9 de dezembro de 2015 | Tech & Games | Texto: and | Ilustração:
COBERTURA: CAPITOLINA NA CCXP 2015

Nós duas, Carol e Fernanda, nunca tínhamos ido a uma Comic Con Experience. Caímos de paraquedas e, pulando de fila em fila, contamos pra Capitolina como foi.

A primeira fila, e a mais ansiosa, foi a dos ônibus, que saiam um atrás do outro sem parar. Desembarcamos num pátio de terra dum complexo enorme e em obras (todo desnivelado e nada confortável) e seguimos até um estacionamento já lotado com o staff manejando o público de um lado para o outro. Fila para credencial, problema com a credencial (não fomos as únicas), entramos! Quase. Depois de uma caminhada uns dez minutos chegamos ao pavilhão propriamente dito – vazio, só imprensa e o pessoal trabalhando na maior correria (valeu, Capitolina, por esse intervalo de tranquilidade).

Um evento assim tão grande esvaziado é meio perturbador, tipo um shopping antes de abrir com um sem fim de corredores desertos. Assim que a galera começou a chegar, nós entendemos que a experiência toda, aliás, tem bastante a ver com um passeio no shopping (muito paulistano isso?): percorrer repetidas vezes todo o perímetro checando cada estande meio sem ter certeza do que se procura intercalado com uma pausa ou outra para sentar num auditório ou praça de alimentação.

   

Só que na CCXP tem um jedi na mesa da frente e as personagens Satsuki e Ryuko, de Kill la Kill, na de trás.

Comer ali não é barato. Essa batata acompanha de refrigerante temperatura ambiente aí da foto nos custou R$ 17, um milkshake bem pequenininho saiu por R$10 no fast food e até mais que isso no food truck. Apesar das várias opções, quase era nada vegetariano e muito menos vegano, então a dica é levar lanchinhos (ao menos nessa edição não rolou revista das mochilas e alimentos barrados como nos festivais por aí). Nós não levamos e ficamos bastante felizes com a pipoca que descolamos na faixa no estande do Zootopia da Disney:

A gente teve de girar uma roleta por elas, tipo Playstation x Jogo da Vida, sim.

A Comic Con é toda interativa, em todo canto tem algum dispositivo pra você “ativar” (descobri lá que esse é o termo técnico): uma roleta, um joguinho, uma fantasia para vestir e tirar foto. Comic Con é, sobretudo, tirar fotos – e é aí que a história começa a ficar mais densa. Quando você acompanha a repercussão do evento nas redes sociais você tem certeza que é lá dentro que você devia estar, é tudo incrível, pulsante, cosplay, autógrafo, David Tennant, Jamie Clayton. Chega a ser perturbadora a sensação de que não ir à CCXP é um enorme infortúnio, motivo de luto, quase uma traição do movimento e o quanto isso contribuiu pra ideia besta de “carteirinha nerd” de que nós tanto queremos refutar. Como se estar lá dentro fosse também tão simples, um mero desejo – nós vamos chegar lá depois desse senta-que-lá-vem-a-história:

Sexta-feira foi um dia movimentado, com o convidado de honra Frank Miller e o painel de estrelas do Netflix, e, não bastasse o volume do público, a desorganização do evento comprometeu a experiência de muita gente. Foi prometido, por exemplo, que o auditório seria esvaziado ao fim de cada painel e os próximos da fila poderiam então ter a chance de ver os ídolos mais de pertinho (num auditório assim, intimista, você e mais 2.499 pessoas). O que rolou é que quem entrou lá as 10h30 da manhã só saiu no fim do dia e o resto da fila nunca teve chance – imagina só que frustrante passar o dia todo alimentando aquela ansiedade e ir embora sem ver nem nada, nem os painéis, nem o evento. Ouvimos do staff que essa é a “cultura das convenções, até em San Diego é assim” como se isso justificasse o desrespeito e o estresse ao que o público foi submetido. Relatos de problemas, tiranias e tretas (dentro e fora dos painéis, nas filas, no concurso de cosplay e até com os expositores do Artists’ Alley) foram publicados aos montes nas redes sociais e esse aqui traz uma verdade difícil sobre a CCXP: “lá, se você quer algo tem que dar TUDO de si ou ficar chupando dedo”.

“Tudo” pode não ser seu bem estar físico e emocional, pode ser um autógrafo de R$ 300 com uma fila de horas de brinde ou uma credencial plena de R$ 5.999 (pausa pra respirar). E tem mais!!! A CCXP é, como dissemos, um shopping center especializado e todo o rolê é construído para que você não saia de lá de mãos vazias (que todos estandes estão ali vendendo algumas coisa é óbvio, mas muitos deles são lojas mesmo – com filas pra entrar e pro caixa, naturalmente). Ainda não acabou!!! Se você não mora em São Paulo, some aí o custo do transporte e estadia; se você é cosplayer, o custo do cosplay e assim por diante. Lembrando que você já pagou por um ingresso que custa em média R$ 100 e não dá direito a experiência como é anunciada, já que na prática você acaba tendo de escolher entre uma atração e outra. É um tremendo investimento gostar de cultura pop.

É claro que tem também muita coisa legal e pode ser, sim, divertidíssimo. 4 Non Blondes o-dia-inteiro no karaokê do Netflix, Just Dance frenético, patinação no gelo do Snoopy, videogame (descobrimos o Zumbi Olé, uma improvável mistura de apocalipse zumbi e futebol protagonizado por uma mulher negra que vai voltar a aparecer aqui na revista assim que for lançado, prometemos) e boardgame, muita coisa (entrevista, aula, workshop, autógrafo etc. de atrações “menores”) rolando seeeem paraaaaar, muito quadrinho, muito livro (tinha até o nosso lá!), muito, mas muito, cosplay incrível e MUITO Star Wars.

O público era superdiverso cheio de girl power, crianças acompanhadas de mães e pais e mais deficientes físicos do que nós já vimos em qualquer outro lugar – parece que acessibilidade é uma preocupação genuína do evento, e a edição desse ano contou com painéis discutindo questões de gênero, diversidade e representação étnica com uma galera muito bacana como Cecihoney e Kelly Cristina Nascimento do Minas Nerds, Jessica Tauane do Canal das Bee, Flávia Gasi do Garotas Nerds e a Capitolina Duds Saldanha, além da nossa outra Capitolina quadrinista Laura Athayde no Artists’ Alley. Mas ainda que as coisas estejam caminhando prum lugar melhor e mais inclusivo, eu, Carol, ainda tive de ouvir a clássica carteirada “esse livro que você tá levando é pra você mesma?” quando fui atrás de um título de ficção científica… E também não foi difícil encontrar a figura da mulher superexplorada.

   

Sério que não tinha nada melhor que “propriedade do Coringa” pra estampar o merchan oficial do evento, CCXP?

Rolou também um problemão com a equipe do Pânico na Band que mostrou mais uma vez que não tem respeito nenhum a coisa nenhuma e lambeu??? uma cosplayer sem permissão. A organização do evento tomou a única postura possível e baniu indefinidamente o programa da CCXP. Ponto pras meninas! O Minas Nerds lançou inclusive a campanha #respeitaocosplay onde incentiva o relato dos abusos sofridos enquanto cosplayers, vale conferir.

“Nós não somos coisas”, fanart da banca da OwlCat.

 

O que não faltou foi cosplay! – via GIPHY

Nesse balanço de altos e baixos não dá pra deixar de citar uma cena muito simbólica que presenciamos por lá: uma espécie de paintball onde você mira num personagem dentro de uma cabine plástica, tipo um aquário, que ficava todo cheio de tinta e de vez em quando precisava ser limpa – era uma funcionária negra quem fazia isso. Podia ter sido só uma infeliz coincidência, mas bastou olhar ao redor para perceber que a maioria absoluta dos funcionários de limpeza, certamente terceirizados, também não eram brancos. Então se hoje se fala muito na ocupação da cultura pop pelas mulheres, que nós continuemos e tracemos os recortes sociais todos, fazendo cair por terra o gancho de que “a cultura das convenções é assim” e pense no que é esse espaço que a gente agora ocupa, construindo um universo nerd e geek cada vez mais interessante que tenha mais a ver com as pessoas, público ou não, e menos com grande$ negócio$.

#VaiSerÉpico e é um projeto a longo prazo, mas já que a edição de 2016 já foi confirmada, já dá pra pensar no que a gente quer ver ano que vem:

– Mais mulheres e minorias não hegemônicas falando sobre tudo e não só confinadas na aura da politização que lhes cabe e “cumpre a cota” progressista da agenda.

– Respostas firmes e certeiras como a que foi dada ao Pânico na Band.

– Um evento organizado e afinado que entregue o que promete, que não subestime o público e conquiste os louros não por ser o único evento nerd e geek desse porte, mas porque realmente os merece.

Ufa.

E só pra fechar, algumas dicas de amigas sobreviventes (alô, Lara Croft) da CCXP2015:

– Vá descansada, é uma maratona.

– Planeje o visual com antecedência e considere com carinho se ele é confortável.

– Mas não esqueça que uma vez naquele universo paralelo a vontade de se montar e apostar num fantasiazinha por mais discreta que seja (tipo aquela camiseta gamer que você nunca usa) é muito grande.

– Leve lanchinhos, garrafa de água e o carregador do seu celular.

– Leia o regulamento do evento com atenção, especialmente se for atrás de autógrafos e coisas do tipo, faz toda diferença estar bem informada na hora de resolver qualquer possível problema.

– Cuidado com objetos sensíveis em áreas perto de palcos ou estandes muito interativos, muitas vezes as pessoas acabam acertando outras sem querer.

– Pergunte ao cosplayer se é ok fotografá-lo, é fofo e respeitoso.

– NaaããÃãÃão tenha vergonha, todo mundo ali é um fã ensandecido como você.

Liga das Garotas Mágicas ensinando garotas mágicas a jogar Magic.

   

Chewbie e Fê, Raiden e Carol.

Carolina Stary
  • Ex-colaboradora de Tech & Games

  • limamanda

    Arrasaram muito com a matéria. Maravilhosas!

  • http://ursotopia.tumblr.com/ Gabriela Mattar

    Oi!
    Ótima matéria, muito boa de se ler e cheia de verdades. Bem diferente da maioria que encontramos por aí na CCXP.
    Eu sou a princesa Jujuba na foto inicial 🙂 Fiquei muito feliz de aparecer por aqui, obrigada. Tudo bem se eu salvar a foto?
    A descrição de vocês do evento como um “passeio no shopping” é perfeita, ainda mais quando se vai nos quatro dias: você já viu tudo, mas vai continuar dando voltas e olhando todas as stands e lojas de novo e de novo…
    Ano passado eles também não revistaram a mochila, acho que é o jeito deles de deixar mais “rápida” a entrada…por um lado isso é bom, pq dá pra entrar com lanchinhos e água sem problemas, mas por outro lado é preocupante, afinal, não é todo mundo que vai se aproveitar da falta de revista para entrar “só” com lanchinhos e água….:/
    A desorganização da fila pros painéis foi a coisa mais decepcionante de todo o evento. Ano passado, fiquei na fila por três horas, mas cheguei a entrar no painel que queria, pois as pessoas saíram do auditório aos poucos, então valeu a pena. Esse ano, o pessoal montou acampamento e ficou lá! Ninguém teve chance. E, quando eu passei por trás do auditório, deu pra ver várias cadeiras vazias…então a história de “está completamente lotado” deles foi lorota, pois se eles deixassem, tipo, 20 pessoas da fila de 500 entrar, causaria alvoroço, então eles preferiram não deixar ninguém entrar…
    Enfim! Muito boa matéria, espero que tenham se divertido apesar dos pesares. Beijo 🙂

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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