6 de maio de 2016 | Ano 3, Edição #26 | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Choque de gerações: como lidar?

Qualquer um que tenha estudado minimamente a história do século passado sabe que foi um período de tempo particularmente caótico. Revoluções e movimentos de independência a todo momento, polarização ideológica, uma ordem mundial virada ao avesso, o surgimento de praticamente toda a mídia que conhecemos hoje, a criação de um conceito separado de “adolescente”, a revolução sexual, duas ondas do movimento feminista… Puft. Não seria um exagero dizer que o mundo com o qual estamos acostumadas e já damos como garantido tem, no máximo, vinte anos de idade – mais ou menos a da internet que, no Brasil, só se tornou publicamente acessível em 1995.

Com a internet, veio a conexão, e, com esta, quantidades de informação em constante expansão. Como alguém nascida em 1997, eu desconheço por completo um mundo sem essas quantidades exorbitantes de informação a um clique de distância. Eu tenho aulas de informática desde os quatro (!) anos e, em 1995, meus pais já tinham mais de trinta e minha avó, quase sessenta. Todos eles viram a televisão chegar ao país, a transição do disquete para CD, a batalha entre o VHS e o Betamax.

É claro que houve diversas mudanças significativas nos costumes nesse meio tempo – a transição para a democracia, por exemplo, o fim da Guerra Fria e o  início da Guerra ao Terror… Mas acredito que a tecnologia sozinha já seja o bastante para ilustrar que o salto que houve da geração deles para a minha foi, talvez, o mais exorbitante da história. Ela é, aliás, uma consequência e uma arma usada em todos esses processos.

Antes de tudo, a internet é uma disseminadora de ideias democratizada em um nível sem precedentes – sem ela, não teríamos Malala, Tavi e muito menos Capitolina. A minha voz, a de todos aqueles que não controlam os meios de comunicação tradicionais ou vivem nos grandes centros, não seria ouvida. Há pouquíssimos anos, a voz representada por nós e diversas outras garotas jovens não era ouvida nem dentro de casa, uma vez que a ideia de família como um espaço de convivência era um tanto menos popular do que uma baseada em ordens irrefutáveis dadas pelo “chefe da casa”.

Basicamente, virei adolescente em um mundo fervilhando com o debate sobre direitos das “minorias” e tendo acesso a relatos diversos, algo que me tornou alguém com o posicionamento político que tenho hoje. Por mais que nossa família muitas vezes até concorde conosco, ela se formou numa época em que essa discussão era inteiramente ignorada e o senso comum de enxergar essas reivindicações como um “ultraje” era ainda mais disseminado. Nós, como sociedade, só passamos a encarar discurso de ódio como inaceitável e confrontar desigualdades quando todas as pessoas que são habitualmente subjugadas passaram a ter poder de fala. E se a nossa conscientização já não ocorre sem algumas falhas, imagine a de quem passou a maior parte da vida sem reconhecer aquilo – ofensas raciais/de gênero/à comunidade LGBT e a violência, física ou não, direcionada a essas pessoas – como errado.

Mas, e aí, o que a gente faz? Desiste?

Palavras e ações não deixam de causar danos só porque partem de alguém mais velho. Concordo que é mais difícil mudar opiniões mais consolidadas, mas não compro a velha conversa de que pessoas, a partir de uma certa idade, têm ideias imutáveis. Tudo depende da disposição (ou não) delas em mudar, assim como ocorre com qualquer um de 15, 18, vinte anos. Mas também não dá pra dizer que aquele seu parente saudosista da ditadura é tão passível de mudança quanto a sua avó que acha um absurdo uma mulher sair de casa vestindo “certas” roupas. Acredito que pra aqueles que cometiam quase que exatamente os mesmos deslizes que nós cometíamos antes de termos consciência, a mudança é bem possível.

Aprendemos diversas coisas valiosas com gerações passadas, sem dúvida, e tiraríamos proveito do resgate de alguns hábitos que perdemos (como, por exemplo, comida caseira). Mas a crença numa “hierarquia do conhecimento” – que a informação só pode fluir de gerações antigas para a nossa, e nunca o contrário – é uma daquelas ideias antigas que realmente precisamos quebrar.

Bárbara Reis
  • Colaboradora de Cinema & TV

Bárbara Reis tem 18 anos, é paulista e estuda Jornalismo na ECA. Acha que a internet é a melhor coisa que já aconteceu, é fascinada por novas linguagens e tem o péssimo hábito de acumular livros para ler e séries para assistir. O seu pior pesadelo envolveria insetos, agulhas, generalizações, matemática e temperaturas acima de 27ºC.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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