14 de agosto de 2014 | Artes, Literatura | Texto: | Ilustração:
Caixinha de guardar arte
Ilustração de Helena Zelic

Ilustração de Helena Zelic

Desde um certo trecho do meu Ensino Fundamental, decidi que ia levar as artes que absorvia como parte de uma construção própria. Quero dizer, não decidi com essas palavras, eu obviamente nem sabia falar assim, mas no fundo era isso o que queria. Por isso, arranjei uma caixinha de madeira, pintei, repintei, deixei ela toda do meu jeito, e comprei cartõezinhos de fichamento, desses de papelaria mesmo.

O primeiro livro que eu li, após essa pequenininha atitude, foi Zorro, da Isabel Allende, em julho de 2007 – isso já faz sete anos. Lembro que me senti muito madura lendo a história daquele meio-herói-meio-bandido por alguns motivos:

– porque o livro tem mais de 400 páginas, ou seja, não era livro de criança;

– porque é da Isabel Allende, sobrinha do Salvador Allende, o presidente deposto na ditadura do Chile;

– porque havia outros livros dela na estante da minha avó, que é uma estante de livros “de adulto”.

Logo que acabei, corri para minha caixinha e preenchi uma das fichas ali presentes. Nome, autora, editora, número de páginas, data de leitura e uma historinha. Ok, talvez eu tenha sido metódica demais esses anos todos (talvez não, com certeza), mas uma coisa é certa: desde então, uma trajetória diferente se montou ali. Sei como eu era em cada uma das épocas de cada livro, e isso é importantíssimo. Se sei que mudo o tempo todo, em transformação constante (aquela história do rio que nunca passa duas vezes pelo mesmo lugar), sei também que não cresci sozinha, por mim mesma. Isso veio do que aprendi e do que experimentei.

Em 2010, experimentei Graciliano Ramos. Em 2011, Eduardo Galeano. Em 2012, Cortázar, em 2013, Jorge Luis Borges, e tantos outros e outras nesses vários anos. Todas as vezes que lemos algo encantador, que vamos a um filme, peça, show, sarau, ao que quer que seja, alguma coisa acontece. Nós sabemos que acontece, porque sentimos acontecendo. Só não sabemos qual o nome disso. Eu também não sei, mas tenho alguns palpites (para não dizer chutes): a gente soma, a gente incorpora. E ainda que seja uma porcaria de livro, de filme, de sei lá o quê… a gente mesmo assim incorpora, leva para a vida, para os próximos passinhos que vamos dar nesse mundão.

A caixinha agora já está meio velha, a pintura saindo, a madeira lascando, mas dentro dela está nada mais, nada menos do que um pedacinho da minha vida. Ando um pouco nostálgica, confesso, e talvez por isso tamanha empolgação. Mas acontece que esquecer dá um medo, sabe? Isso de deixar passar. Eu não gosto de deixar passar. Eu gosto que as coisas, as formas, os fatos se transformem todos em memória. E nada melhor do que uma caixinha velha, com ares de criança, para guardar toda essa memória.

Este ano percebi, vendo as fichas dos livros lidos, que foram poucas as minhas escritoras. Agora estou lendo, bem aos pouquinhos, três livros ao mesmo tempo:

Backlash: o contra-ataque na guerra não declarada contra as mulheres, da Susan Faludi

Poética, da Ana Cristina Cesar

Arlington Park, da Rachel Cusk

Quando terminá-los, uma coisa é certa: seus nomes irão para a caixinha velha.

E mais: tenho certeza absoluta que, então, não serei mais a mesma que hoje vos escreve. Acho que continuo crescendo.

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Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

  • Amanda Venicio

    que ideia boa <3

  • Verônica Vilela

    Que amor menina helena! Eu também sou a louca das catalogações e isso me faz bem. A memória é uma fdp traiçoeira.

  • Brenda Oliveira

    Que maravilhoso!!!
    Eu faço isso também, mas em relação aos livros eu só escrevo seus nomes numa listinha e com o passar do tempo releio a lista e vejo meus antigos gostos literários.
    Mas, o que mais gosto de fazer é escrever os planos para o futuro. Toda vez que vejo uma nova possibilidade, anoto e releio o que tinha escrito aos 15, 16, 17…. É interessante saber quais eram as profissões, os empreendimentos que desejava para o futuro nessas idade. Hoje, percebo que algumas coisas eram bem loucas e outras não tenho mais coragem de seguir em frente, infelizmente.
    Bom, obrigada por compartilhar essa experiência linda de vida. Sucesso. Beijos

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Que coisinha linda, vou fazer uma também!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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