30 de maio de 2017 | Poéticas | Texto: | Ilustração: Sara Ramos
Carta às ancestrais que não conheci

Queridas,

As últimas semanas foram porreta – e quando não é? Faleceu o avô, sucumbiu o relacionamento que me ensinou a amar. Fiquei ansiosa, vivi crise, ressaca, culpa, foda-ses, até mesmo o avô e a ex surgiram no mesmo pesadelo.  Mas calma, não dá pra começar falando das últimas semanas se vocês desconhecem os 20 anos da descendente que, numa abstração completa de busca por alguma coisa pra matar essa sede de alguma outra coisa, vos fala, desesperadamente.

Nem é disso, dos últimos dias ou 20 anos, que quero falar – mas já que veio, deixo por aí.

Às vezes, imagino-as. Penso: pareciam-se comigo? O que amaram, o que sonharam, que histórias contavam, será que gostariam de mim? Pergunto pra dentro noventa perguntas sem memória. É engraçado falar de memória. Entendo o conceito, li dezenas de textos sobre memória coletiva, social e individual na universidade – estou na universidade! –, mas ela ainda parece se afastar à mera menção de um toque meu.

Abre-se um véu, um vão?, entre a história e a história de quem sou. A vantagem desse lapso não inchado de fatos, um lapso em que tudo pode ter acontecido, é que invento cada uma de vocês. Invento a bisa: de olhos doces mas espírito inquieto, dava aulas de matemática e fazia brincos de madeira. A irmã da bisa: filha de Iansã, não deixava que bedelhassem com as suas e dançava como um vendaval. Já tataravó seria aquela senhora respeitada por gestar um terreiro onde a brutalidade branca não chegava, onde a fome era saciada sem interrupções ou balas.

Construo e desconstruo vocês como quem brinca na praia. Conchas e areia. Brinco e invento assim porque a possível realidade de correntes, pilhagem, estupro e cativeiro é como toneladas de gelo a circular em nosso sangue. Ainda sinto frio.

Tem dias, confesso, que me irrito com vocês. Sinto, também, inveja de como minhas companheiras de caminhada falam de suas mães, tias e avós negras. Preencho-me de uma saudade sem memória, de um desejo de histórias pra contar, de histórias pra pertencer.

Como devem saber, enquanto filha inter-racial, demorei a encontrar meu assento no mundo. Se eu errasse esse lugar, era uma abominação. Afastada da mãe pela cor, e do pai pelo sexo, fui me fazendo sem assento, sem acerto, e sem referência. Observo minha mãe, e sei que dela herdei toda a força do que ela soube me ensinar. O preto que é meu pai, um homem extraordinário, só deu pra ter irmão homem, e sua mãe está mais para índia que para qualquer outra coisa, embora ela discorde.

Não conheci e não conheço as mulheres negras de onde eu vim. Indago e investigo, mas não há vestígio. Finjo, faço de conta, mas vocês não estão aqui, muito menos na árvore genealógica, que me foi impossível montar: dava vergonha ser tão pequena. Sei também que nisso, não há nada novo. Todos os pretos que encontro mal sabem os nomes dos bisavôs.

Mexi no que havia para remexer. A areia por si só nunca me disse nada. Agora eu sento e sinto o mar, faço do seu som uma canção de quase guerra, e estou pronta. Para criar e destruir, e criar novamente. Porém, não me furto e não me esqueço do que não sei. Uma certeza: se hoje anseio, escrevo e escrevivo, sei que se choro por ter o direito de chorar, e que se caio por ter o privilégio de cair, é porque vocês, que não conheci, costuraram retalhos de vida e afeto para que eu encontre, não mais o meu lugar, mas pelo menos, o início do percurso.

Essa carta, imperfeita e tortuosa, é de agradecimento. Espero que, um dia, aí do Olorum, vocês possam se orgulhar de nós.

Com amor,

Sara Ramos

Sara Ramos
  • Colaboradora de Poéticas
  • Colaboradora de Sociedade
  • Revisora

Sara Ramos, 20 anos. Tocantinense que largou tudo para estudar Produção Editorial no Rio de Janeiro. Preta, lésbica e feminista interseccional, enxerga o ativismo e a pesquisa acadêmica ativista (pois é) como potências transformadoras. É apaixonada pelo fazer literário, pela fotografia e pelo mar. Quer viver num mundo em que todas as histórias tenham o direito de ser contadas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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