9 de fevereiro de 2016 | Ano 2, Edição #23 | Texto: | Ilustração: Rafaela Monteiro, para o bloco Mulheres Rodadas
Carnaval, festa do prazer… e da problematização sociopolítica
Ilustração da Rafaela Monteiro, para o bloco Mulheres Rodadas

O carnaval termina oficialmente hoje, para tristeza de muitos e alegria de outros tantos. Para quem mora no Rio de Janeiro, o auê não acaba na quarta de cinzas, tampouco começa só no sábado de carnaval. Essa época do ano gera muita polêmica e discórdia porque, como todo fenômeno sociocultural, o carnaval traz à tona o que há de melhor e pior na nossa convivência social.

A impressão coletiva de que os dias de carnaval funcionam como um estado de exceção e suspensão da rotina é real, mas isso não abre precedente para desrespeitar o próximo, principalmente as mulheres – ou pelo menos não deveria abrir! Mas, como ainda vivemos em uma sociedade misógina, o carnaval também serve de palco para episódios de assédio em graus variados.

A verdade é que a quantidade elevada de purpurina, confete e serpentina por metro quadrado durante o período carnavalesco NÃO deve servir de desculpa para sermos babacas uns com os outros. De que adianta vomitar textão politizado o ano inteiro e, nas ruas, aproveitar esse momento de fuga da realidade em massa para reforçar estereótipos, destilar machismo e oprimir pessoas marginalizadas, cagando o potencial integrador que essa festa tem? Sim, esse potencial existe, basta a gente, enquanto sociedade, se esforçar para fazê-lo acontecer.

Apesar dos pesares, eu particularmente consigo enxergar no carnaval um lugar de desconstrução e transformação e, por que não, de conscientização sociopolítica, e não estou sozinha nessa aposta. Vejo isso principalmente no surgimento de vários blocos com propósitos contestadores, abertamente voltados a jogar no ventilador questões que precisam ser verbalizadas e discutidas em grupo – e quer momento mais propício para o diálogo coletivo do que o carnaval, com milhares de pessoas circulando pelas ruas? Só que em vez de ser um diálogo formal e anunciado, ele se dá nas entrelinhas, entre uma chuva de confete daqui e rajadas de serpentina dali. Através dessa conversa lúdica, mensagens importantes são transmitidas e depositadas no (in)consciente coletivo, e cada folião que vive essa experiência leva para casa, mesmo sem perceber, bastante coisa para refletir.

Por fazer parte desse universo de blocos, eu tenho observado de perto essa tendência militante do carnaval de rua. Tenho, por exemplo, acompanhado os preparativos para o desfile do Bloco das Mulheres Rodadas, talvez o conjunto que mais se destacou em meio a tantos blocos que pipocam por aí.

A história dele é muito espontânea: em 2015, duas amigas interagindo nas redes sociais soltam a ideia, sem maiores pretensões (boas ideias sempre começam assim, já perceberam?), de criar um bloco das mulheres rodadas, em coro ao teste da mulher rodada, que respondia sarcasticamente ao cartaz do moço que dizia não merecer mulher rodada (Lembram disso? Não coloco o link aqui para não dar mais trela para esse tipo de ~conteúdo~ porque não somos obrigadas).

O evento anunciando o desfile do bloco foi criado na zoeira, e não demorou para contar com a confirmação de mais de dezoito mil foliões rodados. Animadas com tamanha resposta positiva, simbora colocar o bloco na rua: um contato estratégico daquele conhecido que toca em blocos, convoca umas fanfarras daqui, ensaios marcados dali e voilá: desfile em pleno Largo do Machado, arrastando em torno de três mil pessoas.

A festa foi linda e bem-humorada, fazendo piada de barbaridades que ainda ouvimos/vemos/lemos por aí. Foliãs de todas as idades rodopiando, presença de militantes históricas, purpurina, confete, serpentina e, por que não, subversão. Afinal, a proposta de brincar com o machismo, uma questão séria, que mata e limita a vida de mulheres em variados níveis de violência, pode ser polêmica e passível de crítica (claro, como tudo nessa vida), mas não deixa de ter seu valor: usar do humor, do elemento lúdico, do riso como antídoto para destilar tanto discurso de ódio contra nós.

Conversando com a Renata, uma das idealizadoras do bloco, soube ainda que além de banda e bateria própria (majoritariamente formada por mulheres) para desfilar este ano, o bloco conta pela segunda vez com o apoio institucional da ONU Mulheres, e tem realizado oficinas de confecção coletiva de fantasias, adereços e maquiagem, transformando-se, aos poucos, em um espaço de apoio, resistência e fortalecimento entre mulheres de todas as idades. Lindo, não?

Sim, isso tudo é carnaval. Taí o potencial integrador e transformador que eu prometi lá no início. E porque ainda fazemos parte de uma sociedade com muitos problemas estruturais, o carnaval (junto com outras manifestações de massa, como o futebol) os retrata na sua concretização; porém, ele também reescreve esses problemas, introjetando novas leituras capazes de transformar o pensamento coletivo, mesmo que em um samba de lenta cadência.

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Carolina Walliter
  • Revisora
  • Colaboradora de Esportes
  • Colaboradora de Literatura

Beatlemaníaca que gosta de sambar diferente com o Molejão, gosta de carnaval e de futebol mais que o recomendado pela OMS. Carioca da gema e cidadã do mundo, tradutora, intérprete, historiadora, mochileira, nômade digital, rabiscadora compulsiva em moleskines (não necessariamente nessa ordem) mas, antes de tudo, uma contadora de histórias, sobre si e sobre os outros. Escreve sobre o cotidiano da tradução em: http://pronoiatradutoria.com/

  • Lígia

    Tem uma página no facebook “Ex otários” no qual estava comentando sobre as mulheres “no pós-carnaval” passam a ser mulheres difíceis.. Fiquei indignada.postei um comentário falando sobre a igualdade de gênero, fui criticada, julgada e “fadada a ser uma mãe solteira” simplesmente por defender um direito que é nosso.

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