21 de março de 2015 | Ano 1, Edição #12 | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
Capacitismo: discriminação das pessoas com deficiência

Capacitismo é a discriminação direcionada às pessoas com algum tipo de deficiência, dada sua condição. Primeiro de tudo, vamos esclarecer um ponto: é ofensivo chamar uma pessoa com deficiência de “deficiente”. Pare um momento para refletir o uso desse termo. Você está resumindo a pessoa por uma condição física que ela possui. Você escolhe um aspecto daquela pessoa e utiliza como definição dela enquanto ser. Apenas parem, por favor, já passou da hora.

Na Convenção Internacional para Proteção e Promoção dos Direitos e Dignidade das Pessoas com Deficiência, ficou decidido que o termo a ser utilizado seria “pessoas com deficiência”. Conforme a Portaria nº 2.344, de 3 novembro de 2010, da Secretaria de Direitos Humanos, em seu art. 2º, inciso I, o termo passa a ser “pessoas com deficiência”, seguindo a orientação da Convenção Internacional.

Até uns 30 anos atrás, era comum utilizar termos como aleijado, inválido, etc. Até que a ONU institui o termo “deficientes”, sendo alterado posteriormente por “portadores de deficiência”, até que chegamos no termo atual. Mas eu tenho certeza que até hoje você ouve aleijado e inválido por aí. E, no caso de pessoas com transtornos psicológicos, o uso de palavras como “louco”, “maluco”, “doido”, e assim por diante, ainda é, infelizmente, muito comum e naturalizado.

Aqui na minha cidade, Cocal do Sul, em Santa Catarina, temos um micro escolar com adaptações para que a cadeira de rodas suba por um elevador. Sabe como se referiam a este micro? “Cadeirantes”. Preciso explicar o quão errado isso é? É apenas um micro ônibus. São pensamentos e atitudes assim que, às vezes até mesmo sem a intenção, reproduzem capacitismo.

A sociedade, sempre tão apegada a um padrão, me diminuiu e me fez ter vergonha de mim mesma por precisar de ajuda de um objeto para andar. Não consigo contar quantas oportunidades eu perdi na vida, o quão complicado foi me formar na faculdade tendo que lidar, além de tudo, com uma cadeira que pifava ou furava os pneus e eu ficava sem minha mobilidade, com elevadores que não funcionavam, com rampas que eram obstruídas por carros. Não consigo contar quantos empregos perdi por não poder simplesmente pegar um ônibus e ir trabalhar, ou quantos não me deram a chance por terem que adaptar uma rampa ou por acharem que eu não sou capaz. Não sei contar quantas vezes deixei de ir em algum lugar, perdi show, festa, porque o local não é adaptado ou a cadeira não cabe no carro. Não sei contar quantas pessoas paravam na rua para perguntar não a mim, mas à pessoa que estava comigo sobre o que eu tenho, com tom de pena ou curiosidade. Quantas vezes fui vista como exemplo por superar as dificuldades, quando essas dificuldades foram criadas por esta mesma sociedade que me elogia. Não sei contar quantas vezes ouvi que é até bom que eu ganhe bastante dinheiro para me virar sozinha, porque é complicado eu conseguir um marido que vá me ajudar, é como se casasse com uma criança que precisa de ajuda e cuidados. E ano após ano, a sociedade me diminuiu e fez eu me diminuir, me sentir pior que pessoas “normais”, me sentir incapaz, como se estivessem certos. Cheguei a não entender o porquê de viver se tudo seria assim sempre.

Isso tudo me influenciou diretamente. Eu tenho vergonha de pedir ajuda, mesmo hoje que desconstruí boa parte dessa influência em mim. Eu não gosto de pedir ajuda porque acho que estou atrapalhando as pessoas. Eu tento amenizar minhas limitações quando estou com alguém, para que ele não veja o trabalho que é ficar comigo e não corra de imediato, então eu tento ao máximo segurar alguma dor que eu sinta caso esteja sentada desconfortável só para não pedir ajuda para me ajeitar, eu finjo que consigo levantar um copo de vidro e enrolo o tempo todo, acabando por passar sede, porque não quero que ele veja que não consigo nem levantar um copo.

Você vê o problema? Eu não tenho vergonha de usar cadeira de rodas porque tenho consciência de que não sou pior que ninguém, só estou sentada, só preciso de algo para me locomover. É uma cadeira! Uma cadeira! Isso me torna alguém pior? Por quê? Eu não entendo. Mas no dia a dia, eu acabo me diminuindo, desejando não ser tão debilitada, e eu mesma me enclausuro no preconceito que sofri a vida toda.

Ainda estou trabalhando muita coisa em mim, me aceitando. É um processo longo. Às vezes acho que é um processo vitalício. Mas quanto mais a sociedade joga seu capacitismo em mim, mais barreiras cria enquanto discursa bonito sobre como os “deficientes” são exemplos de superação. Superando o muro que eles construíram, tijolo por tijolo. Comecem a tirar os tijolos.

Desculpe, mas minha existência não é para lhe ensinar lições, saciar sua curiosidade ou servir de exemplo. É necessário e urgente darmos um basta na reprodução do discurso capacitista. Imediatamente. Se desejamos uma sociedade inclusiva, devemos abandonar comportamentos que somente segregam e excluem. Chega de capacitismo.

P.S.: Falei de um ponto de vista inteiramente pessoal, não posso falar por todas aquelas que são pessoas com deficiência, pois cada tipo de deficiência acarreta uma série de preconceitos capacitistas diferentes. Nem mesmo todas as pessoas que utilizam cadeira lidam com as mesmas barreiras, nem da mesma forma. Quando eu digo que eu não consigo filtrar todo o capacitismo que recebo, não quero falar em nome de todas as pessoas que usam cadeira de rodas. Quero ser positiva e crer que vocês conseguem filtrar melhor que eu, pois caso ainda não saibam: vocês são maravilhosas e capazes de tudo aquilo que realmente quiserem.

Priscylla Piucco
  • Membro do Conselho Editorial
  • Coordenadora de Relacionamentos & Sexo

Priscylla. Apaixonada por seriados, kpop, reality show ruim, Warsan Shire e as Kardashians. Odeio o Grêmio e cebola. Prazer, pode chamar de Prih agora.

  • Priscylla Piucco

    Se eles preferem, não posso jamais falar por eles. Sei da minha vivência. O que me refiro no primeiro parágrafo do texto é o uso dessa terminologia como forma de sintetizar a pessoa somente pela sua deficiência, como se ela fosse nada além de surdo. Assim como acontece com quem usa cadeira de rodas. Utilizar ‘surdo’ para definir o tipo de deficiência não sei dizer se é problemático, quem pode dizer são eles, mas pelo que você disse parece não haver problemas, mas usar ‘surdo’ para identificar a condição específica da deficiência e para resumir a pessoa são duas coisas bem distintas. Entende meu ponto?

    • Estrela da Manhã

      Entendi, sim, e concordo com a ponderação, Priscilla, obrigada!

      • Priscylla Piucco

        Imagina, querida! Obrigado por ter lido a matéria e dialogado comigo.
        Beijão!

  • Pingback: Feminismo e capacitismo |()

  • Adriana

    Não recebi o meu certificado do III Mini Concurso A Capitolina, até hoje. Por favor, envia-me.

    • http://www.revistacapitolina.com.br/ Revista Capitolina

      Perdão, mas não tivemos um Mini Concurso A Capitolina. Acreditamos que você está no site errado!

  • Adriana

    Tem algum concurso literário?

    • http://www.revistacapitolina.com.br/ Revista Capitolina

      Não temos. /:

  • Daiani

    Exato, Estrela. Sou surda e fazemos questão de sermos denominados surdos.

  • Daiani

    Sou surda e fazemos questão de sermos denominados surdos e inclusive, cegos e surdos, mesmo quando possuem um mínimo de visão ou de audição, decidimos se nos declaramos surdos/cegos, pq consideramos ser um estilo de vida. Então achei esse texto MUITO preconceituoso. Converse com os grupos antes de fazer um texto sobre achismo incluindo esses grupos e espalhando desinformação. Somos diferentes e não nos envergonhamos disso. Respeito sua condição, mas SUA experiência de vida não é a experiência de vida de pessoas diferentes de você, Priscylla.

    • Priscylla Piucco

      Nunca foi a intenção, Daiani, soar preconceituosa. Como você pode notar, foquei o texto para pessoas que usam cadeira de rodas pois tenho propriedade. Somente mencionei sobre outras deficiências no primeiro paragrafo, pois apesar de algumas se aceitarem, ainda há pessoas que estão em processo, e eu quis tirar o poder das não-PCD de decidirem sobre a denominação, mas sim a própria PCD. Você se orgulha de ser surda e isso é ÓTIMO, mas você tomou a rédea dessa denominação e disse que aceita e faz questão. Mas e a menina que ainda não se aceitou? Dar poder para outro decidir por ela é minar seu empoderamento. Foi com essa intenção que mencionei surdos, cegos e mudos. Eu já comentei aqui abaixo sobre e disso a mesma coisa: quem decide sua denominação está certo, o problema são os outros que usam o termo porque querer resumir a pessoa a algo que acham defeituoso para justamente diminuí-la, é aí que se encontra o capacitismo.

      Mas, de qualquer forma, removi a citação de outras deficiências, pois a última coisa que quero é gerar uma interpretação capacitista.

      Obrigado pelo comentário!

  • Fatine Oliveira

    Adorei seu texto, Priscylla. Me li nele, muito bom mesmo.

  • Paloma Barbosaa

    Não sei porque eu nunca tinha lido esse texto antes, mas moça que coisa linda. Eu ando de muletas há um tempão, e nunca me senti tão bem representada em um texto. É como se você desse voz a um pouco dessa frustração que é você ter que ouvir que “você é um exemplo”, sendo que meu deusss!! Eles criam toda essa sociedade bosta que é inacessível pra gente! De verdade, é lindo que você fale sobre isso, é informação pra quem não tem ideia de coisa alguma. MUITO OBRIGADA SUA LINDA <3

  • http://lounge.obviousmag.org/introverso/ Helena Silva

    Poxa, eu adorei entrar em contato com esse texto. Não só pelo conteúdo do mesmo mas também pelos comentários em relação às pessoas surdas. Na verdade eu estava pesquisando sobre o termo capacitismo pois ainda não conhecia. Tenho interesse em assuntos relacionados à pessoas com deficiência por ter 2 irmãos nessa condição, inclusive considero uma formação focada nessa temática. Muitas coisas que você expôs aqui me abriram os olhos para algumas questões às quais eu ainda não estava tão atenta. Simplesmente maravilhoso, pretendo até compartilhar isso com meus irmãos. Obrigada por esse texto.

  • Gilda

    Colaborando ao tema, também podemos ser capacitistas quando, sem nos direcionar a pessoa especificamente com deficiência ou algum transtorno/síndrome, usamos conceitos e palavras pejorativas para ofender quem NÃO TEM quaisquer necessidades especiais . Por exemplo, ao chamarmos alguém de “retardado”, “demente”, “débil mental” apenas no intuito e ofensa.

  • Gabriela Garcia Sola

    Acabo de me deparar com o texto e para mim foi um presente. Recebi o diagnóstico de Autismo(Asperger, conforme DSM-IV) ano passado e ainda estou digerindo o que significa isso, ser autista não me define por completo mas é um funcionamento cerebral diferente, é parte de quem eu sou, define meu “modus operanti”, como vejo o mundo, como o mundo me vê e ainda estou pensando o que fazer com a bagagem acumulada ao longo de 38 anos sem diagnóstico. Fiz um trabalho sobre cultura surda (sou gost writer por prazer) e conheci autistas pelo facebook, ainda não sei como me posicionar mas sinto que preciso florescer para mostrar às pessoas que não somos incapazes e principalmente, aos pais de hoje e à criança que eu fui, o quão longe podemos ir. É complicado pois ficamos sempre em cima do muro, de nos fecharmos em uma cultura própria, em nós mesmos ou em sermos incluídos quando nunca deveria ter ocorrido a exclusão…mas, o que eu queria dizer mesmo é, obrigada por dividir esse texto conosco! Cada um vai ler através de sua experiência de vida e sempre vai gerar dentro de cada ledor um movimento, sair da inércia é sempre bom. Obrigada!

  • Gabriela Garcia Sola

    A quem ler o texto e “criticar” a terminologia usada, pessoal: A Declaração de Salamanca, de 1994, e o que veio a seguir, fala em PCD, cada comunidade (seja por cultura, país ou deficiência/diferença) depois vai ter suas terminologias, nós autistas gostamos de falar em neurodiversidade, alguns aspergers, após o novo DSM (e, 2013 foi publicado o DSM-5), com o desuso da terminologia Síndrome de Asperger preferem continuar sendo chamados de aspies e não de autistas mas, para efeito de diagnóstico são autistas. Alguns médicos nos consideram portadores de desordens de desenvolvimento e a legislação, como portadores de deficiência, essa difereça terminológica, ainda que soe inocente, é crucial para nos garantir direitos básicos de acessibilidade e até em alguns momentos, de dignidade. Nomenclaturas à parte, não dá para englobar tudo em um único texto. A literatura e a legislação fala em PCD para todos, surdos, baixa visão, pessoas com problemas de mobilidade reduzida ou mental, seja intelectual ou não. Sejam menos agressivos ao lidar com escritores em textos não específicos daqui em diante, ok? Obrigada.

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