1 de outubro de 2014 | Tech & Games | Texto: | Ilustração:
Bye-bye, Orkut!
Ilustração: Isadora M.

Ilustração: Isadora M.

Alerta: suspiros exagerados, senso crítico afetado pela nostalgia e vergonha alheia. Leia por sua conta e risco.

30 de setembro de 2014 (aka “ontem”) foi um dia de despedidas. O Orkut, que entre 2004 e 2011 foi a maior rede social em presença de brasileiros, finalmente foi desativado após uma redução cada vez maior no número de usuários, perdidos para redes como o Facebook. Nos últimos dias, quem caminhou pelo Velho Oeste poeirento e digital das comunidades fantasmas do Orkut talvez tivesse dificuldades de se lembrar do quão movimentadas, barulhentas e cheias de zoeira eram as alamedas da agora finada rede social.

O Orkut marcou tanto uma época que há quem tenha voltado para ele nos últimos segundos, apenas para olhar nos olhos do Criador enquanto os aparelhos eram desligados. E, então, foi-se. Deixou saudades…

Mas nada de tristeza! Vamos passar juntas por todas as etapas do pesar e da perda deixada pela nostálgica rede social e relembrar as cinco coisas mais legais (e insólitas) que deixaram suas marcas na primeira década dos anos 2000. De quantas você se lembra?

5. “A sorte vem ao seu encontro…”

Quem precisava de Susan Miller quando se tinha a sorte do dia? Nossa geração perdeu uma fonte instantânea de previsões inúteis e dicas genéricas. O que nos restará num mundo sem doses diárias de pílulas de sabedoria como “O vício de hoje pode se tornar a virtude de amanhã”, “Todos ganham presentes, mas nem todos abrem o pacote”, ou o sempre clássico: “A pessoa que lê sua sorte foi demitida. Enquanto não contratamos outra, visite o álbum de um amigo”? Mau-caratismo, é isso o que nos restará. 

4. O que falar dessa pessoa que mal conheço e já considero pakas?

No Orkut todo mundo era amigo. No Orkut todo mundo era maneirão. Você conhecia alguém hoje no cursinho de inglês e amanhã já tinha um depoimento de duas páginas fresquinho te esperando. E se a pessoa gostasse muito de você, era capaz de tu ser premiada com uma borboleta feita só de caracteres. Coisa phyna. E era bom preparar o lencinho, porque aquela pessoa mal te conhecia e já te considerava pakas mesmo: o que não faltavam eram mensagens melosas pedindo para você “nunca deixar de ser essa pessoa maravilhosa”, te dizendo o quanto você parecia especial (pelos dez minutos que ela conversou com você) e como tudo indicava que seríamos melhores amigas para sempre. Com o Orkut, todo dia era aniversário! (E todo aniversário era “carnatal” no seu scrapbook.)

Rolou até uma lagriminha aqui.

Rolou até uma lagriminha aqui.

O único problema era quando alguém mandava uma mensagem particular por depoimento como se fosse um inbox e a outra pessoa aceitava, tornando ela pública.

Ops?

3. Todo mundo era legal, sexy e confiável (Mas só add com scrap)

Aaah, os meus fãs… *suspira*

Sempre que adicionava alguém como amigo, você tinha a opção de dar “pontos” para essa pessoa, e quanto mais melhor: cubinhos de gelo significavam que a pessoa era legal (cool), smiles que ela era confiável, e muitos corações eram a marca dos reis e das rainhas da pegação. Ostentação pura. Além disso, a gente não conversava por mensagens, mas por scraps, que – e isso foi um escândalo na época – ficavam completamente abertos pra quem quisesse olhar. Tinha quem apagava assim que lia, tinha quem só adicionava aos amigos com scrap, tinha quem mandava vírus e tinha, claro, quem escrevia mensagens motivacionais multicoloridas que matariam de inveja a sua tia que manda PowerPoints por e-mail.

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pRA vCC tB XuUuUXuuUUUu!!!!11!!1

Anos mais tarde, quando começaram a aparecer aplicativos compatíveis com o Orkut, surgiram os BuddyPokes, avatares virtuais que mandavam beijinhos, entregavam flores e batiam nos seus amigos (ou desafetos) por você. Todo mundo PRECISAVA ter um. Lembro de certo dia, nos primeiros períodos da faculdade, estar andando no corredor e ouvir um colega discutir com outro: “Eu te pokeei, mas tu não me pokeou de volta. Achei sacanagem da sua parte.”

Vacilo mesmo, amigo. Vacilo.

2. Ele era fofoqueiro

Mas isso pegou todo mundo de surpresa.

Se o Orkut fosse um país, seu esporte nacional seria o stalkeamento à distância. Num dia você estava lá, de boa, na página do gatinho ou da gatinha, olhando seus scraps e cada uma de suas comunidades. No outro, o horror, o horror: o maldito Orkut tinha mudado suas políticas de privacidade sem falar com ninguém e agora mostrava para o mundo inteiro (e para a pessoa stalkeada, claro) que você tinha passado sábado à noite olhando cada uma de suas fotos enquanto comia pipoca. Aaaaaaaarghhh!

1. Eu odeio acordar cedo… mas amo as comunidades do Orkut!

Mas o Orkut não deixaria as saudades que deixa se não fosse por suas comunidades ridículas e hilárias. Acho que em algum momento a ideia era que esse fosse um recurso sério, mas não demorou nada para que absolutamente TUDO fosse motivo para se entrar numa comunidade. Precisava dizer ao mundo que os stalkers também amam? Queria que Malhação tivesse uma hora? (Socorro.) Tirar do coração o pavor que tinha do plantão da Globo? Assumir sua obsessão por dizer a verdade? Pode tudo no Orkut. É verdade que várias comunidades mais, erm, úteis continuaram a funcionar até o fim, mas vamos ser sinceras: a alma do negócio era dizer que se amava unicórnios. (E então corrigir os colegas menos instruídos.)

E vê se larga do recalque.

Olha, esse recalque te caiu tão bem!

Apesar do besteirol (ou por causa dele), muitos acabaram se tornando amigos, peguetes ou namorados através das comunidades. E quem não se lembra dos Orkontros, encontros de grupos de pessoas que tinham se conhecido pelas comunidades? Hordas de adolescentes de franja caindo nos olhos, lacrimosa, cabelos coloridos e roupas pretas… *suspiro* Desde então os shoppings nunca mais foram tão legais.

Apesar de ter deixado de existir como rede social, o Google (que é dono do Orkut) decidiu manter o arquivo das comunidades aberto para quem quiser matar as saudades de vez em quando. É só entrar na página oficial.

E você? Do que mais vai sentir falta no bom e velho Orkut?

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Vanessa Raposo
  • Coordenadora de Tech & Games

Vanessa é carioca, mas aos 25 anos sente que o mundo é grande demais para se pertencer a só um lugar. Por isso, passa boa parte do tempo em paisagens imaginárias e planejando suas próximas viagens - que podem ou não acontecer (“As passagens pra Plutão ainda estão disponíveis, moço?”). Gosta de filmes da Disney e de musicais mais do que dizem ser aconselhável para sua idade. Quando não está pseudofilosofando sobre o papel dos videogames na cultura pop, pode ser encontrada debruçada sobre seu laptop, arrancando os cabelos por alguma história que cisma em não querer ser escrita. 

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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