14 de agosto de 2014 | Ano 1, Edição #5 | Texto: and | Ilustração:
Caça aos vermelhos: a censura na ditadura militar brasileira

OVermelhoNaDitadura-JordanaAndradeIlustração: Jordana Andrade

Texto por Helena Zelic e Natália Lobo

Em 1964, uma coisa diferente aconteceu no Brasil. Tem gente que chama de golpe, tem gente que chama de Revolução de 64. Nós chamaremos de golpe, porque não achamos que uma revolução aconteceu. Ou seja: não foi o povo que se uniu e, rebelando-se contra o governo, construiu uma nova sociedade. Muito pelo contrário. As forças militares, junto às elites brasileiras, se uniram, derrubaram o governo escolhido democraticamente e ali se impuseram. Não foi uma revolução, porque o acontecimento de 1964 foi um retrocesso, que durou até 1985.

Revolução é o que aconteceu, por exemplo, em Cuba. Lá, uma guerrilha foi formada contra o ditador Fulgêncio Batista, e depois, em 1959, foi formado um governo revolucionário que tomou medidas como construção de casas populares, extenso plano de alfabetização da população, iniciação da reforma agrária, nacionalização das empresas (ou seja, torná-las públicas, pertencentes ao Estado cubano) e bancos norte-americanos que estavam na ilha, e várias outras coisas. Tudo virou de cabeça para baixo, e mudou para melhor.

Mas vamos voltar ao Brasil! Com o golpe, eram os militares que mandavam. Controlavam de tudo. Diziam estar fazendo bem pro país, com um marketing metido a bacaninha, mas na verdade só o que queriam era manter toda a população controlada. Diziam: “Brasil, ame-o ou deixe-o”, o que, se formos parar para pensar, é um absurdo, pois assim eles sugeriam, àqueles que estivessem insatisfeitos, que abandonassem o país – muitas vezes, à força.

Durante este período da nossa história, houve perseguição à cor vermelha. Sim, perseguição a uma cor, por mais estranho que isso seja. Tudo porque o vermelho é a cor do comunismo. O professor de geografia Antônio Rodrigues, que dava aula durante o período da ditadura, relata que precisava esconder seus livros na casa da sogra, entre o teto e o telhado, para que a polícia não os levassem. Mesmo assim, em um dia que invadiram sua casa, levaram um livro apenas por ter a capa vermelha. “Deviam achar que era O livro vermelho, do Mao”, ele diz.

Mas então, se a cor do comunismo fosse, por exemplo, azul, o governo perseguiria, com todo seu aparato, a cor azul? Sim. A cor vermelha, no entanto, já estava consolidada não só como a cor dos comunistas, mas também a dos rebeldes, dos insatisfeitos, a cor dos partidos e organizações de esquerda, que lutavam pelo fim da ditadura militar. Isso porque, além da cor (grande coisa, uma cor!), também se consolidavam esses movimentos, com sindicatos, centrais de trabalhadores, associações de bairro, núcleos de mulheres, agremiações de estudantes. As manifestações eram enormes, e teve até uma que ficou conhecida como Passeata dos Cem Mil, porque contou com a presença de mais ou menos cem mil pessoas juntas, nas ruas, no Rio de Janeiro, em pleno 1968 — ano passado também rolou uma segunda Passeata dos Cem Mil, em São Paulo, durante a luta contra o aumento da tarifa de ônibus, mas aí já é outra história!

Aí você se pergunta: “Mas se tinha toda essa gente organizada, por que não acabaram logo com essa palhaçada de ditadura?”

Olhando de longe, aqui, depois de cinquenta anos, parece fácil e lógico que isso aconteça. Mas, se de um lado havia o povo organizado, do outro havia todo um núcleo de pessoas poderosas que mandavam em tudo. Mandavam, inclusive, jogar livros de capa vermelha fora. E isso é o de menos: mandavam torturar, sequestrar, matar pessoas. Mandavam calar todo mundo, mandavam parar a circulação de mídias rebeldes, deixar que os camponeses ficassem sem terra para cultivar, que os povos indígenas fossem assassinados sem dó nem piedade, que fossem instituídas matérias sobre moral na escola, entre outras coisas terríveis.

Se você já tiver lido ou assistido a Fahrenheit 451 (o livro é do Ray Bradbury, o filme é do François Truffaut), vai se lembrar da supermarcante cena em que os policiais queimam todos os livros dos cidadãos. Isso mesmo que você leu: eles queimam. Tudo. A história se passa em um tempo e espaço imaginários, de ficção, mas existem registros de vídeo que mostram a mesma coisa acontecendo aqui no Brasil. Os militares apreendendo uma montanha de livros “subversivos” de outras pessoas. Isso se chama censura.

O que essas pessoas todas deveriam fazer? Tirar as bandeiras, as camisetas, os livros, os panfletos, as faixas vermelhas de suas casas e fingir que estava tudo bem? Alguns não tiveram escolha, a perseguição era tamanha que acabaram fazendo isso. Outros não abriram mão e continuaram, apesar de todos os riscos, e se o Brasil é hoje um país melhor, é também por causa dessas pessoas que não abriram mão. E apesar de hoje nós vivermos em uma democracia (com todos os seus problemas e falhas) e termos uma vida bem melhor do que as pessoas tinham na época da ditadura, algumas coisas não mudaram muito, como a forma com a qual a polícia repreende o povo periférico, as manifestações populares e como os julgamentos das pessoas presas são feitos — geralmente, muitos desses julgamentos envolvem, inclusive, racismo, machismo e quase um ódio à gente pobre.

Recentemente, durante uma manifestação, a Polícia Militar de São Paulo apreendeu um livro de um manifestante. Que livro era? Marighella, biografia sobre o militante que lutou contra a ditadura. Ou seja…

+LINKS SOBRE O ASSUNTO

Documentário: Marighella

Clipe: Mil faces de um homem leal (Racionais Mc’s)

Filme: Farenheit 451

Filme: O ano em que meus pais saíram de férias

Filme: Cabra cega

Documentário: Utopia e Barbárie

Site: Armazém Memória

 

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

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