1 de abril de 2015 | Edição #13 | Texto: , and | Ilustração: Gabriela Sakata
Carta das editoras #13: Tempo

Quando eu era pequena, para que eu dormisse, meu pai me contava a história do universo (provavelmente porque é bem longa e eu custava a dormir). A história começava invariavelmente assim: – Havia um tempo em que não havia tempo. E eis que, no centro do universo, a explosão. Em um piscar de olhos, a matéria prima do mundo criada e, junto a ela, no início de tudo, o tempo.

Que é, pois, o tempo?

Esta pergunta, exatamente assim, veio-me muitos anos depois das histórias de meu pai. Era o último ano do colégio, minha vida inteira de repente passava e repassava em minha cabeça e, toda vez que alguém me perguntava o que faria depois que acabasse aquele ano, eu me questionava como chegara ali tão rápido. Eu não era nem maior de idade e os adultos já me pressionavam para ter todo meu futuro planejado, meus amigos já estavam em crise dizendo que estavam velhos, estávamos todos prontos (prontos?) para dar um daqueles passos marcantes de conclusão de um momento da vida que, até aquele momento, tinha sido nossa vida inteira: acabaríamos a escola. E foi nesse estado que um antigo professor um dia me perguntou se eu não queria o ajudar a escrever o roteiro de uma peça sobre nada mais nada menos que o tempo.

Aceitei na hora o convite e logo me pus a pesquisar. Meu pai, ouvindo meu relato, disse-me que havia algo que poderia me ajudar. E, assim, trouxe um livro relativamente velho, com as páginas com as bordas amareladas, a espinha já começando a se desfazer e tinha aquele cheiro que arde os olhos ao mesmo tempo que dá um prazer imenso. O livro chamava-se Confissões, de Santo Agostinho. Por um breve segundo, tive certo preconceito; foi então que abri na página 303 (assim, tão redondinho o número) e, em letras garrafais, perguntava “O que é o tempo?”. Comecei a ler e o que encontrei foram todas as perguntas que já estavam dentro de mim e nunca consegui elaborar:

“Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem poderá aprender, mesmo só com pensamento, para depois traduzir nas palavras, o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei. Porém, atrevo-me a declarar, sem receio de contestação que, se nada sobrevivesse, não haveria tempo futuro, e se agora nada houvesse, não existia o tempo presente.
De que modo existem aqueles dois tempos – o passado e o futuro –, se o passado já não existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse para o pretérito, já não seria tempo mas eternidade. Mas se o presente, para ser tempo, tem necessariamente de passar para o pretérito, como podemos afirmar que ele existe, se a causa da sua existência é a mesma pela qual deixará de existir?”

Talvez todas essas questões sejam metafísicas demais e, na verdade, nada disso importe. Quem sabe, no fundo, não haja tempo, apenas memória e o eterno presente de ser. Mas é que o tempo tem essas questões confusas, e se atrever a entrar nisso é apenas para pessoas muito corajosas – pessoas como Santo Agostinho, nós da Capitolina e todas vocês, leitoras, que estão aqui, prestes a se aventurar em mais uma nossa edição (a qual, dessa vez, com certeza terá mais perguntas do que respostas – se é que alguma vez demos respostas aqui). Pois dessa vez falaremos exatamente sobre isso: o tempo.

Acontece que o tempo, dentre seus muitos mistérios, cria essa dúvida: como ele consegue passar tão rápido e tão devagar, independentemente do tempo palpável (contável? Cronológico, pelo menos). Uma hora de aula de geografia pode durar uma vida inteira, uma tarde inteira na casa da melhor amiga pode durar um piscar de olhos. Dois anos podem ser uma vida inteira de espera da mesma forma que meu Ensino Médio todo pareceu ter uma semana. E apesar de um ano parecer ter passado em uma risada que escapou quando não devia, tiveram dias nesse mesmo ano que duraram séculos, que pareciam que nunca iriam acabar. Mas um ano inteiro se passou. Sim, um ano. Pois esta é décima terceira edição que agora começamos.

8 de abril de 2014 foi ao ar esse projeto de uma revista online chamada Capitolina, em homenagem a tal Capitu, personagem ícone-eterna totem-tabu daquele escritorzinho lá, o tal Machado de Assis. 8 de abril de 2014 foi ao ar um site ainda com muito a se melhorar e mais de setenta garotas (jovens? Adolescentes? Adultas?) deram a cara a tapa no mundo suburbano da internet. Um mundo cujo tempo é diferente de toda a realidade afora de lá.

Um ano que passou como se da noite pro dia. Foi no mês que vem que tudo começou. Será um ano atrás que um embrião explodiu, tomou forma que ainda não sabemos direito, mas que alimentaremos diariamente com carinho e dedicação. E como comemorar melhor esse um ano de vida do que falando do assunto mais batido nas nossas conversas, o tempo?

Aquilo que era linha temporal cronológica ao olharmos para o futuro é em verdade ar em volta, presente repleto, memória constante. Dueto de percepções de passagem temporal. Minutos, horas, dias, meses, anos? O que é tudo isso? Por que comemorar dar a volta em torno do sol se isso é processo físico registrado em equações cheias de números e letras? Não sabemos. Mas cá estamos sem nunca estarmos verdadeiramente prontas para o que der e vier.

Já passou da uma da manhã enquanto escrevo isso. Este momento presente, esta madrugada sem muitas estrelas, que em poucos segundos já será passado-memória, justificativa para o cansaço de amanhã. Amanhã o qual não é o mesmo de quando esta carta será publicada ou de quando reler o que aqui há dito para revisão. E mesmo este instante, este exato instante – uma e quarenta e um da madrugada – não é o mesmo tempo. O dia que diria que é hoje já passou, o amanhã é meu presente e nem sei. E lá do outro lado do mundo, na Austrália ou no Japão, já é tarde de outro dia, estão quase no depois-de-amanhã, enquanto no Peru ainda é o hoje que é ontem. E apesar de todos os tempos intercruzados, o presente é agora, o já. O lado de lá continua igual ao lado de cá.

Tudo vem e vai. Antes disso, não havia nada além de um tempo em que não havia tempo. Tudo está cá, agora. O brilho que vemos é das estrelas que já morreram, o horizonte que está sempre por vir. E aqui, juntas, sorrimos e celebramos tudo o que não sabemos, tudo o que lembramos, tudo o que vivemos; assopramos uma velinha: feliz aniversário a todas nós.

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

Lorena Piñeiro
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Lorena tem 26 anos e mora no Rio, embora tenha crescido nos subúrbios da Internet. Trabalha com análise de roteiros televisivos, avalia manuscritos literários, traduz e revisa obras em inglês e escreve por aí. É igualmente fascinada pelo gracioso e pelo grotesco. Adora filmes de terror, livros de fantasia, arte surrealista e qualquer coisa que não carregue o mínimo semblante de realidade. Tem empatia até por objetos inanimados e queria ser um urso ?•?•?

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

  • Yasmin

    Parabééns meninas!!! Continuem publicando, eu adoro a capitolina e quero que ela esteja comigo sempre. Haha beijoos.

  • Carolina

    Parabéns gurias!!!! A Capitolina foi e é a coisa mais maravilhosa e linda que apareceu nesse mundo suburbano da internet. <3

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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