1 de abril de 2016 | Ano 3, Edição #25 | Texto: | Ilustração: Clara Browne
Carta das editoras #25: Aquilo que não deve ser nomeado

Durante o primeiro ano da Capitolina, nós tínhamos o costume de ter uma longa discussão para decidir o tema de cada mês. Dois meses antes, a gente começava a pensar o que fazia sentido para aquele mês específico, qual palavra era mais interessante de usar, o que passava melhor a ideia que queríamos. De uns tempos pra cá, acabamos por parar com essa discussão tão detalhada, porque eram pessoas demais e todas nós começamos a nos perder no meio de tantos comentários. Continuamos com as conversas, é claro, mas agora elas são mais simples. Continuamos também com as ideias que foram dadas em meio a todas essas longas discussões durante o primeiro ano.
A gente tem salvado um arquivo com todas as ideias de temas que tivemos e que as leitoras nos sugerem. É uma lista longuíssima, com cores diferentes, comentários e anotações. Todo mês, votamos um tema dela.

Nós torcemos por temas serem votados, fazemos propaganda do tema que queremos, argumentamos contra o tema que não queremos. Tem meses que os temas parecem mais times. Outras vezes, todas nós acabamos votando num mesmo tema sem nem precisar falar sobre o assunto. A gente se promete que ainda faremos uma edição com temas absurdos, tipo bosta, enquanto também somos sérias e discutimos que no mês das mulheres é mais do que válido falarmos sobre história.

O tema desse mês foi um desses que surgiu muito tempo atrás e que sempre esteve entre o desejo de pelo menos algumas colaboradoras escreverem sobre o assunto.
Lá em 2014, quando decidíamos ainda o tema da nossa sexta edição, entramos em um debate sobre o melhor termo para ela. O tema votado tinha sido medo, mas teve gente que achou que não era um bom termo, então começamos a conversar. Medo era pesado demais, paralisante, podia ser um gatilho para leitoras. Mas que termo poderia substitui-lo? Foi assim que veio a ideia de um tema chamado aquilo que não deve ser nomeado.

Na discussão, o que percebemos é que nada deve deixar de ser nomeado. Por isso mesmo escolhemos medo como o tema de setembro de 2014. Mas a ideia de falar especificamente de coisas sem nome ou proibidas de serem nomeadas ficou e, assim, mais de um ano depois desse papo, voltamos aqui para falar sobre isso.

Medo é medo e ele deve ser nomeado. Trauma é trauma e ele deve ser nomeado. Preconceito é preconceito e ele deve ser nomeado. Prazer também é prazer e deve ser nomeado. Quem você é e o que você sente deve ser nomeado. O que aprendemos é que não é porque uma palavra ou um conceito parece pesado demais – ou porque tememos a reação dos outros – que não devemos dizê-lo em voz alta. Nós temos que definir as coisas. Para conseguir combate-las, para conseguir entende-las, para conseguir nos amarmos e amarmos aos outros. Descobrimos isso vinte meses atrás e ficamos esse tempão amadurecendo essa ideia para poder conversar disso com vocês.

Vinte meses depois da discussão sobre a nossa sexta edição, também estamos completando o segundo ano da nossa revista. Mais um aninho cheio de textos incríveis e ilustras lindas por quais somos todas apaixonadas! Mais um aninho que crescemos muito, começamos a fazer vídeos, publicamos um livro, conhecemos várias leitoras e aprendemos muito muito muito juntinhas. Honestamente, nunca imaginamos que tudo isso poderia acontecer num intervalo tão pequeno. Mas sabemos que cada passo que damos é porque vocês, nossas super ultra mega queridas leitoras, estão aqui do nosso lado – mesmo que pareça apenas a frente de uma tela – dando suporte.

Inclusive, já que estamos falando sobre coisas não nomeadas, podemos combinar com todas as letras: vocês apoiam a gente e a gente apoia vocês. Vamos sempre de mãos dadas, nos ajudando, nos abraçando, nos aconselhando e, claro, nos divertindo um bocado!

Nesse mês de aniversário, nós vamos comemorar no melhor estilo capitolínico: falando de tudo aquilo que disseram que a gente não devia falar.

E, claro, vai ter muito bolo e amigas também! Fiquem ligadas nas nossas redes sociais para saberem mais de tudo que estamos planejando! <3

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos