5 de outubro de 2015 | Edição #19 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Cabelo crespo não cresce?

A primeira vez que meus cabelos foram submetidos a um alisamento químico foi quando eu tinha 5 anos de idade, sendo que passei quase vinte anos da minha vida sem ver meus cabelos em seu estado natural. 

Durante todo esse tempo, passei por diversas situações nas quais a minha autoestima foi profundamente marcada pelo olhar do outro sobre os meus cabelos. Uma delas, e que serviu como ponto de transição na minha vida, foi ter descoberto que duas colegas de trabalho – que eu pensava serem minhas amigas – usavam diversos apelidos racistas, baseados no meu cabelo alisado, para se referirem a mim. A minha primeira reação foi chorar muito… Muito… MUITO!!! Até que cheguei a uma importante conclusão: eu não alisava meus cabelos porque queria, mas sim para satisfazer o olhar de outras pessoas.

Foi quando decidi raspar a cabeça. Sim, eu passei máquina no meu cabelo, deixei ele bem curtinho. Estava determinada a descobrir como ele era, como era a sua textura, como ele crescia. Antes, eu acreditava que o alisamento era a minha única escolha. Mas a verdade é que eu nunca fui feliz com os cabelos alisados e sempre senti a minha vida limitada por eles.
 
O QUE A MÍDIA E A SOCIEDADE NOS ENSINAM SOBRE CABELOS

Na nossa cultura, somos ensinadas desde muito cedo que a imagem é tudo, e que é a partir dela que o valor de uma mulher é construído. Pode ser sobre o peso, a cor da pele, as roupas: os outros sempre vão ter regras e expectativas sobre a beleza feminina. E, se você se afastar dessas regras restritas, torna-se sinônimo de feiura. As meninas aprendem como sua aparência deve ser e como devem se comportar, pois apenas assim seriam amadas e felizes.

E os cabelos estão entre as características mais observadas e julgadas em uma mulher. As atrizes e modelos famosas, que são capas de revistas e estrelas de TV, têm, em sua grande maioria, uma coisa em comum: os cabelos lisos (ou no máximo ondulados) e longos.
Nós, mulheres negras, enfrentamos falas e olhares preconceituosos sobre nossos cabelos desde a infância. Somos convencidas de que com o alisamento e o volume controlado ficaríamos mais bonitas e mais próximas do modelo ideal propagado pela mídia, e o alisamento dos cabelos passa a ser visto como uma “obrigação”, não apenas vontade ou gosto pessoal.

Não é incomum ver famílias passarem, de geração para geração, a rejeição ao cabelo crespo. Muitas de nós, ao assumirmos nossos cabelos naturais, já ouviram de nossas próprias mães coisas como “você não vai arrumar esse cabelo?” – sendo que arrumar, nesse contexto, é sinônimo de alisar.

A mudança, para quem assume os cabelos crespos, não acontece apenas externamente. É uma mudança que envolve o (re)conhecimento do próprio corpo e a (re)construção de uma identidade.

Toda mulher negra com os cabelos naturais está assumindo uma posição política contra o racismo, tenha ela consciência disso ou não. O cabelo crespo, com seu volume natural, sem o uso de artifícios para o “controle dos fios” é uma bandeira contra a discriminação e os padrões estéticos impostos às mulheres negras.
 
CABELO CRESPO CRESCE SIM!

Existe uma característica que é indissociável ao cabelo crespo: o volume. Para quem está deixando o cabelo crespo crescer, uma das primeiras constatações é que ele cresce para cima e para os lados, e não para baixo. E volume chama atenção! Infelizmente, é frequente que mulheres de cabelos crespos percebam olhares, ouçam piadinhas e até sejam surpreendidas por mãos de pessoas desconhecidas em suas cabeças.

Nossos cabelos são volumosos porque crespos podem encolher até 75% de seu comprimento, sendo que alguns padrões de crespos encolhem menos. O encolhimento pode ser frustrante, pois ele esconde o tamanho real de nossos cabelos. O cabelo crespo cresce na mesma medida do que o cabelo liso. A diferença é que o nosso crescimento é mascarado pelo encolhimento.
Antes, o tamanho aparente dos meus cabelos era algo que me deixava muito incomodada. Eu buscava dicas, produtos e tutoriais para reduzir o volume e o encolhimento e para mostrar que o meu cabelo estava crescendo, sim! Nessa época, fazia uso constante de finalizações que ajudam a reduzir o volume e mostrar mais o cumprimento do cabelo, como a fitagem, os “twist outs” e “braid outs”. Chegava a passar uma hora e meia no processo de finalização para atingir resultados que eu considerava melhores.

Caso você esteja insatisfeita com o fato de que seus cabelos encolhem, como eu estive, é importante pensar o porquê disso. Será que o problema é mesmo o encolhimento, ou será que o problema é a nossa concepção do que é um cabelo bonito? Compreender os reais motivos para a sua insatisfação ajuda no caminho da aceitação.

Cada uma de nós tem uma motivação diferente para deixar os cabelos crespos naturais. Entretanto, tem uma coisa que deve ser nosso ponto comum nesse processo: aceitação ao nosso cabelo como ele é. Aceitar o encolhimento é bom para a autoestima e é bom para a saúde do cabelo.

FATORES QUE AUXILIAM UM CRESCIMENTO SAUDÁVEL
 
Caso você esteja no processo de deixar o seu cabelo crespo crescer sem alisamentos, você tem que ter em mente algumas coisas:

  • Você precisa ser paciente. O cabelo crespo cresce na mesma velocidade que o cabelo liso. Mas, em razão do chamado “fator encolhimento”, ele parece ser mais curto do que realmente é. Cuide do seu cabelo, dê atenção e carinho que ele vai crescer!
  • O volume não é um problema. É melhor fazer do volume um aliado do que brigar com ele todo o tempo. Use o volume para fazer penteados diferentes, coloque enfeites e laços para valorizá-lo. 
  • Não existem receitas mágicas. O seu cabelo não vai crescer milagrosamente com medicamentos, produtos químicos ou produtos veterinários, e essas substâncias ainda podem colocar a sua saúde em risco!
  • Não espere que seu cabelo seja igual ao de outra pessoa. Seguir dicas de outras crespas pode ser legal, mas lembre-se sempre que seu cabelo é único e tem texturas e necessidades únicas.
  • Seu cabelo precisa de carinho. Tente identificar as necessidades do seu cabelo, tente descobrir se ele está poroso, ou ressecado, ou oleoso, ou elástico… Para cada problema, há uma solução diferente. E os produtos naturais (óleos, frutas, azeite, mel…) podem te ajudar a resolver alguns deles. Depois, reserve um tempinho na sua semana para cuidar dos seus cabelos.
  • Às vezes é preciso buscar ajuda. Caso o seu cabelo ou couro cabeludo esteja precisando de cuidados maiores, procure um dermatologista. Às vezes não é possível resolver tudo sozinha… Em caso de queda, coceiras, casquinhas no couro cabeludo, é importante procurar um médico.
  • E, a última e mais importante dica: AME O SEU CABELO CRESPO! ELE É LINDO! 🙂
Gleice Cardoso
  • Coordenadora de Sociedade
  • Conselho Editorial
  • Colaboradora de Se Liga

Nascida e criada em Belo Horizonte - MG, é psicóloga e trabalha com pessoas em situação de risco e violação de direitos há quase 10 anos. Mulher negra, só descobriu a força de identificar-se como tal há pouco tempo, pois cresceu acreditando que era "moreninha". Tem duas gatas e um cachorro, mas queria ter 30 de cada. Tem vontade de comer sorvete todo dia (menos de manga) e faz crochê pra relaxar.

  • Michele Maximo

    Parabéns Gleice… me lembro de vc se posicionando nas redes, mas não sabia que vc havia inclusive raspado o cabelo… vc é luz sabia… bjos! Um ATO muito marcante!

  • Mila

    Texto perfeito! Só discordo da tag “raça” não acredito que esse termo deva ser usado para humanos. Dentro dessa divisão de raças no Brasil seríamos majoritariamente vira latas. Eu pelo menos sou.

  • Letícia G. Forster

    Lindo post! Me identifiquei muito e sonho com o dia que vou poder me libertar assim!

  • Roberta Galiotto

    Os cabelos crespos são os mais lindos <3

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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