1 de junho de 2015 | Edição #15 | Texto: , and | Ilustração: Bárbara Fernandes
Carta das editoras #15: Linguagem

Há muito tempo, li a seguinte frase: “A linguagem foi dada ao homem para que ele faça um uso surrealista” e, desde esse momento, toda vez que se fala em linguagem, automaticamente, essas palavras ecoam em minha mente como uma espécie de canto ou grito ao qual não consigo responder ao certo.

Para escrever esta carta, fui buscar o texto em que li tal frase. Vem do Manifesto Surrealista. E, quando redescobri isso, veio junto à memória outra citação: “Vivemos ainda sob o império da lógica.” Quem conhece algo sobre o Surrealismo deve saber que esse movimento artístico refutava a lógica para conseguir falar de coisas mais profundas, o inconsciente. Essas pessoas acreditavam que não havia como falar dos segredos da mente apontados pela psicanálise de uma maneira clara ou com sentido, porque o inconsciente é exatamente aquilo que não está à luz de nossos saberes. Assim, propuseram que a linguagem, nossa tão corriqueira linguagem, devesse ter esse novo uso: o surrealista.

As palavras, as imagens, os sons. Para tudo isso tentou se criar um novo sentido, um sentido além, uma tentativa de expressar aquilo que nós mesmas não sabemos. E, durante muito tempo, apesar de particularmente achar a arte surrealista feia, acreditei que deveria responder de forma positiva quando minha mente gritava: a linguagem foi dada ao homem para que ele faça um uso surrealista. Foi apenas no meu terceiro ano de faculdade que entendi que a linguagem, qualquer que seja, sempre será lógica e que é impossível combater esse império.

Durante uma aula de sintaxe, discutindo as ocorrências de fala que, de acordo com a gramática, estão erradas, percebi que há lógica em se dizer “as mina pira”, assim como há lógica em trocar “f” por “v”. E, a partir desse momento, meu mundo mudou.

Tudo no mundo tem lógica, até aquilo que não acreditamos que tenha. Os números, as proporções, as cores, os sistemas biológicos. Triângulos, quadrados, retas. Tudo no mundo tem lógica e pode ser desvendado a partir da linguagem. Podemos definir uma reta como a menor distância que liga um ponto a outro, da mesma forma que podemos usar uma equação com a coordenada dos pontos no espaço. Podemos explicar o que é energia magnética, velocidade, peso, limite, caos. Basta uma única equação. Podemos nos comunicar por desenhos, palavras, sons, imagens, com apenas o nosso corpo. Podemos dizer “eu te amo” e “some daqui” mudando apenas pequenos traços de nossas feições. Podemos escrever e falar em tantas línguas! Ver símbolos e dar significados a eles, ouvir sons e, disso, tirar uma verdadeira poesia. E tudo isso tem uma lógica. E tudo isso é linguagem. E ela é mágica.

A linguagem não apenas nos ajuda a comunicar coisas, como também nos ajuda a montar nossa própria visão de mundo. A noção que pessoas que falam espanhol como língua materna têm sobre o tempo (presente, passado e futuro) é diferente da de pessoas que têm português ou norueguês como primeira língua. Em uma esfera mais prática, o mundo é de fato construído por linguagens: o que faz o seu computador estar funcionando e te mostrando isso agora é uma linguagem de programação, o que faz o seu prédio estar de pé é uma linguagem matemática/arquitetônica. A música que você está ouvindo é uma linguagem, o filme que está vendo é uma linguagem, o rabisco que está fazendo no papel enquanto lê isso meio distraída é, também, uma forma de linguagem. Ou seja: a linguagem lê o mundo, interpreta o mundo, explica o mundo e cria o mundo; a linguagem é ação e reação; a linguagem está por toda parte.

É por isso que, ao longo do mês de junho, vamos falar aqui na Capitolina sobre linguagem, com formas e funções diferentes, da lógica à sua quebra, da construção à destruição, do falado ao escrito ao movido ao riscado ao calculado, do peso à graça. Vamos falar sobre linguagem porque é através dela – de nossos textos, nossas ilustrações, nosso site – que procuramos, por aqui, construir um mundo melhor, com mais liberdade e poder para nossas leitoras.

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

Lorena Piñeiro
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Lorena tem 26 anos e mora no Rio, embora tenha crescido nos subúrbios da Internet. Trabalha com análise de roteiros televisivos, avalia manuscritos literários, traduz e revisa obras em inglês e escreve por aí. É igualmente fascinada pelo gracioso e pelo grotesco. Adora filmes de terror, livros de fantasia, arte surrealista e qualquer coisa que não carregue o mínimo semblante de realidade. Tem empatia até por objetos inanimados e queria ser um urso ?•?•?

  • heartsugarcubes

    suas maravilhosas <3

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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