5 de setembro de 2015 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Clara Browne
Carregando a bagagem dos outros: até onde se pode ajudar alguém?

Não é fácil reconhecermos nossos próprios limites quando amamos alguém, especialmente se estivermos envolvidas com a pessoa. Mais do que isso, mesmo que, às vezes, sejamos capazes de reconhecer nossos limites, pode nos faltar coragem e força de vontade para agir de acordo. Quando gostamos de alguém, temos vontade de nos doar e de cuidar. Isso faz parte de querer o bem. Mas e quando acabamos colocando o bem-estar da outra pessoa na frente do nosso? E quando nos envolvemos com uma pessoa cheia de problemas grandes demais pra nós resolvermos? Será que vale a pena se colocar nessa situação? É possível salvar ou “consertar” alguém?

Ajudar alguém é dar apoio, se fazer presente, estar disponível. No entanto, muitas vezes, dar essa ajuda não só foge às nossas capacidades, como pode acabar nos colocando pra baixo também. O princípio básico da ajuda é que a pessoa ajudada de fato queira ser ajudada. Estar disposta a fazer o bem por quem você gosta é muito bonito, mas se torna uma ação incompleta e falha se esse esforço não tem resultados e não é reconhecido. Também não é por mal que a pessoa não reconhece. Nós mesmas às vezes ficamos tão envolvidas dentro de nossas baguncinhas emocionais, que gente tentando ajudar só irrita, frustra ou simplesmente não funciona. Não é questão de ingratidão, mas talvez, de preparo emocional.

Uma pessoa que está passando por problemas, chegando ou não a uma depressão, está com o emocional todo bagunçado. Para ser ajudada, ela primeiro precisa reconhecer que tem um problema e que não é tão simples sair dele sozinha. Esse passo de aceitar que se tem um problema é muito difícil, pois é comum ficarmos confortáveis em nossas próprias tragédias. Entregar-se ao vazio e ficar estagnada sentindo pena de si mesma é menos trabalhoso que lutar pra sair dessa. Além disso, reconhecido o problema, por onde que se começa a tentar sair dele?

Esse assunto sempre me lembra A Bela e a Fera. Pensa aqui comigo: a Fera é um príncipe que foi amaldiçoado por ser extremamente rude e pedante, e a única coisa que pode salvá-lo dessa maldição é conseguir ser amado. A Fera é de fato um babacão. Vamos combinar que manter como prisioneiro um velho perdido e só aceitar devolvê-lo ao mundo em troca da filha dele como prisioneira é, no mínimo, perverso. Mas é Disney, então, eles dão um jeitinho de transformar isso numa linda história de amor: em meio às circunstâncias mais adversas, a Fera baixa a guarda, Bela começa a achá-lo fofinho, os dois se apaixonam e ele se empenha para ser mais amável, o que acaba fazendo com que a maldição se desfaça.

Há de se dar um pequeno crédito à Fera: houve um desejo de mudança, houve até uma esperteza de perceber que, sendo babacão daquele jeito, ele estaria condenado para sempre. Mas, na vida real, acho que o desfecho de uma história como essa teria sido muito diferente. Essa relação é saudável pra Bela? Por que ela, jovem saudável, que adora ler e cantar pelo campo, deveria parar tudo para passar o resto de sua vida ensinando um homem a se comportar em sociedade, a ter um mínimo de bons modos? Só tem felizes pra sempre, porque é um conto de fadas. Na real, essa história é bem trágica.

Ah, então, não é possível nunca ajudar os outros, deixa todo mundo se ferrar sozinho e pronto? Claro que não. O que eu estou tentando colocar aqui é que existe um limite do quanto podemos fazer por outra pessoa. Precisamos aceitar que certas coisas fogem ao nosso controle. Também não se trata de evitar pessoas “problemáticas” e viver em busca de um ser humano perfeito. Todo mundo é problemático. Todo mundo tem bagagem. E amor nos dá vontade de se oferecer pra ajudar a carregar. Peso dividido fica mais leve. Mas não tem amor que nos faça criar braços e ombros para carregar, além da nossa, a bagagem daqueles que amamos. Cansa, dá dor na coluna e, mais cedo ou mais tarde, a gente acaba deixando cair, porque não aguenta.

Ninguém salva ninguém, ninguém muda ninguém e ninguém conserta ninguém. Você até pode ajudar, mas isso está sempre condicionado a uma predisposição da pessoa sendo ajudada. Então, se você está se relacionando com alguém que precisa de ajuda, ajude, mas entenda e respeite seus limites. Além deles, vira autodestruição.

(Do mais, recomendo os conselhos que a Bia deu aqui.)

Laura Pires
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Vlogger

Usa seu vício em séries e Facebook como inspiração para os textos, para a vida e para puxar assunto com os outros. Adora ouvir histórias e conversar sobre gênero, sexualidade, amor e relações amorosas – gosta tanto desses temas que deu até um jeito de fazer mestrado nisso. É professora de inglês, cantora e pianista amadora de YouTube, fala muito, ri de tudo e escreve porque precisa. Ama: pessoas e queijo. Detesta: que gritem.

  • Alex Palomino

    Amável conselho

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