1 de agosto de 2014 | Edição #5 | Texto: , and | Ilustração: Bia Quadros
Carta das Editoras #5 – Cores

 

Nas brincadeiras de criança, eu sempre escolhia a power ranger amarela. Não pela personagem em si; o lance era me afastar o máximo possível da rosa, porque eu tinha medo de que meus amigos me achassem bobinha, tolinha, mocinha. É curioso pensar como atribuímos tantas expectativas, sentimentos e construções sociais para uma coisa tão simples como a cor. Quase que sem perceber, a gente já está dizendo que o rosa é para garotas e o azul é para garotos sem nem mesmo entender o motivo disso. Aliás, até os anos 40, o rosa era uma cor atribuída aos homens, não às mulheres.

Aqui no Ocidente, a gente associa o preto ao luto, mas existem países onde as pessoas se vestem de branco durante os funerais. Também relacionamos o vermelho ao sexy – o beijo, o sexo, a sedução. “Rosas vermelhas damos para namoradas, rosas amarelas damos para avós doentes.” Escutei isso em algum filme, muito tempo atrás, e fiquei embasbacada: nunca gostei de rosas vermelhas! Também nunca entendi por que o branco remete à paz quando ele sempre me parece tão claro que chega a ser um tanto quanto perturbador e desconfortável.

E desde quando a morte, o luto, a paz, a sedução, o beijo etc têm cor?! Sentimento lá tem cor?! Eu, pelo menos, nunca vi. Mas nos é ensinado assim. Constroem para a gente um mundo todo colorido, mas cheios de significados por trás dessas cores. E nos dizem: agora, obedeça isso que te foi imposto por motivo algum. As cores começam a nos trazer expectativas e nós nem sabemos de onde que isso vem. Acabamos por cair nessa como um patinho. Um patinho amarelo na banheira. Amarelo, jamais branco.

Quando eu era menor, queria me afastar da power ranger rosa porque me ensinaram que rosa era uma cor de garotinha e que isso, sabe-se lá por quê, era uma coisa ruim. E eu acabei acreditando por muito tempo. Depois, quando eu assumi que gostava da Florzinha, das Meninas Superpoderosas, foi um grande avanço. Porque ela era a rosa e, pra mim, aquilo foi realmente libertador. A Clara, por sua vez, por muitos anos, gostou da Lindinha, porque ela era azul. Até o dia em que ela percebeu que a Lindinha era muito chorona e descobriu na Docinho a sua preferência. Parando para pensar agora, é até curiosa a formação das Meninas Superpoderosas: a Florzinha, que vestia rosa (que seria a “cor de menina”, inferior às outras), é a líder das garotas. A Lindinha, que veste azul (que seria cor de menino e mais forte ou alguma bobagem do tipo), é a mais chorona e estereotipicamente feminina. A Docinho, que veste verde (que não é cor de ninguém), apesar do nome, era a mais durona de todas. E, bom, isso quebra um bocado essa ideia das cores.

Mas quem foi que veio com essa história de cores serem atribuídas a coisas e sentimentos e gêneros?

É claro que parte disso tem a ver com toda uma construção social, a qual devemos ficar sempre atentas. Mas, por outro lado, eu percebo o mundo com todos os meus sentidos e, mesmo que não enxergue a cor de algo, consigo senti-la. O sentimento que o laranja transmite é completamente diferente do azul escuro. E quando essas duas cores ficam lado a lado, cria-se um terceiro sentimento. E esse sentimento é diferente para cada pessoa no mundo. Talvez, para mim, a cor branca seja perturbadora, enquanto para você ela seja calma ou feliz. Da mesma forma, uma cor que me traz paz, como amarelo, pode te provocar uma sensação completamente diferente.

No fim, a gente usa as cores para ressignificar os nossos universos. E, se nada é de fato intrínseco a elas, por que então criar tantas barreiras? Vamos derrubar tudo e abraçar não apenas o arco-íris, mas também as cores das florestas, dos desertos e das cidades. Vamos criar a nós mesmas nossas próprias e únicas palhetas de cores.

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Lorena Piñeiro
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Lorena tem 26 anos e mora no Rio, embora tenha crescido nos subúrbios da Internet. Trabalha com análise de roteiros televisivos, avalia manuscritos literários, traduz e revisa obras em inglês e escreve por aí. É igualmente fascinada pelo gracioso e pelo grotesco. Adora filmes de terror, livros de fantasia, arte surrealista e qualquer coisa que não carregue o mínimo semblante de realidade. Tem empatia até por objetos inanimados e queria ser um urso ?•?•?

Clara Browne
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  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

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