15 de novembro de 2015 | Ano 2, Edição #20 | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
Casa mal-assombrada ou infrassom?

Corre aquele frio pela coluna, o estômago revira, você fica zonzo e vê um vulto passar não muito longe, mas não perto o suficiente para distinguir o que era. Você tem certeza absoluta: está num lugar mal-assombrado. Residências antigas, lugares desconhecidos, ou até mesmo a sua própria casa, não é muito difícil encontrar alguém que tenha ao menos um relato de alguma experiência assim.

A ciência tem uma possível explicação para esses momentos: o infrassom. Infrassons são ondas sonoras com frequência menor que 20 Hz, ou seja, impossíveis de serem ouvidas pelos seres humanos, cuja faixa audível é entre 20 Hz e 20.000 Hz. Em geral o infrassom é muito grave e pode se propagar por longas distâncias, na natureza podem ser produzidos por terremotos, vulcões, tornados e outros fenômenos. Muitos animais são sensíveis ao infrassom e capazes de produzi-lo, como é o caso dos tigres, que tem forte capacidade de detectar essas ondas sonoras e são capazes de emiti-las com tal intensidade que elas podem até paralisar suas presas.

Mas tá. E daí? O que tudo isso tem a ver com assombrações?

Vamos lá: depois de relatos de pessoas se sentindo mal e insistindo que estavam sendo assombradas, o pesquisador Vic Tandy (que projetava equipamentos médicos), após uma experiência em seu laboratório, viu o que parecia ser um fantasma cinza próximo à sua mesa. Cheio de medo, tentou encará-lo, mas quando fechou e abriu os olhos, ele não estava mais lá. No dia seguinte o professor tinha uma competição de esgrima e Tandy levou o florete para o trabalho, e colocou-o em sua mesa. Misteriosamente a lâmina começou a vibrar sozinha e de forma frenética. Eu teria me cagado de medo, saído correndo e nunca mais voltado ali. Mas Tandy, movido pelo espírito científico, refletiu um pouco sobre toda aquela situação e sorriu. Parecia que tinha descoberto a razão de tudo.

Coincidentemente, as assombrações só apareciam numa determinada parte do prédio e começaram a surgir depois da instalação de um exaustor no laboratório. Logo concluiu: a culpa era da ressonância. Todos os corpos tem uma frequência de ressonância, é só bater nele que ele vibra, produzindo determinadas ondas sonoras. Da mesma forma, se esse objeto recebe o estímulo de sons na mesma frequência, ele treme. Então Tandy, pra confirmar sua teoria, foi medir as ondas sonoras do tal exaustor e descobriu que, além de um barulhão bem chato, o ventilador emitia infrassom. O som grave e imperceptível ao ouvido humano encontrava na sala estreita o ambiente perfeito para se propagar, acumulando energia sonora no ambiente.

As ondas sonoras também são capazes de fazer vibrar certas regiões do corpo humano e, assim, causar sensações boas ou desconfortáveis. Neste caso, as sensações ruins poderiam ser explicadas, por exemplo, pela ressonância do estômago (causando enjoo e mal-estar), do bulbo cerebral (que controla a respiração, causando hiperventilação, que dá a sensação de medo, ansiedade e até alucinações), de uma parte do ouvido chamada labirinto (causando tontura e suor frio), e até do globo ocular (causando manchas na visão ou até ilusões de ótica). Depois da substituição do exaustor, a sensação de assombramento desapareceu.

A teoria foi batizada na Inglaterra como “efeito Tandy”, e explica, também, porque os fantasmas tendem a preferir corredores compridos, lugares subterrâneos, casas grandes e vazias: é tudo por causa da acústica. Nesses lugares, até uma rajada de vento por uma abertura pequena pode causar infrassom, e aí é como se as ondas sonoras ficassem presas, e essa energia só vai crescendo enquanto a fonte do som não for extinguida.

Que o infrassom é capaz de provocar sensações muito estranhas em nós, seres humanos, os cientistas estão certos. Essas ondas sonoras de baixíssima frequência têm um potencial tão grande (e ainda não tão amplamente conhecido) que já integraram até pesquisas como possíveis armas (tenho mais medo disso do que de assombração). Se em alguns casos ficou evidente que eram elas as responsáveis pela sensação de casa mal-assombrada, isso também não quer dizer que essa é a única explicação para todos os incidentes, ou mesmo que alguns possam realmente ser completamente explicados pela ciência. Tampouco são alguma espécie de prova de que o mundo sobrenatural não existe (isso aí já é papo de muitos outros posts).

Agora, euzinha, apesar de ter entendido os possíveis efeitos do infrassom, e de acreditar que a nossa cabeça pode realmente pregar umas peças dignas de parque de diversões, já vi filmes de terror demais pra entrar em uma casa mal-assombrada e ainda ficar transitando por corredores vazios em busca de exaustores velhos, caldeiras ou qualquer outra fonte de infrassom. Na dúvida, miga, meu lema é: corra pra bem longe e chame os caça-fantasmas.

Iane Filgueiras
  • Colaboradora de Saúde

Iane Filgueiras, 25 anos, de São Gonçalo - RJ, é mestranda em mídia, com pesquisa voltada para comunicação e saúde. Tem vários desejos, pouco dinheiro, e muito trabalho. Sentimental, faladeira e ansiosa até o último fio de cabelo. Prefere um bom filme/série na TV com balde de pipoca e edredom a quase qualquer coisa. Tem gostos ~~infantis~~, mas é com eles que se sente mais feliz. Sonha em ir à Disney, mas nunca quis ser princesa.

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