8 de abril de 2015 | Tech & Games | Texto: | Ilustração:
Capitolina Entrevista: Ana Freitas

4Chan: “Eu repito! Nós não toleramos pessoas com ideias diferentes!”

Ana Freitas é a jornalista que escancarou para a internet mainstream o machismo impregnado nos recônditos nerds do Chans… e foi perseguida por tê-lo feito. Ela recebeu uma série de ameaças, mensagens violentas e pacotes estranhos pelo correio. Aqui conta para nós como lidou com isso tudo.

Oi, Ana! Quem é você?

Vamos lá: eu tenho 26 anos, moro na grande SP, sou jornalista de formação e de atuação. Sou freela do Estadão, passei pela Galileu, pela VIP, pelo youPIX e já publiquei na Superinteressante e na Mundo Estranho, também. Ao longo dos anos, me especializei em cultura contemporânea, mais notadamente cultura digital – e viagem, também, já que trabalho como nômade há uns três anos, já.

Antes de tudo vamos situar quem não sabe do que a gente tá falando: explica pra quem nunca entrou num Chan quais são as dinâmicas ali dentro e como é a participação das mulheres nesse espaço:

Um Chan é um fórum de imagens e discussões de temas diversos que é completamente anônimo. Cada subboard é sobre um tema, e o /b/ é a board de assuntos gerais, o off-topic. O /b/ é geralmente o espaço mais hostil a mulheres na maior parte dos Chans, embora o Chan todo tenha problemas com mulheres. As regras variam, claro, mas alguns dos grandes Chans costumam bloquear usuários que se identifiquem como mulheres ou deem a entender que são uma. Além disso, existe uma cultura geral de que esses espaços são tolerantes a discursos de ódio – mais notadamente a machismo e misoginia, mas em alguns casos também a racismo, homofobia (em menor escala), antissemitismo, xenofobia. Cada Chan tem regras diferentes e essas noções não se aplicam pra todos eles, mas a cultura Chan de maneira geral flerta com frequência com esse tipo de discurso.

Quando e como você começou a frequentar esses espaços online? Qual foi sua impressão num primeiro contato?

Na real, eu nunca fui channer. Eu conheço esses espaços porque eu sou uma curiosa. Gosto de saber como os espaços virtuais e os grupos funcionam, uma vibe meio antropologia digital. Então eu sei que eles estão lá, sei como funcionam, e ao longo dos anos fucei o suficiente para entender a dinâmica e o vocabulário específico dos users. Mas nunca foi minha onda. Na adolescência, os fóruns de discussão em php (aqueles phpBB2) e algumas comunidades no Orkut, sim, eram minha praia; e em alguns deles, dependendo do tema – especialmente os de games/tecnologia/cultura pop –, tratavam mulheres de uma maneira que eu nunca gostei. Era tipo ou uma exaltação inexplicável (“Meu Deus, você gosta de games, quero casar com você!”) ou então machismo mesmo, a presunção de que eu era poser ou que tava ali para chamar atenção.

Em algum momento, ao longo desses anos como usuária, você considerou sua relação com os fóruns um lance saudável?

Houve, sim, espaços onde a coisa era tranquila. Fóruns de bandas, tanto no Orkut quanto independentes, costumavam tratar mulheres de igual pra igual, como deve ser, sem nenhum tipo de distinção. Nos outros espaços, mais nerds mesmo, eu acabei nunca me tornando usuária frequente justamente por esse tratamento bizarro.

O que te levou a escrever aquela matéria sobre o mundo nerd e o machismo? Você imaginou que a reação seria tão escandalosa quanto de fato foi? E quando foi que você percebeu que “poxa, tem alguma coisa errada”?

Eu li um texto gringo sobre o tema (um que eu até cito na minha matéria) e percebi que isso era uma verdade também no cenário brasileiro, que era real na minha experiência especialmente durante a adolescência e que eu nunca tinha visto ninguém falando disso no país. Achei que era uma pauta boa, e resolvi conversar com outras pessoas que eu conheço que participaram ou participam de espaços assim, homens e mulheres, e todos foram muito enfáticos sobre como existe nesses espaços uma cultura geral escrota, nociva pras minas. Daí vi que tinha mesmo algo aí, que dava para estruturar um texto. Entrevistei o pessoal, consegui uns prints e escrevi.

Eu sabia que rolaria uma reação especialmente por parte de um grupo de um Chan brasileiro que é especialmente complicado. Na minha matéria eu não falo de nenhum fórum específico, é uma observação sobre uma cultura geral, mas no caso desses caras, não é como se eles precisassem de um motivo super-racional para perseguir alguém.

Eu fiquei de olho nesse Chan e acompanhei toda a repercussão lá, só pra garantir que eu estaria um passo à frente de seja lá o que eles planejariam. A coisa ficou desagradável de verdade quando rolaram ameaças de violência física depois que eu confirmei, via Facebook, a participação em um evento. Eles viram e começou a rolar uma agitação, algo tipo “quem vai até lá dar um pau nessa vadia”.

Qual o tipo de justificativa desses caras pra esse tipo de comportamento? Você chegou a confrontar algum deles?

Olha, alguns deles dizem que eu estou errada por querer participar do fórum me identificando como mulher, que o Chan é um espaço anônimo e por isso não faz sentido eu querer me identificar. Esse argumento é obviamente insustentável porque ninguém sofre represália nos espaços por se identificar como homem, inclusive a presunção é de que todos sejam homens. Outros dizem que eu escrevi o texto porque quero atenção, porque minha carreira estava fracassada, coisas assim. Outros assumem que não precisam de motivo e que vadias como eu merecem se foder. Se eu for ser honesta, prefiro o último argumento, porque além de ele reforçar a necessidade do meu texto, é o mais honesto e incontestável dos três, porque é ódio infundado e não tenta se justificar com argumentações falhas.

Confrontei, sim, alguns meninos que fizeram comentários pra me ofender em posts na minha timeline. Em todos os casos, adicionei e puxei papo na boa, pra entender qual era a deles. Eram todos bem jovens, de uns 15, 16 até 20, 21. Um se fez de desentendido e disse que não sabia do que eu tava falando. Outro, mais jovem, deu conversa e depois que falou uma besteira e eu perguntei a idade dele ele disse que tinha 15 anos e estava “muito ocupado pra falar comigo”. Dois ou três foram honestos, tranquilos e legais: disseram que participavam do Chan, mas que não participaram da raid – o ataque, que organizou o envio de coisas pra minha casa, mas achavam tudo engraçado e por isso estavam acompanhando ou curtindo comentários escrotos. Conversamos sobre as minhas motivações pra escrever o texto (alguns, honestamente, não conseguem entender) e eu sobre as motivações deles pra serem trolls. Acho até que uns dois acabaram virando amigos e a gente interage pelo Facebook até hoje.

Na real, não me surpreendeu. É óbvio que a maioria ali é de caras normais, muitos com inteligência e perspicácia até acima da média, e com quem provavelmente eu até tenho vários interesses em comum – eu falo isso no texto. Mas tem uma minoria disposta a foder com a vida de alguém só pela “piada”, uma minoria que realmente odeia mulher e que pode acabar influenciando os outros jovens com esse discurso.

Qual foi o momento em que você decidiu tomar medidas e buscar amparo especializado? Quais foram elas?

Quando eles ameaçaram enviar coisas pra minha mãe e pros meus vizinhos.

Eu busquei ajuda de uma ONG de proteção a liberdade de expressão, que me orientou juridicamente. Fiz uma denúncia no Ministério Público Federal, que abriu um inquérito – já em andamento – pra investigar crimes de ameaça e injúria, além de fraude e de uso de informações profissionais sigilosas. E publiquei novos textos, expondo os tipos e o teor das novas ameaças que eu estava sofrendo.

Você ainda recebe ameaças? Ainda tem alguma coisa rolando ou a bola dos caras baixou?

Baixou, por enquanto. Mas não vou dizer que não me sinto vulnerável. Esse é o tipo de entrevista que, se alguém por lá ver e postar, pode voltar a me trazer dor de cabeça. Mas eu já decidi não ficar quieta sobre o que rolou, porque não é justo.

E o emocional por trás de tudo isso, como ficou? Rolou também um processo de empoderamento?

Hmmm, que pergunta boa, essa a do empoderamento.

Eu tive momentos em que fiquei bastante fragilizada e que isso tudo me desequilibrou, sim. Mas eu já faço análise, tenho uma rede de suporte incrível – de amigos, conhecidos e até desconhecidos –, e uma família também fantástica, e isso tudo me ajudou a voltar pro lugar.

E, sim, rolou um processo de empoderamento. Sabe quando a gente arranca um band-aid de uma vez? Às vezes eu sinto como se esse episódio tivesse sido isso. Foi muito intenso, muito esquisito de lidar, me fez repensar o que eu queria como jornalista, como feminista, como pessoa, me fez ter que lidar com monstros internos e inseguranças, uma série de coisas. E acho, sim, que saí disso tudo mais forte.

Agora, já com um certo distanciamento, qual o balanço você faz disso tudo? Dá pra colocar em perspectiva o que rola aqui e o GamerGate, os ataques à Anita Sarkeesian e Brianna Wu?

Acho que dá pra colocar em paralelo, guardadas as devidas proporções. Eu escrevi o texto primeiro porque tem um monte de minas que, como eu, sabia que tinha algo errado na maneira como éramos tratadas nesses lugares, mas como a gente normaliza o machismo, é difícil colocar em palavras. Saber que essa sensação tem nome e motivo empodera e desperta pro feminismo. E, em segundo, porque os pais precisam ficar atentos pros filhos que eles estão criando, porque os jovens tão aí, propagando discurso de ódio na internet, sendo trolls e passando revenge porn. Qual a nossa responsabilidade diante disso com nossos filhos, irmãos mais novos, sobrinhos? E, honestamente, pelos comentários e pela repercussão, acho que o texto chegou nos dois grupos e conseguiu despertar algo em pelo menos algumas pessoas.

Tem algum conselho de amiga pra deixar tanto pra quem tá pensando em botar a boca no trombone como você fez ou está passando por alguma situação abusiva relacionada ao meio virtual?

Putz. Hahahahahha.

Pra começar, se você sentir que precisa falar sobre algo, fale. Não se cale, porque as coisas zuadas acontecem desde sempre e o que é diferente é que hoje a gente tem mais voz pra falar sobre elas. Ao mesmo tempo, não se sinta obrigadx a falar de algo se você achar que sua saúde física ou mental corre perigo. Só a gente sabe onde o calo aperta.

E seja discretx nas redes sociais. Tipo, sobre as coisas que podem usar contra você em um possível ataque.

Se você tiver o azar de realmente vir a sofrer alguma violência virtual, registre tudo e denuncie. Se tiver grana pra contratar umx advogadx pra fazer a coisa andar, faça isso.

Leia aqui as matérias de Ana: Nerds e machismo: por que mulheres não são bem vindas nos fóruns e chans e ‘Mensagens diziam que o objetivo era não parar até que eu cometesse suicídio’

Carolina Stary
  • Ex-colaboradora de Tech & Games

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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