29 de janeiro de 2015 | Artes | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Capitolina entrevista: Criola

Hoje na coluna de arte entrevistamos a Criola, mulher negra, grafiteira e exemplo de empoderamento. Criola fala com tanta propriedade e força que dispensa qualquer introdução. Vem com a gente nesse rolê inspirador!

 

Você lembra de quando começou a se interessar por arte? Como você se descobriu no graffiti? Conta um pouco da sua trajetória pra gente!

 Então, não lembro exatamente a época que me interessei por artes plásticas. Mas o meu interesse por arte e por entender a arte surgiu quando eu ganhei uma bolsa para estudar numa escola de arte muito cara em BH. Eu não sabia desenhar nem bonequinho de palito. Lá eu descobri que qualquer pessoa pode fazer o que quiser, que tudo se aprende, que dom existe, mas a vontade de aprender te faz ter excelência. Lá eu convivi com pessoas de outra realidade bem diferente da minha quebrada. Eu pegava três ônibus pra chegar na zona nobre da cidade pra pintar quadros, na época nem eu entendia muito bem aquilo, só sabia que de alguma forma me fazia bem. O fato de eu ter convivido com pessoas de classe alta e com outra realidade de vida foi de certa maneira uma experiência sensacional porque pensei: quero aprender a técnica aqui, mas também trazer a realidade da quebrada de uma maneira crítica e transformadora para fazer a minha arte e tocar pessoas. Foi então que o graffiti surgiu. Eu já militava no Hip Hop há muitos anos e admirava muitos grafiteiros, mas pensava que pintar na rua era algo mirabolante e extremamente difícil – o que de fato é. Mas o que me fez começar a grafitar foi o amor que eu sinto pela rua e a vontade de vivenciar a rua da maneira mais real e ao mesmo tempo poética.  Graffiti é transgressor, é visceral e é mensagem direta. E eu, como mulher negra, escolhi esse elemento pra passar as mensagens que acredito de uma maneira que se reveste de inofensiva mas que não é. O sistema teme isso. Pintar negras nas ruas foi a maneira que eu encontrei pra impor a presença da estética negra em todos os lugares que eu quiser e puder. Isso é a minha arma, isso é empoderamento.

 Na sua página do Facebook, você fala bastante sobre representatividade da mulher negra. Por que você acha isso importante?  E o que você recomenda pra gente conhecer mais da cultura negra? Quais são as artistas que você admira?

 Acredito em exemplos. Pra mim a melhor maneira de ensinar algo é através deles. E o tempo todo a mulher é violentada ao ser mal representada. Ou pela mídia ou por homens ou por quem não a represente na essência. Então, ser mulher negra vai além de tom de pele, de  textura de cabelo etc. Ser mulher negra é principalmente ter postura, orgulho  e respeito pelos ancestrais que um dia tiveram sua liberdade cerceada por conta da sua origem africana. Por isso, acredito que quanto mais mulheres negras se sentirem bem representadas, mais mulheres negras se representarão da maneira que realmente são, e assim, serão exemplos pra outras. Acredito na história contada por quem viveu ou sofreu. Para uma criança negra, por exemplo,  é muito importante se ver representada positivamente nas revistas, na novela, nos jornais etc. Eu busco levantar essa autoestima através da construção dessa identidade negra. Somos lindas do jeito que fomos criadas. Quem definiu que cabelo liso é o cabelo bom? Quem definiu que cabelo crespo é difícil de cuidar? Quem definiu que mulher negra não pode usar o cabelo crespo em qualquer tipo de emprego? Temos que destruir todas essas “regras” estúpidas definidas por quem quer rebaixar a nossa estima. Por isso a representatividade da mulher negra é algo tão importante: porque vai no cerne da construção da identidade e da autoestima. Um povo que conhece a sua história, tem orgulho da sua história e da sua estética é inabalável. Encontrei no graffiti a maneira de resistir a tudo isso e propagar as mensagens que acredito.

Ultimamente tem rolado um debate importante sobre apropriação cultural e isso está muito relacionado com representatividade, né? O que você acha dessa questão?

Sim, está. Esse tema requer cuidado e atenção porque, se analisarmos bem, eles querem representar a cultura negra sem os negros. Eles querem a estampa étnica, mas querem sem os negros. Eles querem os turbantes, a música, os orixás, querem gritar “saravá”, mas sem os negros. Para mim, aí está o cerne do problema. Usar nossos símbolos de luta descontextualizados e como tendência, moda e fantasia de carnaval. Isso é um atentado à história de luta e resistência negra. É nesse ponto que está a importância de um povo empoderado, que se impõe e se representa. Não acredito que haja problema em uma mulher não-negra usar turbante desde que não o descontextualize, que saiba de onde veio esse símbolo, o que representa e que, principalmente, que tenha respeito. Porém, isso não acontece tanto na prática. Por exemplo, o carnaval está aí e o que eu, mulher negra, irei ver nas ruas? Mulheres não-negras usando símbolos sagrados que representam a luta, a estética e a resistência do meu povo como simples fantasia. Isso é certo?

 Você viveu algum tipo de preconceito ou perrengue no meio do graffiti por ser mulher? E quem são as grafiteiras que você curte?

Cara, preconceito tem, sim. O meio do graffiti é bem masculino e normalmente as grafiteiras começam a pintar por influência do namorado que é grafiteiro. Comigo não foi assim, sempre fui fascinada por coisas ditas como “masculinas” desde criança. E na minha casa eu não tive uma educação machista. Meu pai é um cara sensível que prefere fazer comida e cuidar da casa ao invés de trabalhar fora, ao contrário da minha mãe, que odeia cozinhar, mas adora ir ao campo de futebol. Então esses padrões convencionais nunca fizeram parte da minha vida e eu não acredito neles. Agora, voltando ao graffiti, eu sempre vivo uns perrengues pelo fato de ser mulher. Primeiro que não faço graffiti autorizado. E normalmente quem faz graffiti dessa forma, faz de madrugada. E pra mim é bem difícil pintar na rua de madrugada sozinha, porque infelizmente é perigoso. E, quando eu penso que, pelo fato de ser mulher, eu não posso pintar na rua de madrugada como um homem faz, eu fico indignada. Ser mulher não é fácil. Ser mulher negra mais ainda. E ser mulher, negra e grafiteira é um desafio!

Admiro grafiteiras que transmitem através de seus trabalhos uma força interna. A Fefe Talaveira, por exemplo. A grafiteira que mais curto e que é uma amiga recente e querida é a Mag Magrela de São Paulo. Ela pinta mulheres de uma maneira real e retrata uma força feminina incrível. Afinal, uma coisa que definitivamente não somos é sexo frágil, não é mesmo?

 Eu li que você foi modelo e é formada em design de moda, como é sua relação com essa expressão artística? E como a moda se relaciona com o graffiti? São processos criativos independentes ou se complementam?

A moda pra mim é um suporte. Não a considero arte, mas um suporte artístico. Na verdade, o corpo feminino pra mim é fascinante. E revesti-lo de uma maneira crítica pode trazer para a moda algumas características interessantes da arte. Sobre a relação entre moda e graffiti: enxergo o graffiti como uma estampa da cidade e como algo que veste e traz novas interpretações para a rua. Assim é também a roupa, aquilo que reveste e traz novas cargas significativas e características para o corpo. São processos criativos que podem se complementar, sim.

 Por último, nesse mês na capitolina nós estamos com um projeto chamado “verão do poder”, então diz pra gente: o que faz você se sentir empoderada?

 Ser mulher negra e pintar negras na cidade, na hora que eu quero e onde eu quero, sem pedir permissão pra ninguém e sem depender de ninguém faz eu me sentir empoderada.

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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