mas é, na verdade, uma forma que desenvolvemos de diminuir o outro pra que a gente se sinta melhor e superior, além de poder trazer consequências profundas a quem sofre com essas atitudes.

Eu pedi às pessoas no meu Facebook que me contassem suas experiências na escola e pude tirar daí algumas coisas importantes. A grande maioria dos relatos não é de brincadeiras bobas que poderiam ser relevadas. A maioria conta sobre casos de racismo, misoginia, LGBTfobia, gordofobia, xenofobia, opressões estruturais da nossa sociedade. Isso quer dizer que as crianças aprendem, dentro ou fora da escola, a seguir o padrão que nos é estabelecido e, assim, reproduzem essas atitudes segregadoras e opressoras, que passam bem longe de ser brincadeira. Só é brincadeira se todo mundo ri junto. Nesse momento da vida, porém, a gente ainda não sabe muito bem sobre o quão sérias são essas opressões e, apesar de sabermos que é errado e que nos machuca, não sabemos bem como pedir ajuda, temos medo. E aí entra outra questão essencial. Dos colégios particulares aos públicos, dos mais conservadores aos mais alternativos, uma coisa é certa no relato de pessoas que sofreram com bullying e opressão no colégio: a falta de apoio. Na grande maioria das vezes, professores, direção e até os próprios pais tratam as opressões vividas na adolescência como parte da vida e da convivência nessa idade. Assim, ou estes casos são tratados como meros acontecimentos disciplinares, resolvidos com uma advertência ou suspensão escolar, ou são simplesmente ignorados.

Bom, se a escola é espaço de formação de crianças e adolescentes, qual deve ser o papel dela enquanto instituição nas relações entre as/os estudantes que a frequentam?

Como a gente já falou, um dos fatores marcantes para a violência entre estudantes na escola acontecer e permanecer é a omissão das pessoas responsáveis. Professores e diretoria, antes de tudo, precisam tratar com seriedade esses casos (o que a gente vê que não acontece muito por aí). Em paralelo, muitas vezes, as agressões vêm justamente de quem deveria estar do nosso lado. Afinal, não é porque são professoras ou gestoras, que essas pessoas estão livres de reproduzir e exercer violências. Eu acredito que é importante entender a escola como espaço de formação acadêmica e também social. Saímos dela cidadãs e cidadãos para o mundo e a escola precisa exercer o seu papel de formadora de pessoas. O espaço da escola é espaço de convivência, é espaço de construir relações e isso precisa ser um aprendizado também. É dever da escola agir e apoiar estudantes oprimidos, ela deve ser um lugar seguro, de construção e desconstrução. Talvez, assim, saíssemos dela um pouco menos machucados e traumatizados, ou menos agressivos e intolerantes, o que, com certeza, reflete diretamente na vida da sociedade em que vivemos.

Por isso tudo, a disputa do espaço escolar é necessária, de todos os lados, para que esse seja um espaço mais justo e seguro pra todos. O que acontece na escola hoje, pode acontecer (pior) na rua amanhã. Então, como fazer desse, na prática, um espaço que vai muito além de ensinar disciplinas pré-estabelecidas? Acompanhamento psicológico real para agredidos e agressores, espaços de debate sobre as questões sociais, liberdade e autonomia para que os estudantes se organizem e tenham seus próprios momentos de troca e debate podem ser formas de fazer um ambiente menos propício ao silenciamento das violências. (Mas, infelizmente, não resolve tudo.)

Sofrer bullying e opressão na escola não é brincadeira, não é pra ser deixado pra lá. A sua dor não é irrelevante. As relações que construímos nesse momento de nossas vidas nos marcam, muitas vezes, para o resto dela e, se for de forma negativa, pode nos causar muita dor e dificuldade mais pra frente. Tratar com seriedade e garantir a segurança das/dos estudantes dentro da escola é papel essencial de cada um que a ela constrói. Afinal, é nosso esse lugar.

OBS: Muito obrigada às amigas e amigos que dividiram seus relatos comigo. Foi essencial para entender melhor as diferentes (e, várias vezes, absurdas) experiências vividas nas mais diversas escolas. Força a todos que ainda vivem essas marcas, vocês são incríveis.

Isabela Peccini
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão

O nome é Isabela, mas os apelidos são variados, sintam-se à vontade. Quase arquiteta e urbanista pela UFRJ. Mas não se engane, não vou fazer a sua casa ou a decoração da sala. Objeto de estudo: cidade, sempre pelos olhos da mulher. A minha cidade? Rio de Janeiro, uma relação de amor e ódio. Militante no movimento estudantil desde que me lembro e feminista porque não dá pra não ser, o feminismo te liberta!

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